Sidónio Pardal, arquitecto, coordenou um estudo sobre as reservas, agrícola e ecológica nacionais, e achou que o estado tem permitido um uso incorrecto do uso do solo. Propõe no mesmo estudo a sua gestão pelas autarquias. Sabendo-se a gulodice dos autarcas pelos solos de tipo A e B, normalmente os pertencentes à ran e à ren, imagina-se facilmente a depradação desses solos com vista à instalação de campos de golfe, pedreiras, urbanizações de luxo e condomínios privados. O ministro do ambiente não aprovou o estudo, escandaloso como era, e propõe o que já acontecia [mesmo assim ainda mal]: que sejam os planos directores municipais da responsabilidade das autarquias e de organismos do planeamento, a definir o uso dos solos. Do mal o menos.
quinta-feira, dezembro 09, 2004
sábado, dezembro 04, 2004
AS MULHERES NO SISTEMA POLÍTICO
O processo de constituição das listas para as eleições é, habitualmente, uma representação plena de qual o papel feminino na vida social e política. Os arranjos das últimas listas para as eleições de 20 de Fevereiro mostraram, mais uma vez, a hegemonia masculina dos partidos políticos e em especial dos seus aparelhos nacionais e regionais. A conversa veio à baila com a lista do PS em Coimbra e sobretudo com a decisão de colocar Matilde Sousa Franco (MSF) no primeiro lugar da lista. Muita coisa se escreveu sobre o assunto. Destaco apenas uma opinião:
«Parece-me uma péssima escolha. Não retirando os méritos da Sr.ª, que são muitos, continuando a considerá-la, como considero, uma mulher de fibra e de elevado sentido de estado, não posso deixar de achar que a sua candidatura, para mais como cabeça de lista (aceitaria com mais facilidade um local elegível mas de menor visibilidade), soa demais a uma vontade bacoca de "surfar" a onda de popularidade que ela, pelo braço do falecido Prof. Sousa Franco, seu marido, foi angariando. Ora eu sou contra explorar vivos e muito mais contra explorar mortos que mereciam outro respeito. É o caso».
As razões aduzidas no texto podem ter sido os pressupostos para o PS escolher MSF para o lugar referido, mas isso só penaliza a visão do PS. Aliás, só neste sentido se entende que Helena Roseta, bastonária da Ordem dos Arquitectos tenha sido preterida e Sónia Fertuzinhos, presidente das Mulheres Socialistas, tenha sido relegada para 12º lugar em Braga. Terá sido por esta militante ser a cara socialista da luta pela descriminalização do aborto? Parece que sim, porque o PS de Sócrates impôs, em sua troca - mas no 3º lugar e assim potencialmente elegível -, uma tal de Teresa Venda do Movimento Humanismo e Democracia, nem mais, uma militante defensora das penalizações a mulheres que abortaram. Também no Algarve o PS, bem como o PSD, não deixam as mulheres acima das fronteiras do elegível. Bem diferente do nosso país vizinho em que o governo de Zapatero conta com oito ministras, o mesmo número de homens da equipa, num país assumido como “a nação do machismo e a reserva católica do Ocidente” como refere Lola Galán. Mas aqui ao lado é outra loiça, até porque as medidas paradigmáticas do PSOE no governo, foram a proposta de legalização dos casamentos homossexuais e o combate à violência de género. Esta matéria, aliás, foi motivo para a criação de uma disciplina obrigatória no secundárioo dedicada à igualdade entre os sexos. Em Portugal, como se sabe, a educação sexual nas escolas é letra morta há muito tempo nas práticas dos últimos governos. Na verdade, as matrizes operárias e trabalhistas do PSOE têm permitido a assunção de medidas verdadeiramente inovadoras na governação moderna, enquanto que em Portugal apenas se espera a permanência do status quo, num PS ainda marcado pela sua formação tecnocrática, sem raízes populares.
