segunda-feira, agosto 08, 2011

Conto

O e-scravo subversivo

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A água do rio estava tépida, vinte graus de temperatura era pouco para um verão quente, mas talvez fossem as águas frias da serra que ainda desciam pelos calcários do barrocal. Próximo da foz do rio, de certeza que a água convidaria a um banho de mar, como aqueles que, com as suas amigas de infância, dava nas pedras, os blocos de protecção da costa urbanizada da estância balnear, que a burguesia romântica da cidade acrescentara ao seu já farto lazer de todos os dias. Fora uma escolha indefinida que a tinha trazido de volta ao bairro. Não, não era nenhuma saudade, em que não acreditava, mas talvez o pagamento de uma dívida social que não queria deixar morrer. Fora aquela gente que tratara da sua mãe, amparando-a na desgraça e na insídia. Sabia que, quando chegasse, os seus passos a levariam primeiro às areias que agora acariciava, e depois ao pátio de entrada da fábrica, onde estava o escritório do pai do Dulcério, o mestre que ditava, há muitos anos, o horário e o esforço impiedosos das mulheres, homens e adolescentes do bairro. Por isso, não tinha respondido aos agravos do mestre. Sabia que a fábrica estava sem mestra, a mulher que geria, sob as ordens do chefe de fabrico, o trabalho de todas as mulheres, manipuladoras, azeitadeiras, visitadeiras, batedeiras, e outras designações do mesmo grupo de trabalho. Mesmo que ele o sugerisse, sem a conhecer de lado nenhum, ela recusaria. Também a sua mãe, escudando-se numa falta de jeito em que ninguém acreditava, se tinha esquivado a exercer um mando que considerava desfavorável para com as suas velhas amigas, adolescentes de vestidos compridos e de cabelos frisados.

Naquela manhã, tinha preferido comer apenas uma sandes de queijo fresco de cabra, coberto com uma pequena folha de manjericão, que colhera de um vaso do seu quintal minúsculo. Sabia que algo iria acontecer. Um acontecimento que talvez mudasse a sua vida para sempre. Depois de tantas mudanças nas suas relações profissionais e sociais, estava agora na iminência de uma viragem decisiva da sua história. Descontente com aquele controlo desmedido, e estúpido, sobre o horário de entradas e saídas da fábrica, marcado pela ditadura da sirene da caldeira a vapor do século vinte, tinha proposto o aproveitamento do e-scravo, um moderno gadget que o governo tinha vendido a toda a população, em troca de um dia de salário para a nação. Aquela coisa servia para tudo. Para perguntar a toda a gente onde estava, marcar a hora do cabeleireiro, copiar nos testes da e-escola, ouvir os hinos da república e das claques de futebol, filmar os professores a tirar macacos do nariz. Mas também era arma de vigilância nas casas de banho das empresas, proto-industriais ou de inovação, conselheiro contábil para debitar avisos sobre datas de pagamento dos impostos, indicador do dia de início do período menstrual, ou banco de estatísticas do número de hamburgueres comidos no dia anterior. Por que razão não serviria também para avisar os homens e as mulheres daquela fábrica, da sua hora de entrada e de saída?

domingo, julho 31, 2011

Enrique Vila-Matas


De autores de língua castelhana leio muito: espanhóis por supuesto, argentinos, colombianos, por aí. Daqui do lado de Espanha, entre muitos outros de mais antiga leitura, Javier Marías (que belas crónicas sobre la pelota), Arturo Peréz-Reverte (de escrita mais que cinéfila) e Enrique Vila-Matas. Deste último comprei, ao preço da chuva, um pacote com 6 livros há uns anos na Bertrand, editados pela Assírio e Alvim, no meio dos quais vinham jóias como Bartleby & Companhia, História Abreviada da Literatura Portátil e Longe de Vera Cruz, que agora leio, depois de o pendurar, uns tempos, na cabeceira dos livros em trânsito.

Leitura obrigatória de fim de semana

Ainda vou a tempo de aconselhar uma leitura excelente, para ler pausadamente - pensando na nossa rua, na nossa cidade e nos nossos filhos - da autoria do João Martins (link).

sábado, julho 30, 2011

Mais abate de árvores, não!

