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segunda-feira, dezembro 13, 2021

José Carlos Barros, Prémio Leya 2021

                                                                      (foto: Augusto Brázio)

José Carlos Barros é o vencedor do prémio Leya de 2021 (valor de 50 mil euros), com o romance «As Pessoas Invisíveis», ainda não publicado. Poeta e romancista, jcb – como assina os seus desenhos – já foi premiado várias vezes com contos e poesia e foi ainda finalista do prémio Leya de 2012, com o romance «Um Amigo Para o Inverno» (Casa das Letras, 2013). Conheci-o nos posts da blogosfera, na altura da grande dinâmica dos blogs em Portugal, a partir de 2003-2004. Escrevia no blog Presa do Padre Pedro, ainda antes do mais recente Casa de Cacela, nome do seu empreendimento turístico na Vila Nova de Cacela. Entre contos, poesia e romance, teve ainda tempo para dirigir uma excelente revista de temática cultural, com ensaios, estudos e entrevistas sobre assuntos diversos do Algarve, que ainda assinei até ao seu desaparecimento (Sul). Em tempos convidei-o para introduzir a poesia de Casimiro de Brito, numa conferência em Loulé, e o Zé Carlos deu bem conta do recado contando a história de uma troca justa que fez em Lisboa: ao invés de comprar o almoço, comprou um livro de Casimiro, porque o dinheiro era limitado. A última edição de José Carlos Barros, «Estação» (On y Va, 2020), é a antologia de poemas seus publicados no DN Jovem, onde debutou nos anos 1980, entre outros valores confirmados das nossas letras. Parabéns amigo!

terça-feira, setembro 07, 2021

Passeio Ribeirinho Fernando Silva Grade?

A cidade de Faro comemora hoje (7 de setembro) o seu dia. No programa, anuncia-se a inauguração de um conjunto toponímico de homenagem a figuras da cidade. Fernando Silva Grade, para nós o Fernando Grade, falecido há uns anos, também terá o seu nome num Passeio Ribeirinho. Sintoma daquilo a que os sociólogos chamam a ‘cooptação’ – mecanismo de conquista e sedução de figuras contestatárias em vida e que pós mortem têm a sua homenagem - , esta atribuição parece fazer jus a quem sempre teve uma vida pautada por afetos e compromissos ambientais. Na verdade, essa homenagem é uma prova da conquista do poder sobre a destruição da cidade, e uma forma indelével de apagamento da liberdade e da autonomia da crítica. Razão tiveram Herberto Helder, José Mário Branco e Luís Miguel Cintra (felizmente ainda vivo), na recusa de quaisquer homenagens daqueles contra quem combateram.

 

sábado, fevereiro 13, 2021

Viviane, com um abraço!

 


                                                                              (transparência de Ana Catarina Neto)

Convidada, pela organização do Festival da Canção (FC), a apresentar um tema a concurso, Viviane escreveu e compôs com Tó Viegas a canção “Com Um Abraço”, tema que disputa a 2ª eliminatória do FC no dia 27 de fevereiro, na RTP1. Iniciada na música de raiz tradicional no coletivo Borda d’ Água em Tavira, Viviane foi fundadora do grupo de música moderna Entre Aspas, numa altura do boom da música cantada em português. O grupo editou vários álbuns que marcaram presença em muitos concertos nacionais, e deixaram saudades na região do Algarve. Entretanto Viviane emergiu numa carreira a solo na música de renovação do fado em Portugal, com repertório aberto a afinidades culturais e musicais de outras paisagens, como a França por exemplo. Depois de já ter sido jurada no FC, em anos anteriores, está agora presente com uma canção de referências sobre os tempos de amor e desamor que vivemos, com um refrão que fica rapidamente na orelha. A canção é interpretada pela algarvia Ana Tereza. Boa sorte para o novo trabalho!

Ouvir aqui!

sexta-feira, maio 08, 2020

José Zambujal

 (O Zé entrevista, numa gruta de Monsanto, a cantadeira e tocadora de adufe Catarina Chitas-Ti Chitas)

