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domingo, fevereiro 14, 2021

Aforismo encontrado numa nota manuscrita

 

O segredo do agitador está em fazer-se tão estúpido com os seus ouvintes, para que estes acreditem que são tão espertos como ele

Karl Kraus

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Teolinda Gersão e os erros da humanidade

Em resposta a uma pergunta do Diário de Notícias de 11 de fevereiro, sobre os efeitos da pandemia no comportamento das pessoas, a escritora Teolinda Gersão afirma: «(...) Receio que não se aprenda nada. Normalmente, a humanidade não aprende com os seus erros». A resposta que parece ser apenas uma opinião, está consubstanciada, por exemplo, nas análises filosóficas de Desidério Murcho, sobre os 'viezes cognitivos' das pessoas. Aconselho a audição da sua entrevista no podcast do jornal Público, intitulado 45 graus (em 2 episódios).

 


sábado, agosto 15, 2020

Um vírus contra a democracia


A expressão ‘distanciamento social’ não é neutral nem despicienda politicamente. A pressão dos media, sobretudo por via das designações sanitárias das conferências de imprensa dos governos europeus, foi impondo esta novidade linguística no quotidiano dos cidadãos. Só que ela traduz uma negação da relação social próxima de cidadania e, pour cause, da democracia. Para traduzir os cuidados de contágio desta pandemia ou de outra qualquer, o termo mais adequado será mesmo ‘distanciamento físico’.
O filósofo francês Bernard Henri-Lévy (BHL) fala deste e de outros problemas, num dos primeiros livros publicados sobre a temática da ‘crise democrática’, por via do Covid-19. Do confinamento que alargou a exploração do teletrabalho, da ausência de solidariedade com os povos ameaçados por guerras intestinas, do medo do acesso aos sistemas de saúde, da fome e das outras doenças que matam muito mais, como a malária, em Moçambique, ou no Bangladesh, por exemplo. Vale a pena ver a entrevista que BHL deu no programa «Todas as Palavras», na RTP3 no dia 31 de julho, que pode ainda ser vista na RTP Play. Para além dos aspetos citados denuncia-se ainda a manipulação das ditaduras, o interesse dos grandes monopólios farmacêuticos e dos oligopólios da tecnologia digital. Na entrevista participa também o virologista Pedro Simas, que secunda grande parte dos pontos de vista do filósofo francês.

terça-feira, julho 21, 2020

Lou Andreas-Salomé

No tempo da minha boémia dos anos 1980, comprei este livro de Lou Andreas-Salomé. Na altura, as minhas escolhas literárias estavam entre as primícias do ecologismo e a filosofia mais clássica. Após estudos e leituras de filosofia (também fui dando algumas explicações a estudantes dos 10/12º anos), fui adquirindo algumas das obras menos conhecidas, como é este caso da pequena, mas sumarenta biografia de Lou Andreas. Mais conhecida por ter sido companheira do grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (René), de ter convivido e estudado psicanálise com Freud, ou de ter sido a grande paixão de Nietzsche, ela é sobretudo uma das grandes e pioneiras feministas da transição do século XIX para o XX. Mas a leitura do livro permite perceber, na verdade, quem influenciou os escritos filosóficos do autor do «Anti-Cristo», ou quem colaborou na escrita do célebre «Livro das Horas» de Rilke.
Interessante é verificar o pioneirismo das suas palavras, mostrando as perversões como tendo origem na mesma fonte das sublimações superiores da alma; e a necessidade de regressar ao primitivo, ao primário da nossa essência, como condição do nosso entendimento. A ler, a ler!

quarta-feira, abril 29, 2020

Uma imagem por dia 27


O nosso grande poeta António Ramos Rosa é conhecido sobretudo por isso, pelos belos poemas que escreveu. Depois da experiência de «funcionário público cansado», escreveu e publicou sobretudo poesia e ensaios. Mas, como quase todos os que escrevem, viveu sobretudo das traduções que fez, muitas delas de filosofia. Aqui um exemplo, de uma obra muito conhecida de Nicola Abbagnano, dos trabalhos  de tradução de Ramos Rosa dos volumes VI e VII da «História da Filosofia», o último dos quais em colaboração com António Borges Coelho.
Para conhecer + de Ramos Rosa clicar no nome do autor.

