segunda-feira, julho 12, 2021

Mariolas ou pedras empilhadas

Se  a tradição é inventada, como dizemos em post abaixo, inventemos mais uma. A invenção precisa de tempo para ser consolidada pela prática, e é o uso permanente e disseminado em muita gente que lhe permite chegar ao futuro. As mariolas - marcas de  caminhos de cabras e carreiros de pastores e animais -  a que eu chamo esculturas de pedras empilhadas, surgem por todas as praias do Algarve e na costa atlântica. Quando não se observa a sua presença, é necessário procurar as pedras adequadas, de formatos e cores diversos, para empilhar e deixar marcas da nossa passagem. Aqui, uma das últimas marcas, na Praia da Adega em Odeceixe/Aljezur.

quarta-feira, julho 07, 2021

Tradições inventadas e manipuladas

Vale a pena ler, apesar de andarmos sempre a bater em pedra dura, o que escreve o historiador Rui Bebiano, a propósito da manipulação do conceito de ‘tradição’, usado por políticos conservadores, ou por ignorantes responsáveis ou ingénuos. Bebiano dá o exemplo das chamadas ‘tradições académicas’ e eu poderia dar o exemplo da ‘aldeia mais portuguesa de Portugal’, em que Alte/Loulé, é afirmada como sendo a 2ª ou a 3ª mais portuguesa, do célebre concurso do Estado Novo de 1938. Na verdade, Alte nem sequer foi à final e a história mostra que ficou na fase das melhores seis.

quarta-feira, junho 30, 2021

Reler João Miguel Fernandes Jorge

 

Volto a João Miguel Fernandes Jorge (JMFJ), poeta que leio desde a década de 1980. Talvez se deva ao contexto do tempo, leituras anarquizantes e heterodoxas, em busca de identidades várias, dias e anos de procura de geografias outras, lugares não poluídos, naturezas selvagens e ilhas brancas. Comprei os primeiros dois volumes da sua obra poética (Sob Sobre Voz/Porto Batel; e Turvos Dizeres/Alguns Círculos – este tem data de 88). Lembro-me de os ler sozinho nas praias das ilhas de Tavira e de Faro, talvez também na do Farol, medindo as palavras e as frases tão incomuns, as leituras filosóficas ou as análises das artes, de que o autor é tão conhecedor. No segundo livro encontro um recorte de jornal, um texto de Clara Ferreira Alves, na Revista do «Expresso», de 15 de Novembro de 1986, que o intitula de «príncipe feroz» ou «como Yates, um ‘longínquo olhar’». O recorte estava lá, há tempos, a páginas 97, no poema ‘Nietzsche em Itália’, deixando uma mancha castanha nas folhas. Entretanto, leio de uma assentada os belos poemas de outro livro, «terra nostra-(Açores, 1988-1991)», terras onde estaria mais tarde, por quatro vezes, em todas as ilhas, a que agora volto com JMFJ.

quarta-feira, junho 23, 2021

Associativismo nas encruzilhadas de sempre

Tal como referi em post abaixo, realizou-se no passado dia 9 mais uma tertúlia no CECAL/Casa da Cultura de Loulé, desta vez dedicada ao tema: O ASSOCIATIVISMO HOJE, NUM CONTEXTO DE LIBERALISMO E INDIVIDUALISMO”. O resultado, em forma de texto, pode ser lido na súmula que o Joaquim redigiu:

O associativismo tem-se constituído como espaço de voluntariado, de partilha, de aprendizagem, de solidariedade, de liberdade e responde a necessidades e aspirações concretas de grupos de cidadãos e das comunidades…

Em 2009, no âmbito de Loulé Cidade Educadora, realizou-se a “Mostra do Movimento Associativo do Concelho de Loulé ASSOCIA´09”, afirmando-se então «O associativismo enquanto espaço de livre iniciativa dos cidadãos, que se organizam para a realização de múltiplas atividades, de âmbito cultural, desportivo, recreativo e de apoio social, tem um contributo extremamente importante na formação/educação ao longo da vida, a par da resposta às necessidades sociais e de qualidade de vida da comunidade. São os clubes que colocam em movimento milhares de atletas, na formação, na competição e na manutenção. São as associações que desenvolvem atividades nas áreas do teatro, do folclore, das bandas de música e outras formas de expressão artística que promovem a prática de jogos tradicionais, que organizam as respostas sociais a idosos, crianças e pessoas que carecem de apoio, que organizam os mais diversificados grupos com afinidades de interesses e motivações».

Em que medida este desígnio e realidade se tem alterado perante uma crescente institucionalização e face à afirmação dos valores do individualismo, e ao acentuar da competição?