A morte vem tropeçar nos nossos pés, nos nossos olhos. Foi assim com o Fernando Grade, quando procurava um tema nos jornais online. Agora é a morte do Zé Zambujal, que vem por arrasto de um link nas leituras do meu telemóvel. O artigo do Postal do Algarve (aqui) anuncia-o como filho do «humorista desportivo Francisco Zambujal», mas o Zé não precisa dessa ascendência. O seu percurso passou por quase tudo, da escrita jornalística às artes como a fotografia, ou como agente musical, que praticou sempre de sorriso e afinidades eletivas.
Conhecemo-nos em 1978, quando fui viver para Faro, e mesmo com a vida da política e da cultura fomos convivendo, namoriscando as raparigas em volta da Escola do Magistério Primário, depois em torno do novel  e brilhante Teatro Laboratório de Faro, que o Zé fotografou nos ensaios e nas peças. Em casa da família dele conheci o pai e apreciei muitas das suas caricaturas desportivas, que apenas lembrava das páginas de A Bola, nos anos idos de Portimão. Foi ele que me emprestou o fato de mergulho na Ilha do Farol, eu que só conhecia a proteção do óleo de coco besuntado no corpo, para aguentar 30 minutos nas águas da Praia do João de Aréns/Portimão, onde caçava polvos e chocos.
Antes de partir para os vários ofícios em Lisboa, o Zé ainda arrendou, com o Francisco Rosado, o célebre 7ºC, um apartamento na Rotunda do Hospital em Faro, onde nasceu o grupo de música 'Levante', mais tarde batizado de Dar de Vaia. O 7ºC era uma das casas da comunidade de malta jovem de Faro e de Olhão, da música, da poesia, do teatro, da boémia das noites, do Cine Clube de Faro, do Círculo Cultural do Algarve, do Teatro Laboratório, do Dar de Vaia, da Cooperativa Lábios Nus... Ali perto, na Estrada da Penha, a minha casa (em comum com outros amigos e amigas) era outra das casas com a mesma vida.
Há dois ou três anos atrás reviu-o, depois de muito tempo, no concerto da Viviane em Loulé, amiga comum que o Zé agenciava. Eu, que tinha sido o primeiro manager dos Entre Aspas. Caramba, como a vida é!
O Zé, nas suas últimas palavras, confessa que viveu! Verdade!

sexta-feira, abril 24, 2020

Miguel Portas há 8 anos

 (Miguel na Biblioteca de Loulé, em janeiro de 2012-foto minha)

Cito o que escrevi há oito anos, horas após saber da morte de Miguel Portas, em Antuérpia, a 24 de abril:
Miguel Portas morreu há pouco, em Antuérpia. Acompanhava a evolução da doença que o preocupava desde há dois anos. Mesmo com metástases a reaparecerem o Miguel veio a Loulé fazer uma conferência sobre a Europa, onde mostrou mais uma vez as suas qualidades de lutador, criativo e inteligente a explicar as suas ideias. Recordo-o em Tavira, nos anos 80 quando escrevia para o Expresso, ainda em fólios numa máquina de escrever; lembro-me dele na ilha da cidade tentando convencer-me com a leitura do livro «O partido com paredes de vidro». Um dia aparece-me em Faro, para trabalhar num curso que então fazia, ensinando a sua economia de justiça e igualdade cooperativa. Na altura andava às voltas com a bela revista Contraste, que dirigia com Paulo Varela Gomes. Mais tarde vejo o seu nome na Vida Mundial. Uma enorme sede de construção de um mundo diferente, onde a cultura e a solidariedade fossem o quotidiano. Mesmo à distância, ele é um amigo que nos deixa saudades e nos lega inquietudes que queremos preservar.

segunda-feira, abril 20, 2020

Uma imagem por dia 18

Couves, acelgas, espinafres, nêsperas, hortelã. No recipiente redondo, base de um garrafão de plástico reutilizado, amoras, prontas a comer. O terreno é curto, poucas árvores de fruto e muitos vegetais. O meu amigo, que é professor, trabalha por gosto e complementa a vida profissional, com este lazer trabalhoso, como se fosse o #ApoioAoEstudo a complementar as aulas à distância dos professores e das professoras. Mas mesmo assim a horta serve muitos amigos e amigas, na volta da cidade que este casal percorre com vontade e solidariedade. Agradece-se o que chega a casa e nos alimenta.

