O jogo de Portugal (em futebol, é bom que se diga) contra a Dinamarca teve uma primeira parte de assombro: técnica, velocidade, inteligência, sentido colectivo. O que de melhor Queiroz pode oferecer como treinador. Até nos fez esquecer a célebre burrice de Scolari, que eu e muitos outros fomos denunciando contra a corrente. Na segunda parte, apesar dos muitos golos (especialmente os do adversário), lá estávamos nós outra vez com as pechas do conservadorismo no futebol: perdidas, individualismo, rodriguinhos. Nada que preste. Eu bem dizia há tempos: os anos de trabalho (salvo seja) de Scolari deixarão mazelas muito entranhadas e não pensem que até à África do Sul o problema se resolve. Desenganem-se.
domingo, setembro 14, 2008
sábado, setembro 06, 2008
Música a sério
X Files
quarta-feira, setembro 03, 2008
Treinador de Bancada #14
AS MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DA BOLA
Javier Marías é um escritor nosso vizinho. Nascido em 1951, em Madrid, dele são conhecidos em Portugal alguns dos melhores romances escritos em língua castelhana (ou espanhola, se preferirem), como «Todas as Almas» ou «O Homem Sentimental». Para além de um romancista emérito, ele também escreve crónicas sobre futebol. Pelo menos escreveu. De
Para um escritor de crónicas, ou para um treinador de bancada como quer que seja, a leitura de «Selvagens e Sentimentais: Histórias do Futebol», de Javier Marías, é uma tarefa e um prazer incontornáveis. São meia centena de pequenos textos de sabedoria, vício, hooliganismo decente, uma literatura admirável, para a aproximação dos povos. Trata-se de uma “literatura confessional”, pois aqui é impossível não tomar como padrão a memória de infância que todos nós temos, dos relatos radiofónicos ao domingo, dos cromos da bola trocados a peso de ouro e colados com farinha e vinagre nas cadernetas escassas, dos primeiros jogos que vimos com familiares e amigos. Outros tempos, que aqui trarei nas próximas crónicas. Hoje é impossível não recorrermos, nas nossas interpretações, a esses tempos de infância, nos quais construímos o olhar sobre o futebol. E por mais que queiramos ser objectivos, todos sabemos que o nosso olhar de hoje, sobre os tempos de ontem, são definidos pelo que somos e sabemos hoje. O nosso olhar sobre o passado é sempre reinterpretado, uma visão romantizada do que vivemos nesses tempos.
Javier Marías bem tenta recordar-se, e escrever sobre o jogo de caricas que o irmão Fernando montou e dominou nos grandes jogos das tardes de adolescência. Também eu me lembro da construção de autênticos e verdadeiros campos de futebol, em tábuas de madeira encontradas nos baldios dos valados do bairro. Sobre ela colocávamos pregos bem posicionados nos lugares dos jogadores, onze de cada lado do campo, que dividíamos ao meio com lápis e régua. As balizas eram dois pregos maiores, a pequena distância para que não fosse fácil marcar. Também nessa infância portuguesa e mediterrânica, o Vítor “Bagu” se lembrou de apor um bocado de rede de pesca nas balizas. Foi dessa forma que o jogo se tornou mais científico: acabavam as discussões sobre a entrada ou não da bola na baliza. Ah, a bola, o que era a bola? Um botão largo de vestido de mulher que roubávamos às nossas mães, desertificando os vestuários domingueiros, ou uma moeda, ainda mais rara, nesses tempos. Colocado na tábua, o botão, ou a moeda, era só chutar à vez, com a ponta do indicador a fazer pressão no polegar. Havia quem tivesse outros estilos, mais Di Stéfano, ou mais Eusébio. Claro que não havia nunca bolas para o ar, nem golos de cabeça. Torres, ou Vítor Baptista, nem pensar em jogo de cabeça. As caricas, de que Marías fala, também serviam de bola, mas eram muito grandes. O seu serviço era outro, mas isso conto contar em crónica seguinte.
Nestes jogos de simulação, menos de futebol e mais de construção de uma personalidade integrada e coesa, lá estava também o desejo, o vício, a necessidade premente de ganhar sempre. Como no futebol – diz Javier Marías – é preciso vencer sempre uma e outra vez, todas as vezes, porque não há passado na bola. Neste mundo, é sempre o presente que manda, como um condenado à vitória perene. Mais do que a felicidade da vitória passada, o que conta é a angústia de ter de vencer agora. Agora e sempre. É essa angústia que faz do futebol a desgraça que muitas vezes é. Não o facto de ser jogado a pontapé, como Cabrera Infante, escritor cubano, defende. Talvez. Talvez Javier Marías tenha razão, pois “o futebol tem qualquer coisa de inestimável e que não costuma acontecer nas outras ordens da vida: incita ao esquecimento, o que equivale a dizer que nunca incita ao rancor, coisa que só se aprende na idade adulta”.
Em breve falaremos disto.
