No sábado (15) assisti ao webinar «Por Uma Maioria Plural de
Esquerda», moderado pelo jornalista Daniel Oliveira e com a participação de
cidadãos que subscreveram o manifesto com o mesmo título, antes referido, e
publicado no passado dia 4 de janeiro no jornal Público. As intervenções e os testemunhos gravados, marcam uma
posição de proximidade com a iniciativa convergente realizada por setores da
esquerda em 2015, nos finais dos tempos austeritários da troika. As bases da
carta são claras: o PS por si só não consegue desenvolver um programa de corte
com as medidas de austeridade ainda em vigor, nem governar com um programa de
defesa dos direitos e garantias dos trabalhadores, nos campos laboral, social e
político. Só a pressão da cidadania de esquerda, veiculada pelos eleitores dos
partidos à esquerda do PS, tem condições para criar um movimento dinâmico de
viragem contra a pressão da direita mascarada e contra a hegemonia das frações
liberais do Partido Socialista. Estas
ideias obrigam-me a alguns breves comentários:
i) É preciso desfazer a ideia de que os
votos são dos partidos. Cada voto é uma opção flexível e contextual de cada
cidadão, que o altera conforme a circunstância. Mas é também preciso contrariar
a ideia de Jerónimo de Sousa, ou de Catarina Martins, de que os votos são dos
eleitores e no final é que se contam. Estas posições não deixam de mostrar um
certo sectarismo invertido com capa democrática.
ii) Poucos intervenientes no debate
referiram o Livre como fazendo parte de uma solução no parlamento, e no
subsequente apoio à governação de esquerda. Talvez esta posição ainda releve
dos engulhos de ter sido Rui Tavares o primeiro a desenhar uma geringonça à
esquerda e de, nos debates realizados, ter marcado a maior aproximação ao PS.
Mas, se os votos dos eleitores no Livre contarem, eles também contarão para uma
maioria plural de esquerda (sublinho o plural).
iii) Na sua intervenção (aliás, lida de um
texto escrito na altura do chumbo do orçamento em outubro de 2021), José Neves,
historiador afeto ao PCP, defendia um modo de votação mais consentâneo com a
realidade dos pesos partidários à esquerda. Numa resposta a questões colocadas,
Neves defendia a diferença de votações dos eleitores que vivem no Alentejo ou
no Algarve e que, nesses casos, poderiam votar de acordo com a utilidade dos
votos nos partidos que elegem ou estão próximos de eleger deputados. A
propósito, subentende-se que a CDU (PCP+PEV) no distrito de Évora, que pode ter
o risco de não eleger João Oliveira -seu líder parlamentar – poderia receber os
votos de toda a esquerda da esquerda; também no Algarve, onde o único partido
que elegeu para além do bloco central foi o BE, seria este partido a conter os
votos dos eleitores plurais.
iv) O modo eleitoral opcional, deixado por
José Neves, parece ser abstruso mas não deixa de ser um princípio a considerar nas eleições do
próximo dia 30. Como na verdade os votos são dos eleitores, todos aqueles que
não estão afiliados têm o direito e o dever (acrescento) de encontrar fórmulas
novas de participação eleitoral mais representativas do sentido sociológico do
país.
v) Não sei, não pensei ainda, como este
modo, atrás descrito, funcionaria noutros círculos eleitorais, por exemplo em
Lisboa, mas é um caminho aberto…
[17janeiro22]