sexta-feira, outubro 15, 2004

Quem não põe lá os pés sou eu!

Ontem, o secretário de estado do desporto Hermínio Loureiro disse, na TV, que não ia ver o jogo Benfica-Porto por razões de segurança, atribuindo responsabilidades à liga de futebol. Hoje, deve ter acordado a pensar que na verdade era governante, responsável pela área do desporto e membro de um governo que bate na tecla da segurança há muito tempo. Resultado: a realização do jogo já está posta em causa. Alguém lhe puxou as orelhas ou ele não sabe governar?

[a cultura]: PEQUENAS HISTÓRIAS DE PROVEITO E DE EXEMPLO

As histórias têm fim mas não terminam

Era uma vez um livro que vivia num confortável bolso do casaco dum leitor, e onde um ia o outro ia também. A leitura durante as longas viagens de autocarro ou nos breves momentos passados nos cafés era-lhes já rotineira, mas às vezes também lhes aconteciam agradáveis surpresas: um banco de jardim ou uma esplanada à beira do rio. E assim o livro ia vivendo despreocupado, uma página depois da outra, limitando-se a ser quem era. [A moral desta história é aquela que o fino leitor sem dúvida já antecipou: um livro sem um leitor não é ninguém! E vice-versa.]

Um homem encontrou um livro estendido num banco de jardim e perguntou-lhe: Quem te perdeu? Ao que o livro respondeu: Ninguém me perdeu, na verdade fui aqui deixado para que alguém me encontrasse e me levasse consigo. Mas ainda o livro mal acabara de falar e já o homem abalava sozinho sem dizer sequer uma palavra. [A moral desta história é dupla: há livros que não falam ao coração dos homens; há homens que são surdos à voz dos livros]

Uma cadeira, igual a todas as cadeiras daquela sala, decidiu certo dia não deixar que a voltassem a usar. A partir daí, sempre que alguma pessoa tentava sentar-se nela, logo ela dobrava uma das suas quatro pernas ao acaso, derrubando sem apelo nem agravo a infeliz, tudo isto perante o espanto das outras cadeiras. Passado pouco tempo, foi substituída à força e mandada abater por insubordinação. As outras lamentaram então a sua má sorte, nunca mais se iam divertir tanto. [A moral desta fábula é: o público deve apreciar o artista em vida. Ou outra.]

[Luis Ene]
(histórias publicadas em «A Voz de Loulé» de 15 de Outubro)

A dicotomia Esquerda/direita

Pacheco Pereira (PP) escreve hoje no «Público» um texto sobre a dicotomia esquerda/direita. O artigo de PP é lúcido apenas do ponto de vista da análise histórica. Mesmo assim, apagar uma dicotomia complexa olhando para os últimos decénios é extremamente redutor. Redutor ainda, é o facto de o seu olhar sociológico (digamos assim) pensar as diferenças entre a esquerda e a direita exclusivamente no campo das ideias que são expressas nos media, incluindo claro está, a blogosfera (que PP muito preza e nós também). No entanto, não olhar para o mundo social e para tudo o que ele expressa real e simbolicamente de diferente entre a esquerda e a direita (no campo do trabalho, dos sindicatos, do movimento social, etc), leva PP a não entender um alfobre de antíteses que presumo se vão extremar nas próximas gerações. E se PP despreza essa análise também não percebe que essas diferenças se constroem muito na clarificação daquilo a que Vale de Almeida chama de "negociação". Pacheco Pereira constrói, assim, uma cápsula que o afastará deste mundo.

quinta-feira, outubro 14, 2004

As portagens na Via do Infante

Tenho andado a reflectir sobre o tema das portagens nas Scuts, para escrever sobre o assunto numa das próximas crónicas em «A Voz de Loulé». Entretanto vou lendo alguns posts na blogosfera, sobretudo a algarvia. Hoje dou com um texto de jcd no "jaquinzinhos" que mostra que ainda há quem não veja só a árvore, mas a floresta. E que perceba que o problema das portagens na via do infante não deve ser só encarado na perspectiva regionalista ou familista dos interesses do poder no Algarve. O argumento do turismo é para além disso submisso e oportunista. Eu direi o mesmo: se pago portagens em todas as minhas deslocações porque não pagarão aqueles que ao Algarve se deslocam?
Outra questão é ainda esta: discute-se o problema dos acessos viários e nunca o problema da redução do tráfego. Essa é a verdadeira visão do futuro (alguém sabe que há um projecto para uma ciclovia de VRSA a Sagres?). Pois então!


