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terça-feira, maio 19, 2020

Pequenas histórias do 25A74

A propósito do meu testemunho sobre o 25 de Abril de 1974, publicado no facebook do Museu do Aljube (ainda é possível ler clicando na imagem aqui ao lado), o amigo José Quadros envia-me o seu testemunho, enquanto miliciano que viveu o período do golpe das Caldas e o 25 de Abril ainda na tropa, o que agradeço e aqui se publica:
Caro amigo
É verdade que todos os que na altura cumpriam serviço militar terão um bocadinho da história deste país por contar, especialmente importante porque partem de outros ângulos que não são os do Terreiro do Paço e esses estão documentados. Podem ser pequenas histórias mas todas ajudarão a construir a grande história. Aquilo que vivi no meu contexto passou ao lado da grande história. Nunca vi referido que todos os cabos milicianos do golpe das Caldas estiveram presos em Santa Margarida e foram interrogados por generais vindos de Lisboa. Eram cento e tal. Eram milicianos como eu e sentia na pele o impasse que aquilo representava para a vida deles. Falava particularmente com eles e dentro de um certo secretismo ajudava no que podia sem levantar na estrutura superior evidências. Era assim que lhes levava o correio em mão para o Tramagal, pois tinha-me apercebido nos primeiros dias que o correio ficava na gaveta do comandante da unidade. Os familiares por este meio localizaram-nos e vinham visitá-los, mas havia regras apertadas. Contactos só à distância. Arranjei uma saleta clandestina e metia lá os familiares sozinhos com eles e só poderiam de lá sair depois de eu verificar com o sentinela conivente  que não andavam superiores por ali.
E por aí fora…muitas histórias.

sábado, maio 02, 2020

Uma imagem por dia 30

Portimão, 1 de Maio de 1974. Seis dias depois do 25 de abril, a extrema esquerda organizou o primeiro 1º de Maio em  liberdade, em plena autonomia dos partidos 'burgueses'. Os partidos que giravam em torno da Junta de Salvação Nacional (dirigida por Spínola) e que tinham tomado a Câmara Municipal de Portimão (MDP-CDE, PS e PCP) juntaram as suas hostes e o povo no Largo da Câmara, enquanto nós, militantes das organizações marxistas-leninistas (CMLP, URML,ORPC-ML, entre outras) mobilizamos umas centenas de operários da EFACEC, EMPREITAL, Conserveiros e Pescadores e muitos estudantes. E o palco foi montado ali mesmo junto ao emblemático Rio Arade, No palco, depois de ouvirmos o José Miranda Justo declamar Mayakovski, o grande poeta e teórico russo, discursamos em defesa dos operários e trabalhadores de Portimão, prevendo as lutas que se aproximavam. Lá estamos, o Cabrita, a Manuela, o Bejinha, o Renato, eu, a Carmen e muitos outros e outras de que agora não lembro o nome. A história fizemo-la nós, assim.

sexta-feira, maio 01, 2020

Conto publicado no Museu do Aljube

O MUSEU DO ALJUBE | RESISTÊNCIA E LIBERDADE 
publicou na sua página de facebook o meu conto sobre o 25 de Abril de 1974, a partir de três testemunhos escritos no 30º aniversário da revolução:

Trinta Anos Depois, Mais Dezasseis
Fim da tarde. Regressava, com os meus colegas de escola, da cidade de Silves onde estudava num ano comercial para o acesso ao liceu. Um ano obrigatório, que o ensino fascista criou para obrigar os filhos dos pobres a mostrar que tinham competências para passar da Escola Técnica para o Liceu. Em Portimão, onde tinha nascido e onde morava, a Escola Técnica terminava no 5.º ano e por esse motivo deslocava-me, a pé, do bairro operário onde morava até à estação dos comboios, para ir até à cidade dos poetas árabes.

