sábado, outubro 23, 2004

Os jovens que se riem das quedas dos velhos...

As televisões passaram, ad eternum, as imagens de Fidel Castro a caír e logo toda a gente se apressou a mostrar as mesmas imagens esperando, com isso, a queda do regime que ele sustenta. Se alguém ri com isto é o próprio Fidel que, logo após a dita, se pronunciou exactamente sobre a globalização do acto. Melhor, será ainda ler o que diz Pacheco Pereira sobre a queda: apenas a queda de um qualquer velho, como todos seremos um dia.

sexta-feira, outubro 22, 2004

[a cultura]: A Casimiro de Brito

Solicita-me o coordenador desta página ["a cultura" - página cultural do jornal «A Voz de Loulé»] que comente um excerto de «Na Barca do Coração», de Casimiro de Brito, no dia em que o poeta lançou o primeiro número de "Prisma de Cristal", neste mesmo jornal, em 16 de Outubro de 1956.
Tornei-me, inadvertidamente, um divulgador deste diário do poeta ao comentar, no meu “blog”, pequenos trechos que reflectiam os meus cuidados, as minhas emoções, as minhas dúvidas, o meu sentir, como se partes de mim, ou do poeta, andassem soltas em demanda de um lugar de encontro e identificação onde se encaixar, para, de novo, tornar a dividir-se procurando outro alguém.
Curiosamente, a 16 de Outubro de 2000, bem como na sua véspera e no dia seguinte, Casimiro de Brito parece reflectir sobre o que chama “os restos da unidade” e refere-se, expressamente, à relação entre o autor e o leitor.

15.OUT.2000:
“(…) Acordo e vou saltar para dentro das águas do meu mar, em busca dos restos da unidade que todos os dias vou perdendo e reencontrando. (…)”
16.OUT.2000:
“Quem tem uma coisa, procura outra. Quem julga ter uma pessoa, também. Não devia ser assim. O possível futuro? O momento depois? Não devia ser assim.”
17.OUT.2000:
“Escrever bem não me interessa, escrever bonito muito menos. A sensação que desejo transmitir é a mesma que me deixa o amor quando o faço – não fica feito. Um acto não se pode conservar, nem uma mulher. Que também não se conservem os textos que escrevo, que me escapam dos dedos, que se escapem do leitor – deixando-o a sós com a sua vida. A eficácia, na escrita, é uma ilusão e o poema apenas um começo. Para o autor e para o leitor, diferentemente para cada leitor.(…)”

Termino, não sem que antes diga, aos mais cépticos das “coisas” da poesia, que Casimiro também se debruça sobre outras questões “menos poéticas”, mais urgentes.
Sobre a realidade de um dia-a-dia que insiste em prolongar-se:

18.OUT.2000:
“A maior parte dos mortos e feridos na Intifada são crianças ou adolescentes. Quem os fere, quem os mata? Quem os coloca na frente do combate ou quem atira a matar? Vão mais depressa para junto de Alah, dizem. São abatidos duas vezes. (…)”

Silves, 4 de Outubro de 2004
(publicado em «A Voz de Loulé» de 15 de Outubro: página 16)

terça-feira, outubro 19, 2004

a Maria Rosa Colaço II

O Google tem destas coisas.
Procurando Maria Rosa Colaço
cheguei aqui.
E logo me surpreendi.

a Maria Rosa Colaço

A notícia apanhou-me de surpresa. Acabei agora de ler um email de um leitor que avisava da criação de um blogue. A informação sucedia a um comentário que este leitor deixara num post antigo [de maio passado] sobre um dos livros que marcaram a minha vida. Segui o link do nóvel blogue, pois nestas coisas não há que esperar para ver. Foi assim que fiquei a saber da morte da Maria Rosa Colaço (MRC), uma pedagoga, professora e escritora que marcou gerações de alunos. É o caso deste nosso amigo leitor [António Matos Rodrigues] que, triste com a morte da sua antiga professora primária e mais triste ainda pelo cerco de silêncio que se fez à volta dela, decidiu criar um blogue em sua homenagem, com o seu nome, abrindo-o a quem queira testemunhar as suas vivências. Pela minha parte enviei o meu contributo: um texto que, em Maio passado, publicara na página [a cultura] de «A Voz de Loulé» e disponibilizado também no seu sítio virtual.
Por agora resta-me lembrar que MRC deixou belos rastos da sua escrita na página literária de «A Voz de Loulé», nos finais de 50 e que a Biblioteca Municipal de Loulé a escolheu como autora da semana, expondo alguns dos seus livros.