estádio do Algarve: um barco à deriva

Muitas vezes por semana passo junto ao "estádio de futebol do Algarve". Olho-o de longe e não vejo e nem sinto ninguém, como se fosse um mundo à parte. Penso que lá dentro alguém assinala num mapa as horas de utilização, de vida, daquele barco à deriva. As horas de rega, as rondas da polícia, os cm3 de água da chuva, o número das folhas que caem, os mirones que vão em romaria ao domingo santo. No outro mapa, o verdadeiro, os chefes assinalam os milhares que assistiram aos concertos, o número de miúdos que participaram nos torneios desportivos e os comparam com os milhões de euros que ali se enterraram para bem da pátria, da bandeira e da bola. Uma "vil tristeza", uma tristeza vil.

O social democrata que perdeu a juvenilidade

O ministro do ambiente, com o desconhecimento que se lhe conhece, e reconhece, sobre as matérias que tutela veio, com ar de maldição, ameaçar os algarvios dizendo que em 2005 vão ter água racionada. Razão? O facto de estar suspensa a construção da barragem de Odelouca, por motivo de uma queixa da Liga de Protecção da Natureza à Comissão Europeia. A propósito do tema a SicNotícias convidou o presidente da LPN e o presidente da junta metropolitana do Algarve, para debater o assunto. Contra os fundamentos da Liga, o Engenheiro Macário Correia acusou a organização não-governamental de ambiente de armar em adolescente e de ter posições de “juvenilidade”. Esquece várias coisas. Primeiro, que a LPN existe desde 1948; segundo, que nem sempre a velhice é sinónimo de maturidade ecológica; terceiro que, quando em jovem foi secretário de estado do ambiente, brandia cheio de raiva o dedo indicador contra o poluidor pagador. Razão tinha Willy Brandt quando dizia: «revolucionário aos 18, socialista aos 30 e social democrata aos 40»

quarta-feira, outubro 13, 2004

[a cultura]-página cultural de «A Voz de Loulé» - 1 Outubro: Minorias

Editorial:
Minorias, somos quase todos, uma grande maioria à espera da sua oportunidade, quero dizer, da sua igualdade, liberdade e fraternidade. Talvez como a segunda história de Luís Ene, em que a barata, lutando pela sua supremacia sobre os homens, “cresceu e tornou-se uma barata responsável que nunca se mete em confusões”. Muitas confusões, arma o “Homem-a-Dias”, num texto admiravelmente irónico sobre a instalação do secretário de estado do turismo, na cidade de Faro.
A página [a cultura] também se sente minoritária e disso se compraz, trazendo uma visão sobre temas ainda mais marginais, esquecidos no catálogo da nossa “cultura” oficial. Nesse sentido, convidou o antropólogo Miguel Vale de Almeida (MVA) para nos falar sobre a “Homoparentalidade”, segundo a perspectiva da antropologia, o que para nós é uma honra e enriquece o conjunto dos nossso temas e o conhecimento dos leitores e amigos. A ombrear com MVA, trouxemos um texto sobre “Ciganos”, escrito por uma aluna de um curso de educação da Universidade do Algarve: uma prática cultural, que é recorrente nas nossas comunidades. Para ilustrar a qualidade dos textos, nada melhor que a beleza do desenho de José Carlos Fernandes – a continuar connosco, o que agradecemos – desta vez com uma magnífica ilustração do sempre minoritário Corto Maltese, personagem do não menos minoritário Hugo Pratt.
Boas leituras e até ao próximo número “O Prisma de Cristal”, que por isso mesmo, será o último.
[Pode ler os textos deste número, aqui: http://aculturaeparasecomer.blogs.sapo.pt]

Próxima [a cultura]: “O Prisma de Cristal”