(A Voz de Loulé, 1 Setembro 2008)
segunda-feira, agosto 04, 2008
minguante a crescer

Júlia
Correspondi ao desejo dela, quando nos pediu para tapar os olhos. Tapar os olhos era o desejo mais insidioso que se poderia esperar de uma jovem que se vai despir na praia. [Ler o resto do meu conto na revista >]
sexta-feira, agosto 01, 2008
Treinador de bancada
OS SUÍÇOS: NA BOLA E NA VIDA
Como referi na crónica anterior, tinha previsto falar-vos dos comentários de Fernando Correia, no Rádio Clube Português, a propósito da competência dos suíços na organização do campeonato europeu de futebol, vulgo Euro 2008. Eu sei que já estão fartos de futebol, agora que se iniciaram os célebres torneios de início de época, ali para os lados de Albufeira ou Vila Real de Santo António. Uma oportunidade para ver os jogadores arrastarem-se na relva, ou no banco, amuados com a expectativa das negociações de novos contratos, ou penalizados pelo treinador.
Mas voltemos a Fernando Correia. Toda a gente conhece aquela voz de sabedoria, de experiência feito, um homem cultivado próximo dos relvados e dos microfones. Há tempo que o respeitamos, nas coisas da bola. Acontece que, há semanas, comentando a capacidade dos suíços na organização do Euro 2008, afirmou que nunca tinha visto nada assim. Aquilo era a falta constante de garrafas de água para refrescar os jornalistas; documentos informativos que nunca chegavam e sempre faltavam; falta de apoio técnico e de informações sucessivas; ausência de gabinetes e de pessoal técnico capaz. Nós não duvidamos do que Fernando Correia diz.
A mim parece-me que, na verdade, os suíços estavam-se marimbando, um pouco é claro, para aquele evento que pouco lhes dizia. Lembro-me de pequenas entrevistas de rua em que, perguntados, os autóctones lá afirmavam: que havia actividades culturais mais interessantes para frequentar; que ligavam pouco ao futebol; e que tinham mais que fazer do que estar horas ocupados à volta de um objecto redondo. Enfim, a gente gosta da bola e percebe que os suíços (para não falar dos austríacos) são gente fria, que vive na neve, rodeados de rios gelados e montanhas cheias de vaquinhas de chocolate. Como podem amar o pontapé na bola? Aliás, os alemães apanham pela mesma bitola. Quando a equipa alemã ganhou a Portugal, o epíteto de “frio” foi a fundamentação teórica dos treinadores de bancada para justificar a vitória germânica. Como se sabe, o frio ganha sempre ao quente. Eu, que estou a escrever esta crónica numa esplanada em Quarteira, fugi do calor da praia para este frio modorrento da sombra.
Bom, mas esta história do jornalista do Rádio Clube Português (boa antena, ouçam!) lembrou-me o capitão Kaspar Glauser-Röist, membro da Guarda Suíça, protector de Sua Santidade o Papa e agente policial ao serviço do Tribunal da Sacra Rota Romana, e personagem do romance histórico de Matilde Asensi «O Último Catão». Li-o, há um ano talvez, mas voltei às suas páginas para perceber como é que seriam os suíços. Frios, distantes, incompetentes, desconhecedores do futebol sério? Talvez. Mas este capitão da história não pode deixar de ser suíço, pois essa nacionalidade “é obrigatória para todos os membros do pequeno exército vaticano”. E ele é inteligente, honesto, cumpridor, sério, afectuoso, misterioso. E no fim, até se torna o último Catão - o Catão CCLVIII - depois de ter superado, com os seus companheiros de romance, as difíceis provas propostas por Dante Alighieri em «A Divina Comédia».
Não é que eu tenha algo quanto ao prestígio da Suíça como país inspirador de trabalho, pois não é verdade que os dados estatísticos provam que é nesse país que os portugueses trabalham mais? Talvez liguem menos ao futebol. Bem, também os vimos, dando a cara às câmaras de televisão durante o Euro 2008. Claro que eram muitos no início e já muito poucos no fim. Pudera! Esta questão levou-me também a procurar notas várias sobre os índices de desenvolvimento da Suíça e o que tinha, ou consultei, deixou-me mais descansado. Ora vejamos.
Um estudo da Unicef, sobre o bem estar das crianças, mostra que a Suíça ocupa a sexta posição no índice da qualidade de vida dos menores (afecto, educação, relação social), enquanto Portugal fica em 17º lugar, num estudo que envolveu 21 países. O nosso só se destaca no campo dos relacionamentos familiares. Nada mau para as nossas boas famílias. A Suíça bate-nos no item relacionamento com amigos, que é muito melhor do que o nosso. O que o estudo mostra, nos seus 40 parâmetros, é que os dados podem ser muito condicionados pelas políticas sociais e educativas dos países. Claro que isto também já se sabe. Portugal pode ser muito bom (o melhor mesmo) a organizar europeus de futebol, mas quanto a políticas educativas e sociais, pois, pois.
Num outro estudo, o PISA/2006 (programa internacional que acompanha os resultados de evolução escolar), também a Suíça se destaca, nas áreas das ciências naturais, da leitura e da matemática. Nos dados globais das três áreas, a sua média é superior à média dos restantes países testados da OCDE. Mas os suíços, com a sua fleuma de apreciadores de futebol alheio, lá vão dizendo que os dados não são tudo, que não se podem comparar estes resultados como se fossem uma prova desportiva, etc, etc.
E esta, hem? Bom, esta reacção tem muito a ver com o facto de a Suíça ser um país de forte imigração (20,2% de estrangeiros), muita dela portuguesa. O trabalho de integração de imigrantes, com diferentes culturas e línguas, não é fácil, mas a Suíça fá-lo, há muitos anos como se sabe. E os resultados estão à vista, mesmo que os suíços não sejam muito competentes na organização de eventos da bola. E os portugueses que o digam.
Coça, coça.
