domingo, dezembro 26, 2004

mensagens erradas

Não há nada que me apeteça mais, nestes dias, do que desligar o telemóvel. Não tenho muita paciência para o “bom natal” de boca vazia e ouvido na radiação. O que me dá prazer, isso sim, é no dia seguinte ouvir ou ler as mensagens e perceber que aquelas que gosto mais, não eram decerto dirigidas a mim.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Poemails

[Vais-me desculpar: um poemazinho ou outro, lá de quando em vez, tudo bem. Mas isto começa a ser insuportável... Tantas coisas a acontecer em Portugal e no mundo, tantas coisas decisivas, fundamentais - e tu a dar-lhe com «os pássaros do outono», «as mãos das mulheres a mexer indiferentes na água fresca dos púcaros», «o silêncio das manhãs crescendo no interior dos retratos antigos»... Desculpa, mas não há pachorra...]. Confesso a imensa saudade desta verve crítica permeada de beleza literária.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

...o ar generalizado de mediocridade...

«Não deve ser do Natal, é do ar generalizado de mediocridade que se respira e da convicção cada vez mais arreigada no eleitorado que pouco mudará nas políticas a curto prazo e não haverá políticas a mais nenhum prazo - ou seja, o que há de fundo para mudar continuará intangível». José Pacheco Pereira, no «Público» de hoje.

REPROGRAMAR FARO, CAPITAL NACIONAL DA CULTURA, 2005

(publicado, hoje, no jornal «barlavento»)

Nove milhões e meio de euros é muita nota. Tanta, que merece mais umas pequenas notas a acrescentar ao orçamento de Faro, Capital Nacional da Cultura 2005. Uma missão que, disse em tempos o secretário de estado dos bens culturais, iria transformar a face do Algarve. Declarações megalómanas para quem nada conhece do Algarve e por estes dias vive os seus últimos dias de gestão corrente. Aliás, nunca vi nenhuma campanha que mexesse fundo nas estruturas culturais. Bem, só a célebre campanha do trigo de Salazar, nos anos 30 e 40 do século passado. Mas essa destruiu os solos das florestas e das sementeiras, de outras culturas. No mesmo sentido, esta é criada de cima para baixo. Lisboa decide e Faro alinha, quando ainda marcava a agenda cultural no Algarve. Mas isso foi há tempos e em anterior gestão. Projecta um teatro municipal, que já vem do tempo do ministro Carrilho, que parece ser a nossa senhora do programa da capital da cultura, uma santa Engrácia que nunca mais fica pronta. A cidade arma-se toda, convoca a Santa Maria de Faro para imagem de marca, mas esquece os agentes culturais [já disse que sempre preferi a expressão actores] que há muito desenvolvem um trabalho estrutural em pesquisa e produção cultural. Sem dinâmica cultural, o município que governa a cidade, é como aquele jovem rei que não pode e menos sabe governar e convoca para seu regente alguém de outro reino. Os programadores culturais são prova disso: Jorge Queirós nas artes plásticas; Luísa Taveira na dança; Miguel Abreu no teatro; a Universidade do Algarve e Pedro Ferré na literatura; ninguém na música, nem música nos dão. Conhecem? Eu também não! Eu, a pensar, na minha “ingenuidade provinciana”, nos nomes de Manuel Batista, António Laginha, José Louro, Nuno Júdice, pela mesma ordem de funções; e para a música José Eduardo. Qual quê! Programar Faro, Capital da Cultura, com algarvios, ainda por cima competentes, seria “saloice” a mais [Lisboa dixit], nada melhor do que descentralizar comissários da capital, a verdadeira, como se fez com os secretários de estado há uns meses, lembram-se? Por isso dou por mim a pensar: será que vai acontecer à Comissão de Faro, Capital Nacional da Cultura, o mesmo que aconteceu ao governo, ou ela antecipa-se?

[Nota: depois da escrita deste texto, vim a saber, via «Expresso», que aos nomes dos programadores foi acrescentado o de Anabela Moutinho, no cinema e de Luís Madureira, na música. Portanto, nada do que afirmo no texto é posto em causa].

TPCs

Em tempo de férias e trabalhos para casa:
«Esta tendência para «imbecilizar» as crianças – que não é mais do que uma forma de menosprezar e desvalorizar as suas reais capacidades - vem de longe e continua presente em muitas discussões sobre o «ensino». Repare-se no mais recente caso, ou no mais recente anátema, que meia dúzia de pedopsicólogos e pedadogos acaba de lançar à liça: os «trabalhos para casa», vulgo TPC’s». McGuffin no contra a corrente.

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Simonia, bucolismo e conga irlandesa

«Toda pessoa de alguma inteligência sofre de anglofilia, nada contra o Brasil. Tentei a ironia, quando criança, e as pessoas achavam que eu estava engasgando, nunca mais. Em síntese: simonia, bucolismo e conga irlandesa». Dante, em entrevista à «Folha».

Recortes de jornais

Só hoje encontro e leio o meu texto publicado no jornal «Público» e recorto-o lembrando algumas das suas palavras: «Portanto, uma espécie de pró-governo regional, que reivindica poderes e lugares, numa altura em que as portagens não existem e muito antes de os protestos terem cabimento, ou seja em 2005, ou 2006. Mas tem sentido ganhar apoios agora, para jogar depois». Escrevi isto a 14 de Novembro e o jornal publicou a 19. Depois disso, o presidente dissolveu o parlamento e decidiu a convocação de eleições antecipadas; a comissão contra as portagens no algarve diz-se atenta; o governo enterra-se num crash inédito em Portugal. Há momentos em que não sabemos se devemos ficar contentes ou tristes por termos tido razão.