segunda-feira, setembro 09, 2019

Fernando Silva Grade


(Blog FaroArtistas)
Dei pela notícia do falecimento do Fernando Grade numa leitura do 'barlavento' a propósito dos organismos gelatinosos, do programa Gelavista, em que participo. O Fernando Grade - era assim que o conhecíamos, já que vem a adotar o nome Silva mais tarde por razões artísticas,  - era hoje mais conhecido como crítico urbanista e ativista ambiental. A sua formação de biólogo e a sua veia filosófica macrobiótica levam-no a aderir às causas ambientais, muito antes da moda e da sua filiação na associação Almargem.
Conhecemo-nos, entre outros praticantes e defensores das tradições musicais do Algarve, no projeto musical Levante, que mais tarde dá origem ao ainda célebre Grupo Dar de Vaia. O Fernando era o homem das congas e da viola, que assumia com empenho, nos ensaios e nos treinos de casa que compartilhei algumas vezes. Entre 1983 e 1984, fez parte da equipa do Museu Regional do Algarve, comigo e com a Luísa Rogado, que investigou Aljezur e preparou a exposição sobre o património do referido concelho. Durante esse período passamos muito tempos juntos, na aldeia da Zambujeira e na casa de família na Praia de Faro, visionando centenas de diapositivos para que o Fernando desenhasse, a tinta-da-china, os elementos etnográficos. Muito na linha do etnógrafo Fernando Galhano, o Fernando ganhou alento para iniciar a sua pintura de temática geológica, vivendo alguns tempos isolado em retiro junto da aldeia da Raposeira, como motivo de inspiração e de recolhimento. Aí visitei-o algumas vezes, entre as minhas odisseias em busca do património cultural algarvio, e nos últimos tempos tenho pena que nos tenhamos avistado tão poucas vezes.
Até sempre Fernando!

quinta-feira, março 19, 2015

Zé Francisco, músico do mar do Algarve

O Zé já não me surpreende. Ao ouvir a Rua Fm, no caso o programa Socializar Por Aí (do curso de Educação Social), dei com o 1º álbum do Zé Francisco, velho amigo das lides musicais (Borda d'Água, Entre Aspas, Mare Nostrum, and so on), na sua velha veia de cantautor. O Zé escreve com a alma de pescador da borda dágua, cheio da maresia de Santa Luzia. Para além disso é um grande músico, que herdou as sabedorias dos lídimos instrumentistas do eixo entre Cabanas de Tavira e Fuzeta. O Zeca sabia-o bem.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Gorjear em APC

Há cerca de 8 anos (tempo de entusiasmos juvenis pelos blogues em Portugal, ainda antes da diarreia dos face...), ajudava alguns amigos a criar os seus suportes de escrita nessa plataforma. Um deles, entre outros claro, recordou-me esse facto em comentário abaixo. Para ele, que tem sabido manter as memórias etnográficas, em paralelo com a opinião crítica atual, vai uma grande saudação e o link do seu APCGorjeios (aqui).

quinta-feira, novembro 06, 2014

Viviane em Loulé

A surpreendente cantora Viviane (vocalista dos ex-Entre Aspas, de quem fui o primeiro 'manager'), estará presente no CineTeatro Louletano no próximo dia 8 de novembro (sábado), pelas 21:30, onde apresentará o seu mais recente álbum. A não perder!

domingo, outubro 12, 2014

Ouro e Vinho de Adão Contreiras




Ontem, Adão Contreiras apresentou o seu mais recente livro de poemas, Ouro e Vinho, editado pela 4Águas Editora. O comentário de Tiago Nené sobre o livro conteve aspetos que me interessam abordar, já que conheço o Adão.
1. “O voyuerismo do olhar”: Adão é um observador nato e consegue estar dentro e fora da realidade. Se há algo de curiosidade no olhar do que se escreve, o que conta aqui é mais o resultado desse desenlace. Trata-se de um olhar para ver e interpretar, talvez na senda atual de um Baudelaire. Adão entra e sai de cada poema com facilidade.
2. “O poema em direto”: A escrita poética momentânea, não é direta. Adão carrega atrás de si muitos anos de leitura, escrita, anotações. Quando escreve traduz um tempo passado, mesmo que o ato seja presente, que já não o é. Hoje sabemos que a nossa escrita é sempre a reinterpretação de algo, mesmo que seja apenas a interpretação do que vemos. Também se trata de uma interação, pois o autor não está isolado numa redoma, mas presente e em ato,com o que se passa, ou com o momento sobre o qual reflete, escrevendo mais tarde.
3. É comum, entre as várias expressões artísticas atuais, chamar a atenção para o vazio do futuro ato criativo. Por exemplo os fotógrafos fotografam cada vez menos. Isto decorre da visão futura do artista, como se já conhecesse o resultado final. Adão confessa já quase não ouvir música, mas ela estará presente no ritmo da escrita poética. Os poemas do autor são também eles uma construção artística, pictórica ou escultórica. Adaõ escreve como pinta e esculpe e ele já sabe o resultado final da obra.

Helder Raimundo, 12 out. 2014