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quarta-feira, dezembro 15, 2021

Citar Maurice Halbwachs como homenagem à memória coletiva

Nestes dias tenho andado arredado desta casa, pois a leitura de obras sobre os processos de memória e a cultura popular – indispensáveis para o livro que estou a preparar – me têm ocupado os dias. É sobre um deles, da autoria de Maurice Halbwachs, que venho aqui falar. «A Memória Coletiva» (Edições Vértice, 1990 [1950]) é uma obra extraordinária, pela pesquisa e introdução de conceitos novos no campo da filosofia e da psicologia dos mecanismos dos processos da memória. Na minha tese de mestrado citei-o algumas vezes indiretamente (portanto a partir de autores posteriores), dada a dificuldade em encontrar a obra. Passados alguns anos, eis-me aqui com o livro em pdf e alguns dados biográficos que não conhecia. Por exemplo, o facto de ter sido assassinado pelos nazis, num dos seus famigerados campos de concentração (1945), depois de ter viajado, estudado e lecionado em vários países, até ser preso e deportado após a invasão da França pelas tropas do fascista Hitler. A homenagem que lhe podemos prestar é citá-lo e referi-lo sempre.

 

segunda-feira, outubro 18, 2021

Javier Marías e o politicamente correto

O que lemos, quando lemos um livro pela segunda vez? Podemos dizer que a construção do que lemos, a sua interpretação, faz-se claramente a partir do contexto pessoal e social do momento que vivemos. Parece verdade a conhecida afirmação de Ortega y Gasset, de que «o homem é ele próprio e a sua circunstância». Vejamos um exemplo, entre as muitas leituras, segundas e terceiras leituras, que habitualmente faço.

Lendo, de novo, os ensaios de Javier Marías, escritor e ensaísta castelhano, adepto confesso do Real Madrid, no seu catálogo de ensaios sobre futebol Selvagens e Sentimentais-Histórias do Futebol (Dom Quixote, 2002), verifico o meu interesse – anotado a lápis – em sublinhar a miséria cultural e desportiva dos dirigentes dos clubes de futebol. Marías assinalara, no ensaio ‘Memória Pessoal e Viva’, de 1997: «Não sei que perverso processo conduz a que se erijam em presidentes de clubes indivíduos mal-encarados, grosseiros, chocarreiros e despóticos…». Percebo. Na altura, nesta primeira leitura, estava a escrever e publicar crónicas sobre desporto no jornal A Voz de Loulé, com o título ‘Treinador de Bancada’.

Agora, na mesma crónica, o que chama a atenção? Na mesma página (103), e depois de bater nos endinheirados e corruptos presidentes de clubes (onde já ouvimos isto?), Javier escreve e eu escolho como bandeira nova: «Se calhar devia ter mais cuidado, porque depois ainda  aparece por aí um crítico literário manhoso a denunciar que nos meus artigos insulto anjinhos probos como eles». Por que escolho esta frase? Simplesmente porque estamos no tempo da censura aos escritores, investigadores ou outros pensadores que não pensam como nós, afastados e censurados em conferências e ensaios, confundindo-se dois planos distintos: o pessoal e o artístico, a vida e a literatura. Foi o que Marías quis dizer!


segunda-feira, maio 17, 2021

A sociedade digital do capitalismo da vigilância

A Casa da Cultura de Loulé (CCL) iniciou um projeto de tertúlias sobre questões fundamentais da sociedade, que irão decorrer às 2ªs e 4ªs quartas-feiras de cada mês, em locais a designar. O primeiro decorreu no pátio da sede da associação, no dia 12 de maio entre as 18:30 e as 20 horas e foi dedicado à Sociedade Digital. Apesar das poucas presenças, o debate foi vívido e com algumas ideias. Dele resultará um resumo que irá ser publicitado no sítio da CCL. Na conversa tive oportunidade de deixar algumas ideias, que mais tarde traduzi num pequeno texto, que se segue:

A sociedade digital, que parece herdeira da revolução industrial, deve o seu desenvolvimento à revolução tecnológica. Nas palavras do historiador israelita Yuval Noah Harari, foi a revolução agrícola aquela que levou o homo sapiens à sua própria domesticação, pela criação de animais e pelo plantio dos cereais. Depois da revolução cognitiva e da revolução agrícola, a revolução científica e tecnológica trouxe acesso ao conhecimento, à partilha de conteúdos e à interação humana em bolhas especializadas.

Parece que não podemos fugir de uma vida pautada pelas interconexões digitais, para produzir, consumir, estudar ou procriar. Pessoalmente, faço um esforço para encarar este tipo de vivência humana, usando parcimoniosamente o conhecimento e a técnica digital, evitando plataformas e mecanismos de devassa da identidade e do uso abusivo das tecnologias. Não tanto por excesso de privacidade, mas sobretudo pela defesa de uma postura de consciência social e política na vida diária.