domingo, abril 26, 2020

Memória do meu 25 de Abril de 1974

Foi uma surpresa quando a vi editada. Na pesquisa bibliográfica para o meu doutoramento encontrei o livro com testemunhos do 25 de Abril, recolhidos para a edição das memórias do PREC, no 20º aniversário da revolução, por Francisco Martins Rodrigues com o título «O Futuro Era Agora. O movimento popular do 25 de Abril» das Edições Dinossauro (1994). Na página 16, após o testemunho da operária conserveira Maria Luísa Ernesto - que seria durante 10 anos presidente do Sindicato das Conserveiras em Portimão - lá vinha a letra da canção "A Luta das Conserveiras". Eu tinha-lhe perdido o rasto, apenas ficara na memória aqueles dias de outubro/novembro de 1974, de vigilância diurna e noturna à porta das fábricas de conserva de Portimão, para não deixar os patrões retirar as conservas para as vender, como forma de obrigá-los a aumentar os míseros salários e a assinar um contrato coletivo de trabalho. Eu era estudante do Liceu de Portimão, depois de ter vindo da Escola Comercial de Silves, e em conjunto com mais colegas e camaradas, alguns já professores, cumpríamos a vigília da noite, quase sempre ao frio, aquecidos de café trazido por amigos, ou pelas violas dos companheiros do GAC- Grupo de Acção Cultural 'Vozes na Luta' - que, entre outras, cantaram a canção da greve do «Jornal do Comércio». E foi nessas muitas noites seguintes, faltando às aulas das manhãs, que eu e o Helder Gonçalves, e com a ajuda suponho de mais amigos e amigas, fomos construindo a letra da Luta das Conserveiras, com a melodia da canção Greve no Jornal do Comércio. E que cantamos, noites sem fim, nesses dias «Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo» (Obrigado Sophia).

[Clicar na imagem para ler]

quarta-feira, abril 22, 2020

Uma imagem por dia 20

Precisamos de mudança, pintou o Luís Pina (2016) na parede velha, do seu quadro de homenagem ao 25 de Abril. Os cravos vermelhos foram elevados ao pináculo da escadaria, como se fossem a santidade simbólica da soberania  popular que se eleva sobre a cidade e as suas prisões reais e imaginárias.

segunda-feira, abril 30, 2018

A memória do 25 de Abril de 1974...



 (1º de maio de 1974 em Portimão, organizado pela extrema esquerda)

Alguém que me venha questionar sobre a importância do 25 de Abril de 1974, para nós portugueses, mas também para Europa e outros recantos do Mundo, é para mim tido como uma agressão. Pode ser uma agressão inconsciente, resultante do desconhecimento, mas é uma agressão.
Há 44 anos, quando cheguei a Loulé para mais um dia de aulas, no curso de administração e comércio da escola técnica, deparei com os colegas na rua, os comentários de que algo teria acontecido em Lisboa, uma revolta, um golpe de estado...
Para mim, com 16 anos vividos no campo, tudo aquilo era algo impensável, desconhecido... Levei tempo a entender, a compreender o que de facto se estava a passar. Ouvia muito a rádio, não tinha televisão e raramente comprava jornais, não havia dinheiro para esse extras.
O que me levou a entender o processo que o 25 de Abril nos trouxe foi o passado, até então incompreendido.
Desde os 11, 12 anos que eu assistia regularmente à semana de exercícios dos furriéis milicianos que vinham para a área que eu habitava, antes da mobilização para África. Era uma semana terrível, com o ecoar de rajadas de metralhadora e disparos dia e noite. Uns eram os "turras" outros o exército português.Tudo se devia assemelhar ao contexto real que iriam encontrar na Guiné, Angola ou Moçambique. Por vezes apareciam-nos, às escondidas, a pedir um pouco de comida. A ração de combate que lhes havia sido distribuída era exígua e a fome fazia sentir-se.   
Eu cresci fisicamente cedo, então raro era o exercício em que nos encontros fortuitos que tinha com os soldados que não lhes ouvia o conselho, entredentes:
- foge daqui o mais cedo que possas!
Eu sabia e conhecia jovens que tinham fugido para França. Ouvia falar dos mais diversos expedientes para evitar ir para a tropa e com grande probabilidade de ir parar a África e lá morrer, ou vir deficiente fisicamente, ou com profundas alterações mentais. O meu raio de vivência era pequeno, mas conhecia de tudo.
Eu aos 16 anos estava aterrorizado com a aproximação do que me ia acontecer.
Além disso eu ia assistindo ao desaparecimento de muitos dos homens que via diariamente. Algum tempo depois as mulheres tinham ficado, após terem recebido carta de que tudo estava bem, lá relatavam que o marido tinha ido para França.
Na generalidade dos casos uma emigração clandestina, a salto, com desembolso de elevadas quantias aos "passadores". Era a busca de conseguir condições de vida para si e para as famílias.
Apenas estes dois apontamentos, para não ser exaustivo, foram âncoras para a minha compreensão posterior do País em que vivia e da importância do 25 de Abril.
Esse elevado momento da nossa vida enquanto povo, desde então todos os dias minado por quem usa as palavras como máscaras - a democracia, a liberdade, a justiça - impondo que sejam algo feito à sua medida, à medida dos poderosos, merece uma atitude que não temos tido.
De fato, se os mais novos hoje não entendem o 25 Abril de 74 porque não o viveram e se os mais velhos o parecem esquecer, hipnotizados e asfixiados pela aldrabice a que pomposamente chamam pós-verdade, isto só pode querer dizer que há algo que nós vivemos, que temos que ser capazes de transmitir, com certeza  de forma diferente.

