quarta-feira, dezembro 09, 2020

Fonte Santa de Quarteira abandonada



Uma caminhada pela periferia da Praia do Trafal levou-me à velha Fonte Santa de Quarteira. O seu estado de abandono mostra como a patrimonialização interessa-se apenas pelo cosmopolitismo das praias e destina-se apenas aos turistas. Mesmo sem a importância das qualidades medicinais das suas águas, a Fonte Santa merecia mais da Junta de Freguesia de Quarteira e da Câmara de Loulé, apostadas em mostrar a sua pós-modernidade de pés de barro. O artigo sobre o tema, incluído no Boletim do Centro de Documentação do Museu Municipal de Loulé (#29 outubro 2020), ao invés de historiar apenas os banhos tradicionais nas águas da Fonte (excelente fotografia de António Retratista) deveria também sugerir a sua reabilitação. Ou não?

terça-feira, dezembro 08, 2020

Marcelo a correr para a pastelaria


Pressionado pelos media e pelos outros candidatos, Marcelo vai a correr para a pastelaria apresentar a sua candidatura, escudado no seu palco diário da presidência, sobretudo num contexto em que a questão sanitária se sobrepõe à velha questão social. Apesar disso, a comunicação social já o levou ao colo, como se percebe pelos painéis de comentadores do sistema democrático liberal.

A entrevista de Marisa Matias também não ajudou. Enrolada por Sousa Tavares nas diferenças e nas semelhanças, mostrou quão difícil é justificar esta candidatura. Penso que a retirada da sua candidatura em favor de Ana Gomes está fora de causa, pois o Bloco quer apenas marcar agenda, num momento em que está fora do colo mediático da negociação orçamental.

sexta-feira, dezembro 04, 2020

Revista al-'ulyà do Arquivo Municipal de Loulé

Acaba de sair o número 22 da Revista do Arquivo Municipal de Loulé, al-‘ulyà, na qual colaboro com dois artigos. Deixo um deles para depois, mas por ora situo o que escrevi sobre

O Algarve no complexo político do Mediterrâneo, em busca da autonomia ao poder central. Uma perspetiva histórica das resistências populares e operárias.

No artigo abordo o processo de construção e ascensão do capitalismo industrial e financeiro em Portugal, em particular no Algarve, no contexto da experiência da indústria das conservas de peixe. Essa ascensão dá-se num quadro de permanente e crescente luta de classes, entre a burguesia e o proletariado, como corolário dos movimentos de resistência e de revolta popular, presentes em Portugal, ao longo dos períodos medieval e moderno. Neste processo atribuo papel de relevo ao trabalho e à luta das mulheres operárias, tanto nos processos de luta de fábrica, quanto na luta nos bairros por melhores condições de vida.

A revista pode ser lida aqui, ainda apenas com o seu sumário!


 

quarta-feira, dezembro 02, 2020

Aleixo: de desleixo a obrigado!


O marketing político usa, de entre muitas, duas medidas de ataque ou de oposição: a crítica direta ou velada, quase sempre provocatória e propagandista (repare-se nas campanhas presidenciais americanas, sobretudo nas últimas); ou, menos vezes, no elogio transmutado de humor, ou gozo literário, colocando-se como proselitista do acusado.  A campanha do PSD em Loulé, traz estes exemplos para a próxima eleição autárquica: num momento algo distante, titulava numa tela a palavra «desleixo», no início da renovada Rua do Cemitério, a partir da rotunda dos Bombeiros, assumindo claramente a negatividade do presidente em exercício, Aleixo, Vitor. Há dias, num outdoor colocado no início da Avenida Costa Mealha, a mensagem titulava «Obrigado Aleixo», agradecendo as putativas e não executadas obras dos últimos sete anos; e terminava: «É obra!».

Temos aqui uma inflexão de agitprop política, resultado de novas análises ou de novos agentes políticos. A acompanhar!

Sonhos e narrativas literárias

Os sonhos reconhecem humildemente a sua condição imperfeita, a sua natureza caleidoscópica, mutável, efémera. Teolinda Gersão, em “Os Guarda-Chuvas Cintilantes”, descreve a técnica narrativa dos sonhos como idêntica à da escrita de ficção: “A dificuldade de ligar as coisas, o pé e a relva, o telhado e o muro, o sol e a casa, o autocarro e a árvore, a máquina e a sombra, o homem e o cão, qual era a relação entre as coisas que olhava, e por que razão fariam parte de um conjunto, era ela que se afadigava, correndo atrás das coisas, atando-as com fios em volta, dando-lhes sentidos que não tinham — e que elas de novo deixavam cair, recusavam sempre.

Os Sonhos da Razão, de Alberto Manguel, Revista/Expresso, 20nov2020