No momento presente, os dados de milhares de seres no planeta valem ouro para o mercado global de produtivismo comercial e industrial, já controlado pelas grandes tecnológicas do consumo digital de matérias primas, produtos e conhecimento, os chamados GAFA (Google, Amazon, Facebook e Apple; não coloco aqui a Microsoft, como alguns fazem, por razões contrárias). Estas megalópoles universais controlam e manipulam pessoas, dados e governos, já que nem impostos pagam, e são o exemplo da escravatura de trabalho em todo o planeta. Usando as ditas redes ‘sociais’, conceito que esconde e abandona os sentidos de pertença e coesão física, pela interface de telemóveis e computadores, são armazenados dados privados para serem vendidos no mercado de consumo que se prepara desde o início deste século. A socióloga norte-americana Shoshana Zuboff chama a isto a era do capitalismo da vigilância, devido ao controlo total da vida dos cidadãos e da produção de mecanismos de predição de tecnologia digital que irão definir os consumos futuros. Estes, irão ser levados a cada casa, provavelmente controlada pela inteligência artificial, através de algum motorista da Uber e pagos por e-banking no telemóvel, rastreado pelo GPS da Google.

O que fazer? Talvez, como muitos disseram, voltar ao trabalho de educação, como no princípio do século passado, desenvolvido pelo associativismo popular e pelos sindicatos. Desta vez, com formação tecnológica, realizada através da sociedade civil (associações, grupos informais) e concomitante com a pressão sobre as instituições políticas e sociais para um trabalho de formação popular junto dos mais desfavorecidos tecnológicos, com vista à sua inclusão digital e à cidadania plena.  

Referências:

Harari, Yuval Noah (2020). Sapiens. De Animais a Deuses. História Breve da Humanidade. Amadora: Elsinore.

Zuboff, Shoshana (2020). A Era do Capitalismo da Vigilância. A disputa por um futuro humano na nova fronteira do poder. Lisboa: Relógio d´Água.


 

quinta-feira, março 11, 2021

De como os imigrantes se transformam em portugueses

É claro que todos ficamos contentes e entusiasmados com as medalhas de ouro dos nossos atletas, nos Europeus de pista coberta em atletismo. Patrícia Mamona, Pablo Pichardo e Auriol Dongmo. Estranha-se os nomes, porque dois deles são imigrantes nacionalizados portugueses. Esta questão lembra-me sempre o que Miguel Portas dizia, a propósito dos mecanismo xenófobos sobre o acolhimento de imigrantes, em Portugal. Tomando como exemplo padrão o grande Francis Obikwelu: «quando trabalhava nas obras, era um preto servente de pedreiro; agora, é o campeão de velocidade português!» (adaptado pela memória). Percebe-se, não!?

 

quarta-feira, janeiro 13, 2021

Ciganos contra o racismo e a xenofobia

No meu trabalho como docente tive oportunidade de conhecer e conviver com algumas comunidades ciganas, nos concelhos centrais do Algarve, particularmente a do Acampamento Azul (uma interessante experiência de auto-construção de alojamento na freguesia de Quelfes em Olhão), a dos Bairros da Horta da Areia e da Avenida Cidade  Hayward em Faro (experiências de bairros multiétnicos), ou dos Bairros de alojamento social em Loulé (que permitiram a habitação de ciganos vindos de locais como o Cerro de Santa Luzia, por exemplo). Fiz algumas amizades e de vez em quando ainda converso com alguns elementos destas comunidades, em especial com amigos vendedores no mercado de Loulé. Em todas estas e outras comunidades tenho antigos alunos e alunas a trabalhar, e nalguns casos a dirigir projetos e instituições, como na ACASO em Olhão, na Fundação António Silva Leal em Faro ou na Casa da Primeira Infância em Loulé.

Conhecemos a cultura cigana, as suas idiossincrasias gregárias, de coesão e de solidariedade, também de conflito e de receio do outro, resultados da perseguição que sofreu o povo Rom ou o povo Calé, ambos originários da mesma região da Índia. Do ramo minoritário Calé, saliento uma das minhas melhores alunas, voluntária dos Bombeiros de S. Brás de Alportel e que deu já a cara em defesa da sua comunidade e do seu povo. A ela tive o maior gosto em oferecer-lhe o livro Os Ciganos, de Claire Auzias, uma das melhores especialistas no povo Rom.

Por isso assisto, com prazer e contentamento, à resistência que elementos destas comunidades estão a desenvolver contra a xenofobia, o racismo e a intolerância da extrema direita, nas ruas do Alentejo e do Algarve.