Também eu estudei nesta escola. Três anos, à noite, para completar o 12º ano. Também eu corri muitas vezes à sombra da mata do 'liceu' de Faro. Agora sabemos que a Parque Escolar (empresa de amigos do anterior governo, criada para 'requalificar' as escolas secundárias) quer substituir as velhas árvores regionais, por espécies exóticas. A minha amiga Rosa Guedes protesta e muita gente com ela. Pena é que a presidente do Conselho Geral (que raio de mania) se preocupe mais com a 'obra' do que com o ambiente. Ler+ na expressão linkada.

sexta-feira, julho 29, 2011

Como lutar contra as portagens

Helder Nunes, diretor do" barlavento", tem manifestado o seu apoio à causa da luta contra as portagens na Via do Infante. Quase sempre é mais radical do que a Comissão de Utentes (CUVI), o que se percebe dada a diversidade de perspetivas que marcam qualquer movimento social. Quando esteve presente na conferência de imprensa da CUVI defendeu algumas ideias para a ação de luta que agora expressa mais em detalhe no seu editorial. Eis um excerto:

Já manifestámos neste espaço o nosso total desacordo em relação à imposição de portagens numa estrada que não é scut, nunca foi em 70 por cento do seu traçado e já está paga. Os algarvios não estão a utilizar um benefício intitulado «sem custos para o utilizador», como acontece noutras vias construídas neste sistema e que estão a ser suportadas na base das tais parcerias público-privadas.
Ler+

quarta-feira, julho 27, 2011

Mais um bocado do conto

O e-scravo subversivo

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O resultado de tal inovação e criatividade, de que toda a gente tinha a boca cheia, era o atraso sucessivo dos homens e das mulheres na entrada da fábrica. O e-scravo tinha sido acertado pelo relógio da torre da igreja, a matriz do século dezasseis em permanente ruína física e moral, mas cuja torre ainda suportava as horas badaladas de sessenta em sessenta minutos. Aquela máquina nunca falhava. De tal modo que o seu filho Dulcério, apaixonado pelas guitarras eléctricas, utilizava aquela sonoridade para servir de metrónomo e de afinador da sua Fender. Mas se aquele horário cristão nunca falhara, como era possível que o e-scravo andasse permanentemente atrasado, sobretudo nas horas de entrada, no início da manhã e após o almoço?

A areia estava quente e fina, como sempre, escorregando com delicadeza por entre os dedos dos pés, grão a grão, voltando de novo a caír para definir as suas pegadas firmes e regulares. Aquela praia, na margem do rio, construída anos a fio com os aluviões mestiços das descargas de terra argilosa da serra e das enchentes das marés vivas do oceano, era o paraíso de Maria Antónia. E fora aquela praia que decidira olhar, de novo, quando ali regressara.

Tinha chegado à aldeia – a que ela preferia chamar bairro – após muitos anos de ausência na cidade, na qual trabalhara e estudara ao mesmo tempo. O que aprendera, em muitos empregos diferentes, definidos temporalmente pelo contrato individual de seis meses certos, enchia agora as quatro páginas do seu curriculum vitae. Nas mãos do mestre da fábrica, aquelas quatro folhas pareciam um livro, o livro da sua jovem vida de pouco mais de duas décadas que estava a entusiasmar o homem, defensor da instrução do corpo e da alma daquela juventude perdida entre televisão, drogas e sexo. Começas amanhã, como manipuladora de peixe, que é por aí que todas as mulheres se iniciam neste mister, dissera-lhe o chefe de fabrico da produção, o topo da pirâmide industrial daquela fábrica de peixe. E remata-lhe, afirmando a superioridade masculina do território: Ou pensavas que entravas aqui como mestra, não? Lá por teres vindo da grande cidade e teres assentado o cú em muitos escritórios, não penses que és a mais competente. Nem essa aldrabice das novas oportunidades te serve. Enquanto afirmava o seu mando, olhava os olhos e a face daquela mulher, quase impassível, tão calma quanto a figura da Mona Lisa, pespegada no quadro de parede do seu escritório, já gasta dos aromas de salmoura do peixe cozido e do levante oceânico de Marrocos. Percebeu, de imediato, que a mulher era inteligente e talvez lhe viesse a dar problemas. Mas naquele verão quente, com mais sardinha no mar do que água salgada, não podia desperdiçar um par de mãos que se oferecia, provavelmente ágil e certeiro a cortar a cabeça da sardinha e ainda mais preciso a deitá-la na lata azeitada.