Mas as razões do texto citado acima (e que expressam o ponto de vista do autor) não deixam de ser puramente machistas. Considerar que uma mulher cavalga a “onda de popularidade” do marido, significa duas coisas: uma, que o autor não conhece o percurso de Matilde Sousa Franco; duas, que ele considera que nos papéis sociais de género, quem constrói a onda é sempre o homem, não percebendo o papel de suporte colectivo que a mulher representa, uma rectaguarda decisiva para o percurso de qualquer homem, tal como no caso referido. Situação que o próprio Sousa Franco reconhecia. Como muito bem afirma Anna Farré «Os homens têm podido ocupar espaços de poder porque têm disposto do apoio de uma estrutura familiar de afecto, cuidado e estabilidade, que actua como um descanso do guerreiro, potenciadora e tranquilizante, que lhes permite dedicar toda a sua energia e entusiasmo à tarefa a que se aplicam».
Mas alguns dados em Portugal vêm trazendo novidades: somos o país europeu com mais mulheres na investigação científica e só somos utrapassados pela Itália em número de mulheres doutoradas na Europa. Estas dinâmicas poderão permitir um crescente papel das mulheres nas esferas profissional e social e empurrar para o sistema político uma dinâmica de escolha baseada na competência e afirmação de género. Nessa altura não será preciso propagandear as quotas de mulheres nas listas, mantendo a hegemonia masculina nos lugares de poder e usando o feminino apenas para compôr o ramalhete, como muito bem salienta Elisabete Rodrigues no jornal «barlavento».
«Parece-me uma péssima escolha. Não retirando os méritos da Sr.ª, que são muitos, continuando a considerá-la, como considero, uma mulher de fibra e de elevado sentido de estado, não posso deixar de achar que a sua candidatura, para mais como cabeça de lista (aceitaria com mais facilidade um local elegível mas de menor visibilidade), soa demais a uma vontade bacoca de "surfar" a onda de popularidade que ela, pelo braço do falecido Prof. Sousa Franco, seu marido, foi angariando. Ora eu sou contra explorar vivos e muito mais contra explorar mortos que mereciam outro respeito. É o caso».
As razões aduzidas no texto podem ter sido os pressupostos para o PS escolher MSF para o lugar referido, mas isso só penaliza a visão do PS. Aliás, só neste sentido se entende que Helena Roseta, bastonária da Ordem dos Arquitectos tenha sido preterida e Sónia Fertuzinhos, presidente das Mulheres Socialistas, tenha sido relegada para 12º lugar em Braga. Terá sido por esta militante ser a cara socialista da luta pela descriminalização do aborto? Parece que sim, porque o PS de Sócrates impôs, em sua troca - mas no 3º lugar e assim potencialmente elegível -, uma tal de Teresa Venda do Movimento Humanismo e Democracia, nem mais, uma militante defensora das penalizações a mulheres que abortaram. Também no Algarve o PS, bem como o PSD, não deixam as mulheres acima das fronteiras do elegível. Bem diferente do nosso país vizinho em que o governo de Zapatero conta com oito ministras, o mesmo número de homens da equipa, num país assumido como “a nação do machismo e a reserva católica do Ocidente” como refere Lola Galán. Mas aqui ao lado é outra loiça, até porque as medidas paradigmáticas do PSOE no governo, foram a proposta de legalização dos casamentos homossexuais e o combate à violência de género. Esta matéria, aliás, foi motivo para a criação de uma disciplina obrigatória no secundárioo dedicada à igualdade entre os sexos. Em Portugal, como se sabe, a educação sexual nas escolas é letra morta há muito tempo nas práticas dos últimos governos. Na verdade, as matrizes operárias e trabalhistas do PSOE têm permitido a assunção de medidas verdadeiramente inovadoras na governação moderna, enquanto que em Portugal apenas se espera a permanência do status quo, num PS ainda marcado pela sua formação tecnocrática, sem raízes populares.
Mas as razões do texto citado acima (e que expressam o ponto de vista do autor) não deixam de ser puramente machistas. Considerar que uma mulher cavalga a “onda de popularidade” do marido, significa duas coisas: uma, que o autor não conhece o percurso de Matilde Sousa Franco; duas, que ele considera que nos papéis sociais de género, quem constrói a onda é sempre o homem, não percebendo o papel de suporte colectivo que a mulher representa, uma rectaguarda decisiva para o percurso de qualquer homem, tal como no caso referido. Situação que o próprio Sousa Franco reconhecia. Como muito bem afirma Anna Farré «Os homens têm podido ocupar espaços de poder porque têm disposto do apoio de uma estrutura familiar de afecto, cuidado e estabilidade, que actua como um descanso do guerreiro, potenciadora e tranquilizante, que lhes permite dedicar toda a sua energia e entusiasmo à tarefa a que se aplicam».
