sexta-feira, março 27, 2020

Humaniza-te,: MEO

Era um esperado fenómeno destes dias. Ver as grandes empresas assumirem uma fachada de humanismo que nunca tiveram. São as tecnológicas, os bancos, as grandes distribuidoras...A MEO, e só cito esta, termina a publicidade com o conselho para os seus clientes: 'humaniza-te'. Mas não deixa de exigir a tempo os pagamentos aos seus clientes, claro. Asim vai o capitalismo: a rapidez da sua adaptação às desgraças dos mais pobres e desfavorecidos não lhes mitiga coisa nenhuma. (post por telemóvel).

quarta-feira, março 25, 2020

Agamben, Bernardo e a pandemia em Itália e no Brasil

(fonte: «Le Monde»)

Ontem tinha enviado, a uns amigos, um texto do marxista libertário João Bernardo sobre a pandemia no Brasil. O texto levantara muitos comentários e críticas, sobretudo pela caracterização que o autor fazia do 'povo' brasileiro, com quem conviveu nos últimos 30 anos. Eis o que enviei:

João Bernardo, um dos marxistas mais lúcidos da atualidade (Coletivo PassaPalavra), escreve sobre a pandemia no Brasil, a partir de uma perspetiva dos trabalhadores. Quem tiver paciência (porque agora tempo não falta), pode ler também os comentários pois, neste caso, é sempre o contrário do novo normal nas redes virtuais (link para o artigo)
Mas o artigo levantava outros problemas. Do ponto de vista teórico, a crítica dos anarquistas brasileiros era a de que ao defender a contenção da pandemia por via do distanciamento social, pensado no contexto da política do Brasil, Bernardo estaria a defender uma posição de recuo e passividade perante o capitalismo. Acontece que o texto é bem claro sobre a proposta de auto-gestão organizada dos trabalhadores perante o fenómeno, aceitando a precaução de vários riscos, para simplesmente não morrer.
Ontem à noite, no Governo Sombra Diário (15 minutos sobre o dia) Pedro Mexia trazia à colação outro teórico, conotado com a filosofia libertária, dizendo que Giorgio Agamben defendia uma teoria da conspiração a propósito da pandemia em Itália. Habituado a leituras eletivas daquele autor italiano, fui procurar o texto no «Il Manifesto», onde se publicara (link aqui). A opinião é de 26 de fevereiro passado, e o que lá se comenta tem como base a declaração do Centro de Pesquisa de Itália, declaração muito comedida para o caos que agora se instalou  naquele país. O ponto é outro. O teórico, que tem estudado os mecanismos de vigilância e de poder instituídos pelo Estado, questiona se o estado de emergência não passou a ser o mecanismo normal e recorrente da coação de liberdade das pessoas. Isso mesmo! Podemos ler uma justificação, na nossa língua, aqui.
Se pensarmos em Portugal, percebe-se o que tem defendido, entre outros, Daniel Oliveira sobre uma emergência pressionada pela opinião pública (seja o que isso for), quando nem mesmo o governo o definia como prioritário. Aceitando algumas medidas de contenção ou de calamidade, estaremos muito longe de aceitar, de mão beijada, o estado de emergência, considerando todas as configurações políticas possíveis no futuro.

terça-feira, março 24, 2020

Albert Uderzo


Morreu Albert Uderzo, o criador e ilustrador da banda desenhada «Astérix, o Gaulês», que nos acompanhou na adolescência e na idade adulta, sempre com  uma boa dose de humor e de estímulo de resistência às adversidades. Foi minha companhia, em álbum, nas vezes em que estive de cama, ou nos momentos de lazer educativo com os meus filhos, quer seja no papel, no cinema ou na televisão. Depois do desaparecimento de Goscinny, em 1977, ainda apreciamos os seus desenhos com textos de novos autores franco-belgas, e depois de Uderzo cessar de desenhar a história continuou e há de perdurar (no jornal Público aqui)!

segunda-feira, março 23, 2020

Kusturika Na Via Láctea

«Na Via Láctea» é um filme genial de Emir Kusturika. Ainda sobre a guerra da  Bósnia-Herzegovina, o autor, músico e cineasta continua a parodiar o frémito estúpido da guerra dos Balcãs, com atrocidades marcadas a fogo (a incineração dos corpos por militares é disso evidência), cheia de metáforas simbólicas (como o rebentamento de um campo minado por um rebanho de ovelhas, salvando os protagonistas, qual Ulisses na «Odisseia»). O filme é toda uma argumentação para a defesa caracterizadora de 'realismo mágico', na filmografia de Kusturika. Sim, a ironia e os mitos de reencarnação de García Marquez e de Sepúlveda estão todos lá. Para além disso, a natureza é a salvação: paisagens agrestes e belas, galinhas ao espelho, patos a banhar-se no sangue da matança do porco e, sobretudo, o falcão peregrino, bailador e combatente. Um prazer musical e estético!

domingo, março 22, 2020

Vou sair de casa e já volto!

Os agentes culturais do Algarve - pelo menos os que responderam ao apelo - gravaram um vídeo a apelar a toda a gente para ficar em casa (vídeo divulgado no SulInformação, aqui). Neste contexto de pandemia a ideia é boa e aconselha-se. Mas talvez seja bom lembrar algumas coisas simples:
- O meu filho mais velho sai de casa, todos as madrugadas, para repor os bens que aqueles que ficam em casa vão ter de comprar;
- O meu amigo Joaquim vai ter de cavar a horta, ali perto de casa, para ter alguns legumes para a sopa da noite;
- O meu colega Sérgio tem algumas saídas para o mar, onde tenta pescar alguma coisa que permita alimentar a família que, por acaso, é numerosa;
- E ainda, nem por último, a minha amiga Luísa lá estará todos os dias no Centro Hospitalar do Algarve, a tratar em condições precárias todos os doentes... (os nomes não são fictícios!).
A indústria da cultura é rápida a converter os estrangulamentos. Após perder o espaço público, há que produzir para o espaço doméstico que, hoje, como sabemos é uma mina nas ditas redes sociais. Em tempos, como se lembra quem estuda estas coisas, tinha sabido converter o consumo doméstico de 'cultura', na massificação consumista na esfera pública.
Por isso vos digo: vou fazer uma caminhada, acompanhado, e volto já para casa!

sábado, março 21, 2020

Pelo Arade acima


  
 «A minha primeira ideia do Arade era a do rio que desaguava nas pedras, lá para a ponta da areia na Praia da Rocha. Ali em frente de Ferragudo, terra de lamas, de fábricas e de um convento secreto.

Já não me lembrava de ter escrito sobre o rio, desta forma. Ler aqui!

segunda-feira, março 16, 2020

Comportamentos e atitudes na pandemia

Entre os conceitos de comportamento e de atitude há grande confusão. O primeiro refere-se a uma ação pontual vísivel em interação. O segundo é mais do que isso, um comportamento arreigado e disponível na prática intrínseca da pessoa. Daí a parafernália de indicações erradas de 'atitude' a propósito de tudo ou nada, sobretudo no mundo da bola.
Há cerca de um mês encontrei um casal a capturar lingueirão com os comuns frascos individuais de sal. Chamei a atenção para a recolha dos mesmos quando acabassem a safra, ao que responderam que tinham sempre esse cuidado. Tem sido habitual encontrá-los às dezenas a boiar na enchente da maré, junto do local onde marisco. Acontece que há dias voltei a encontrar a mesma situação que fotografei e aqui registo.
Será que isto tem alguma coisa a ver com o que se passa na aprendizagem de comportamentos e de atitudes, relativos à pandemia do COVID-19? Não tem nada, e tem tudo!