O associativismo como parte da sociedade, vive em permanente mutação. Decisões políticas e eventos circunstanciais, como a legislação sobre as rendas do governo Passos Coelho ou presentemente o CoVid 19, influem na dinâmica e vitalidade do movimento associativo. Mas tanto ou mais do que esses e outros eventos, é a evolução do pensamento dominante e o evoluir social que determinam as suas formas e dinâmicas.

Assiste-se da parte dos jovens, mas não só, ao surgimento de formas inorgânicas de associativismo, em função de interesses muito precisos, até momentâneos. Constituem-se grupos informais, sem compromissos de média e longa duração, com fins muito precisos.

As associações estão obrigadas a um quadro legal que requer mais estabilidade, à definição de um “objeto de vida”.

Apesar desta divergência, poderão existir pontos de convergência que importa explorar. As necessidades de apoios, de espaços, de financiamento, aproximam muitas das vezes estes grupos inorgânicos das associações e, uma boa relação entre as partes, pode conciliar as necessidades e em proveitos de todos, consolidar iniciativas e projetos frutíferos e ações mais duradouras, e robustecer a organização associativa enquanto entidade com objetivos e missão na comunidade.  

Os telemóveis e as novas tecnologias vieram roubar-nos tempo para os encontros presenciais, o debate e decisão presencial, mas o associativismo tende a adaptar-se. As associações são hoje mais pequenas, com âmbitos de atividade mais restritos e focalizados, têm profissionais a tempo inteiro ou parcial – a precariedade crescente induz a que também se encontre no associativismo soluções de remuneração, ainda que por vezes pontuais e transitórias - que asseguram os aspetos operacionais da atividade, ou desenvolvem projetos específicos, os órgãos sociais são mais equilibrados com crescente peso das mulheres.

Os associativismos ambientais, pelos direitos dos animais, de combate e reaproveitamento do desperdício alimentar mostram, entre outras, motivações mais recentes capazes de motivar para o associativismo.

Os sindicatos, os partidos, as associações empresariais são formas de associação e a par deste formato convencional têm emergido e assumido papel determinante, movimentos sociais como o foram a contestação às imposições da troika, ou a luta contra as portagens, há bem pouco tempo em Portugal. 

Há, no entanto, um conjunto relevante de associações “históricas” que têm dificuldade na renovação dos seus órgãos sociais e na dinamização de atividades. Importa para estes casos, encontrar estratégias de abertura e aproveitamento de motivações que ao se conjugarem mutuamente se reforçarão. Abrir as reuniões de direção aos diferentes órgãos sociais, aos associados e colaboradores das diferentes áreas…

A este propósito falou-se de experiências da Casa da Cultura: o teatro, a escrita, o Sextas, o andebol…

É necessário superar a excessiva institucionalização, voltar eventualmente a realizar iniciativas para dirigentes e dinamizadores associativos em função da realidade presente, que capacitem e ajudem a construir respostas para os desafios do presente: articular interessados no desporto com os da cultura, do teatro com os da escrita, da música, do património material e imaterial… chamar os pais, incentivar os jovens… E colocam-se os desafios das novas tecnologias como ferramenta de trabalho, a produção de audiovisuais como elemento motivador para os mais jovens.

[Hélder, Marília, Luísa, Joaquim, Otílio, Sérgio]


 

terça-feira, junho 22, 2021

Adegas de prazer

Ela está escondida, discreta ao fundo da ravina, hoje um carreiro íngreme mas acessível; em tempos, era preciso conhecer o caminho entre estevas, para aceder àquela concha de areia branca, que beijava o mar atlântico agreste e ventoso, mas que ali atenuava. Com a maré baixa, a praia enchia de curiosos e distraídos que, vindos da praia principal, olhavam os nudistas, um pouco embaraçados ou voyeuristas. Há dias, num dia de sol entre outros dias de neblinas, lá estive com a minha companheira, naquele mar frio e doce de tão salgado.

sábado, junho 19, 2021

O futebol como ditadura

Sim, eu também joguei futebol, desde sempre: em pelados rafeiros, em campos pequenos e grandes feitos à unha, pelos aficionados do meu bairro e, mais tarde, na equipa de juvenis do Silves Futebol Clube, quando estudava na Secção Preparatória Comercial na cidade dos velhos árabes. A vitória era premiada com um galão e uma sandes de queijo e as botas eram usadas e de travessões. Mais tarde, abominei o futebol milionário de patos bravos, hoje dominado pelas máfias sem país e sem cor. Por isso percebo o Miguel Sousa Tavares e os seus desabafos, e tenho em casa quem diz o mesmo: ‘que a seleção de futebol fique pelo caminho, já nesta fase de grupos, para acabar com a diarreia de ignorância e de bacoquice lusa, que o direitista Scolari inaugurou e que os saloios portugueses puseram à janela. Por isso Miguel, não houve só um português, nos 10 milhões, que resistiu!