Mas alguns dados em Portugal vêm trazendo novidades: somos o país europeu com mais mulheres na investigação científica e só somos utrapassados pela Itália em número de mulheres doutoradas na Europa. Estas dinâmicas poderão permitir um crescente papel das mulheres nas esferas profissional e social e empurrar para o sistema político uma dinâmica de escolha baseada na competência e afirmação de género. Nessa altura não será preciso propagandear as quotas de mulheres nas listas, mantendo a hegemonia masculina nos lugares de poder e usando o feminino apenas para compôr o ramalhete, como muito bem salienta Elisabete Rodrigues no jornal «barlavento».
Pai, estou no governo!
A lógica da política agora é esta: o que interessa é governar em alternância, dar a oportunidade a todos, mesmo que para isso se incendeie quem lidera os partidos, ou quem chefia os governos. Essa foi a lógica do PS. Esta é agora a lógica do PSD. Deixar Santana governar, queimá-lo no governo e agora ainda permitir que lance o partido na derrocada final. Depois, é só esperar pelos sebastianistas do quinto império, ou pelos reorganizadores da pátria. Pergunta-se: onde está o espírito nacional? Que interessa isso quando o que interessa são os fugazes momentos de fama em que avisamos os familiares que somos membros do governo. Uma vergonha para os criadores da democracia e para quem ainda acredita nela.
Ora digam lá!
Agora que o governo está a cair, o que vai ser do movimento contra as portagens na via do infante? Prepara-se para lutar pela imposição de portagens durante a vigência do próximo governo? Depois explico!
quarta-feira, dezembro 01, 2004
À espera que caia
Diálogo ouvido à beira do cais, em dia de tempestade:
«O que fazes aí a olhar?»
«Ora, tou à espera que o governo caia»
«O que fazes aí a olhar?»
«Ora, tou à espera que o governo caia»
A Pior Banda do Mundo - volume iv
José Carlos Fernandes é pouco conhecido em Loulé. Também que interessa isso? É mais conhecido em Lisboa! JCF é pouco lido no Algarve. Também que importa isso? É muito lido em Barcelona e em S. Paulo. Se as raízes nos aguentam os pés, de pouco nos servem para quando precisamos de vaguear a alma por esse mundo, um desafio imenso, mesmo que seja um mundo de desenhos. Mas JCF não é, redutoramente, apenas um autor de banda desenhada. Ou melhor, para além de um excelente desenhador, esconde no meio dos desenhos os balões que nos trazem a música, a literatura, a filosofia. E também isso permite que ele seja um dos autores mais premiados em Portugal. E que recentemente tenha ganho mais um prémio, que não vi relatado em lado nenhum. Por estas terras do Algarve, entenda-se! No último Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora voltou a vencer o prémio de “Melhor argumento para álbum português”, com a sua obra «A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto» da série, já premiada, «A Pior Banda do Mundo». Uma obra de futuro que, tenho a certeza, nunca honrará o seu título. Algo que espero, todos esperamos, de José Carlos Fernandes. Parabéns amigo!
(texto completo publicado, hoje, na crónica "Contrasenso", em «A Voz de Loulé»)
Um populista a cair
Há tempos comentava a acepção de “populista” aplicada a Santana Lopes, a propósito de um post de FV, que pretendia defender um conceito que hoje como se sabe tem uma conotação pejorativa. Ora, hoje, aí está uma boa prova disso. Nem sempre o populismo resulta. Ele precisa de um alfobre de condicionalismos vários para fermentar, que no caso presente não existiram e Santana caiu. Apesar de em anterior post revelar a minha incredulidade, a verdade é que parece que Sampaio dissolve o parlamento, não se sabe ainda é para quê o governo. Voltando à questão inicial, gostei de ler o FV que reconhece - com uma mestria e uma dignidade de relevar - o seu desencanto sobre este futuro-ex-primeiro-ministro-não-eleito. A registar, com agrado.
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