Pode parecer descabido, mas reflictam sobre o tempo em que estamos com Huxley…

[Joaquim Mealha Costa, abril 2018]

segunda-feira, novembro 17, 2014

1975

(Comentário em breve)

Demissão do ministro Macedo

Fica a esquerda e a oposição toda entusiasmada com a demissão do ministro Miguel Macedo, acrescentando a embalagem  para empurrar outros ministros 'incompetentes' como Crato, por exemplo. A visão denota uma análise política que incide sobre a tarefa de gestão corrente do capitalismo e não como deveria ser, sobre o papel que os ministros desempenham na implantação do capitalismo e da exploração dos assalariados. Por isso não vale a pena espernear. Melhor será então derrotar a sua política, nas eleições e na rua e defender as conquistas de poder popular impostas no PREC.

sexta-feira, março 28, 2014

25 de abril em Loulé

Confesso que este ano as comemorações do 25 de abril não me aquecem nem me arrefecem. Pergunto-me porquê. E talvez encontre a resposta na legitimação que a burguesia e o capitalismo fizeram da revolução. Diria melhor, da sua revolução. Sim, talvez fosse melhor falar, como sugere Bourdieu, de revoluções. E na verdade, o que  se comemora hoje (este hoje representa muitos anos) não é a revolução do PREC (quem não sabe o que é, pesquisa), nem a do poder popular, mas a da 'normalização', como referia Stoer. Eu, que a vivi em «acto», naquele dia, custa-me ver alguns dos seus heróis colocados no palco, deixando a plebe na plateia, sujeita a convite democrático, plasmado em bilhete, para assistir à nomeação da revolução. 
Por tudo isto, tem toda a razão o João Martins, que faz da 'arruaça' a sua arma democrática. E eu quero dizer que estou com ele, e apoio o seu grito em defesa da democracia e não deste 'abril'.

1º de maio de 1974 em Portimão

quinta-feira, abril 26, 2012

Refundar Abril na rua

Ontem, muitos populares dos concelhos de Vila Real de Santo António e de Castro Marim desenvolveram uma ação cívica de participação no espírito do 25 de Abril de 1974. Contrariando e contestando a inércia e passividade das autarquias e demais entidades responsáveis, vários ativistas - entre os quais elementos da Comissão de Utentes da Via do Infante - pintaram duas passadeiras de peões e ciclistas na rotunda de Vila Nova de Cacela e em Altura, ambos os locais na EN 125. O primeiro caso é gritante: o trajeto de passeios e ciclovias desemboca no asfalto da EN 125, sem qualquer passadeira, obrigando as pessoas a autênticos malabarismos na travessia. O segundo caso, em plena estrada nacional sem visibilidade, obriga a população a esperar 'sentada' que algum condutor mais benévolo permita a travessia, pois não há qualquer local assinalado para os peões. Com o estado atual da EN 125 entupido de trânsito e a Via do Infante às moscas, a vida das populações que habitam ao largo da estrada nacional está transformado num inferno. "O estado a que as coisas chegaram" obriga a atos de participação e resistência cívica, mesmo contando como o de ontem, com a chegada de forças dissuasoras da Guarda Nacional Republicana, dispostas a ameaçar os ativistas.

segunda-feira, abril 23, 2012

Fazer de novo Abril

A Associação 25 de Abril, que conjuga o espírito dos capitães de Abril, em torno do ex-MFA, recusou-se a participar este ano nas cerimónias oficiais do 25 de abril, na Assembleia da República. Marina Costa Lobo, politóloga, acha que as instituições são autónomas da ideologia e por isso discorda da posição dos capitães. A posição do sociólogo Teixeira Lopes é favorável, por considerar que a Associação se sente defraudada pelo poder atual. 
É evidente que estamos perante posições ideológicas e que o que está em causa é uma leitura política do poder atual, tal como deve ser mesmo a política de análise crítica dos problemas sociais. Se a posição dos capitães fosse a de respeito neutro pela ideologia de poder do Estado Novo, o fascismo nunca teria sido derrubado. Trata-se, pois, de uma afirmação ideológica de rutura, que abre caminho a uma leitura de resistência contra o fascismo austeritário e a busca de novas revoluções sociais.

domingo, abril 27, 2008

Abril, há tanto tempo...

Apesar de atrasado (a vida não pára e prefiro isso ao foguetório memorialista das comemorações), aconselho a leitura do conto que escrevi há uns anos sobre o 25 de Abril de há 34 anos. Está ali ao lado, publicado na revista de contos «Bestiário» e chama-se "Trinta anos depois" (link).