quinta-feira, maio 19, 2022

Três degraus para o céu

Caminhando pelas veredas entre muros de pedra seca, aprendemos as técnicas ancestrais dos seus construtores. Apesar da modernidade do cimento e da tinta (infelizmente o uso da cal foi abandonado), o fazedor de muros não perdeu a oportunidade de deixar três pedras calcárias, sobrepujadas de forma oblíqua, que permitirão a qualquer um aceder ao cimo baixo do muro largo e branco da vereda.

 

Cesare Pavese, A Lua e as Fogueiras: obrigatório ler!

«A Lua e as Fogueiras», de Cesare Pavese, é uma obra escrita com o amor neo-romântico dos italianos. Este, não é qualquer um; Cesare Pavese, tem a prática da escrita e da leitura – enquanto trabalhou na Editora Eunadi desenvolveu o gosto do vocabulário, com traduções e escritos redatoriais – e as suas páginas têm a beleza do bucolismo dos campos, nos olhares do outro que vem das Américas. As vinhas e os campos de trigo, os bastardos explorados pelos latifundiários das quintas, as festas e os desamores das iniciações sexuais, quase sempre escondidas nos olhares tímidos e nos pensamentos mais conspícuos, são panegíricos da beleza rural, entre as batalhas da segunda guerra. Pena que a tradução da edição que tenho (coleção Mil Folhas-Público), seja pouco cuidadosa, na construção das frases e nalgumas, poucas, gafes.

 

quarta-feira, maio 18, 2022

Macron e o 'socialismo' francês

Macron nomeou uma ex-socialista para o cargo de primeira ministra. Assim, tenta matar dois coelhos com uma única cajadada: escolhe alguém quase desconhecido que não fará sombra à sua presidência; e dá um sinal, falso, de que a sua governação será social e mais popular. Objetivo? Impedir a vitória da União Popular, construída por Mélenchon, nas legislativas de junho.

sábado, maio 14, 2022

A França Insubmissa

A França Insubmissa, partido dirigido por Jean-Luc Mélenchon, que obteve o terceiro lugar nas recentes presidenciais francesas, vai agora a jogo, menos insubmissa mas mais inteligente. Os acordos assinados com vários partidos e movimentos da esquerda verde e popular, que deram origem a um novel partido (Nova União Popular Ecologista e Social), podem disputar a hegemonia triste e liberal do partido unipessoal de Macron, mostrando que os centros só definem circunferencias e deixam de fora toda a pobreza das desigualdades sociais.

quarta-feira, maio 11, 2022

Contos do Gin-Tonic: felinos de outros e destes tempos

 

São poucos os contos surrealistas interessantes. Pelo menos conheço poucos autores, portugueses, que os tivessem escrito tão bem como Mário-Henrique Leiria (MHL). Voltar a ler os «Contos do Gin-Tonic» (edição Estampa, 6ª edição, 2007), é sempre um prazer, quando se encontra verrugas que são segredos de estado ou muçulmanos que têm gatos com nomes tão evidentes como Moshe Dayan, Moisés ou Lolita. Ao reler estes contos, por estes dias, lembrei-me da minha amiga e vizinha, em tempos, que também tinha muitos gatos em casa. O apartamento não era tão pequeno como o de Yaffa, personagem de MHL, mas talvez tivesse tantos gatos: o Lupa, que não era o general israelita, mas apenas porque era cego de um olho, a Bexiguinha, que poderia ser uma Lolita felina de Nabokov, mas o nome derivava do facto de estar sempre no sanitário. Sinceramente, os nomes fantásticos dos outros gatos não me lembro, mas não eram Mirelle ou Sargento, outros felinos gostosos e sabedores de guerra do conto de Mário-Henrique.

quinta-feira, maio 05, 2022

JADE Algarve: uma marca indelével numa micro-estória

Há 35 anos atrás um conjunto de jovens, selecionado no Algarve, iniciava a primeira experiência de formação à la carte, conceito que muito deve ao filósofo da educação Guy Le Boterf, num programa nacional designado Jovens Agentes de Desenvolvimento em Regiões de Emigração, com o acrónimo JADE. Para além do Algarve, também as regiões de planeamento Centro (Coimbra) e Norte (Porto), a cargo das suas próprias Comissões de Coordenação, selecionaram jovens até aos 30 anos de idade que, durante três anos, desenvolveram um regime de formação em alternância, com aulas em sala, visitas ao terreno, trabalho de campo e projetos de desenvolvimento local. No caso do Algarve, que é o que aqui me interessa (até porque a história do Jade tem muitas outras ramificações que não cabem neste pequeno hectare), o grupo construiu entre si um novelo de interações e de afinidades eletivas, algumas delas vindas de trás, dos movimentos associativos – os mais velhos – ou desenvolveu posteriormente histórias de trabalho e de vivência que se reforçaram no campo da profissão, da política, do lazer, que até hoje perdura. Claro que os almoços, os encontros, as fotografias, as boutades, contribuíram para tal. Mas foram aqueles meses, entre maio de 1987 e fevereiro de 1990, que deixaram a marca indelével.  

(na foto o grupo do Algarve, com formandos e tutores, no pátio do Grande Hotel de Caldelas/Amares para o 1º Encontro Nacional do JADE e, diga-se, no qual o Algarve deu cartas).

terça-feira, maio 03, 2022

Russia-0 Portugal-1

Afinal, a equipa feminina portuguesa de futebol vai participar no campeonato da Europa de 2022. Depois de ter sido eliminada no play off de acesso, pela selecção russa, a equipa portuguesa pode agradecer à UEFA e a uma política de cancelamento que nem no tempo da guerra fria foi posta em prática. Há  cerca de um mês, em artigo no Expresso, Isabel Leiria questionava este movimento impiedoso de pressão e de censura que parte da manipulação de determinados grupos de interesse económico, aquilo a que Thomas Friedman chama "globalização do ultraje moral".