"Vamos lá cambada, todos à molhada qu'isto é futebol total!"

Durante o período do Euro 2004 escrevi vários textos sobre a problemática do futebol, designadamente questionando os sentidos de identidade dogmática e de afirmação nacionalista que se promovia com o evento. Na altura, muitos teóricos embevecidos pela bola, mais emotivos que racionais [portanto mais primários na análise] acharam que andar de bandeira desfraldada é que era bom e que o “patriotismo” não teria qualquer problema. Hoje as consequências desta posição estão aí bem visíveis: um carnaval hediondo, de acusações e ofensas, mesquinhices e violência verbal, arregimentação de claques e incompetências governativas. Tudo se mistura fazendo do quotidiano das televisões uma aldeia global de roupa suja que nos entra a toda a hora portas adentro. Algo que o futebol não mereceria. Ou talvez este futebol mereça esta cambada que o dirige, nos clubes e no governo.

[a cultura]: A formiga no carreiro...

(escríticas renascentistas)

[22] A formiga de Dâmocles. Oiço na TV referências ao eventual julgamento do caso que opõe a ex-ministra da justiça, Celeste Cardona, ao fiscalista Saldanha Sanches, que a acusou de fazer apenas o jogo do CDS no governo. Numa altura em que se comenta o escândalo da entrada da ex-ministra na Administração da Caixa Geral de Depósitos, esta notícia cai como uma espada de Dâmocles sobre os ombros da nova administradora. E só dá razão às antigas declarações de Saldanha Sanches.

[23] A formiga mais papista que o papa. Notícia da manhã: o Papa, depois de uma grande letargia, descobriu, agora, que o Dalai Lama e o líder religioso indiano tinham celebrado rituais religiosos no santuário de Fátima. Amedrontado com a diversidade religiosa, e com a livre escolha de novos e velhos crentes, despacha no sentido da destituição do Bispo de Leiria e do responsável do santuário. Por aqui se vê o imperialismo do Catolicismo e a discriminação de outros credos religiosos.

[24] A formiga cabulona. Quem ouviu a palestra do ministro do turismo, Telmo Correia, na altura da inauguração da secretaria de estado do turismo em Faro, aprendeu uma verdadeira lição. Diz o ministro, perante uma plateia de alunos a bocejar, a propósito da matéria que domina, como ninguém: “Bom, se fizerem uma chaveta e colocarem lá estes tópicos, se ficarem com esta cábula, tenho a certeza que não terão, no futuro, problemas com qualquer exame”. Esta é a verdadeira pedagogia da direita: Chaveta? Tópico? Cábula? O ministro mostra estar cristalizado, não só no turismo mas também na educação. Para a direita, este governo é uma verdadeira brincadeira aos governantes.

[25] A formiga reformadora. Bagão Félix tem muita falta de vergonha na cara. Para abrir caminho ao ex-secretário de estado Vitor Martins, para a presidência da CGD, nada mais fácil: reforma o ex –ministro Mira Amaral, com a mísera quantia de 3.600 contos mensais e numa celeridade nunca vista. Ao mesmo tempo, com o desplante que se lhe conhece, afirma que quer gerir as finanças do estado, como se fosse de uma família. Da sua, concerteza.

[Zenão de Flandres] (pseudónimo retirado do personagem principal do romance «A Obra ao Negro» de Marguerite Yourcenar).
(publicado em «A Voz de Loulé» de 15 de Outubro)

domingo, outubro 17, 2004

A similitude, ou todos a pensar o mesmo

Não sendo possível deixar um comentário, não resisto a deixar-vos aqui esta interessante similitude. Ontem, jcb editava o seguinte comentário:
Quantos são?

Há coisas que são do futebol e há coisas que são dos tribunais. E estas notícias só por muito adormecimento são inseridas na secção de Desporto.
Hoje, Luís Afonso, no Bartoon do «Público», publicava uma banda desenhada com um texto muito semelhante. Conclusão: ou jcb deu a dica ao cartoonista, ou este anda a ler os blogs para se inspirar. Ou andamos todos a pensar o mesmo deste governo.