quinta-feira, abril 16, 2020

Mensagem da Amendoeira 2

É dia. O tempo está bom, ora chove, ora faz sol. Há amigo(a)s preocupados...mas cozinham, o que mostra ainda serem detentores de saberes, não dependendo em tudo da China. Talvez precisem dos ingredientes que virão de algum lado, de barco, avião, em camiões TIR...os senhores dos grandes hiperes pensam em nós, acaba-se com o próximo, compra-se lá fora! Por sugestão de um grande amigo, segue um mau conselho, são em geral os que vingam: despreocupem-se, confiem, não pensem, isolem-se, liguem-se às tic para ouvir/comunicar...é a vida futura em teste, ainda na fase 1 de 10.
[Joaquim Mealha Costa]

domingo, março 29, 2020

Os focos da pandemia

Não sei se é o medo, a ignorância, ou a estupidez. Mas as crises, seja de que tipo for, trazem sempre associados os fenómenos dos piores valores da natureza humana. Aborrece-me ver jornalistas a colocar perguntas que não servem para informar, mas para encontrar os sound-bites na resposta que, mais tarde, servirão para a declaração de opinião, em vez da informação; preocupa-me o exagero da  contenção, daqueles que patrulham com comentários quem ainda passeia ou caminha nas ruas desertas; problematiza-me o pensamento dos que procuram estigmatizar os focos da pandemia, solicitando nomes e locais, como se de uma mapa de minas explosivas se tratasse. Vamos lá malta, nem tanto ao mar nem tanto à terra!

quarta-feira, março 25, 2020

Agamben, Bernardo e a pandemia em Itália e no Brasil

(fonte: «Le Monde»)

Ontem tinha enviado, a uns amigos, um texto do marxista libertário João Bernardo sobre a pandemia no Brasil. O texto levantara muitos comentários e críticas, sobretudo pela caracterização que o autor fazia do 'povo' brasileiro, com quem conviveu nos últimos 30 anos. Eis o que enviei:

João Bernardo, um dos marxistas mais lúcidos da atualidade (Coletivo PassaPalavra), escreve sobre a pandemia no Brasil, a partir de uma perspetiva dos trabalhadores. Quem tiver paciência (porque agora tempo não falta), pode ler também os comentários pois, neste caso, é sempre o contrário do novo normal nas redes virtuais (link para o artigo)
Mas o artigo levantava outros problemas. Do ponto de vista teórico, a crítica dos anarquistas brasileiros era a de que ao defender a contenção da pandemia por via do distanciamento social, pensado no contexto da política do Brasil, Bernardo estaria a defender uma posição de recuo e passividade perante o capitalismo. Acontece que o texto é bem claro sobre a proposta de auto-gestão organizada dos trabalhadores perante o fenómeno, aceitando a precaução de vários riscos, para simplesmente não morrer.
Ontem à noite, no Governo Sombra Diário (15 minutos sobre o dia) Pedro Mexia trazia à colação outro teórico, conotado com a filosofia libertária, dizendo que Giorgio Agamben defendia uma teoria da conspiração a propósito da pandemia em Itália. Habituado a leituras eletivas daquele autor italiano, fui procurar o texto no «Il Manifesto», onde se publicara (link aqui). A opinião é de 26 de fevereiro passado, e o que lá se comenta tem como base a declaração do Centro de Pesquisa de Itália, declaração muito comedida para o caos que agora se instalou  naquele país. O ponto é outro. O teórico, que tem estudado os mecanismos de vigilância e de poder instituídos pelo Estado, questiona se o estado de emergência não passou a ser o mecanismo normal e recorrente da coação de liberdade das pessoas. Isso mesmo! Podemos ler uma justificação, na nossa língua, aqui.
Se pensarmos em Portugal, percebe-se o que tem defendido, entre outros, Daniel Oliveira sobre uma emergência pressionada pela opinião pública (seja o que isso for), quando nem mesmo o governo o definia como prioritário. Aceitando algumas medidas de contenção ou de calamidade, estaremos muito longe de aceitar, de mão beijada, o estado de emergência, considerando todas as configurações políticas possíveis no futuro.