quinta-feira, maio 15, 2008

Treinador de Bancada #8

O Capitão-mor da armada portuguesa

Estava eu descansado, com a crónica já escrita do “Apito Dourado”, quando senão param todas as máquinas. Vinha aí a conferência de imprensa do seleccionador de futebol da equipa das quinas. E logo às 20 horas, horário de abertura de todos os espaços informativos das televisões públicas e privadas. É claro que ninguém ficou de fora, estavam lá todos, julgo eu, que estava em trânsito e limitei-me ao rádio do carro. Mas, pelo que vi depois, ninguém deixou de apresentar em directo e ao vivo, da terra do presidente da Associação Nacional de Municípios, as sábias palavras do presidente da Federação Portuguesa de Futebol e do seu escolhido. A propósito, quem tem olhos na cara e ouvidos bem abertos já percebeu que não reina confiança e esperança na voz embargada e triste do presidente federativo. A ideia de Scolari como salvador da pátria já foi chão que deu uvas. Aliás, não deu uvas nenhumas, como se sabe.

Mas o que levou a tanta emoção nos media nacionais, para que todos estivessem em directo de Viseu? Bem, a resposta é simples: ouvir a lista de 23 jogadores da equipa de Portugal que, na Áustria/Suíça, irão disputar o Europeu de Futebol. Como isto não tem qualquer novidade, os jornalistas fazem da vulgaridade do acto a descoberta do Brasil. E perguntam, rápido e certeiro, pela ordem do sorteio de perguntas na sala: por que razão o Maniche, que foi o melhor marcador das duas campanhas anteriores, não estará nos convocados; para que serve o Helder Postiga, que praticamente não jogou esta época; qual o papel do Ronaldo, se afinal ele não tem a equipa do Manchester em campo, a seu lado; e, finalmente, por que raio continua o Ricardo a ser titular da baliza? Como se percebe, um verdadeiro acto de estado, a conferência de imprensa da Federação Portuguesa de Futebol.

Bom, mas sejamos justos. Lá que houve novidade, houve mesmo. Ficamos a saber que é agora que a disciplina militar vai ser imposta. E, para isso, a equipa não vai ter um, nem dois capitães, mas sim cinco. Ouviram? Cinco! Scolari, grande estudioso da história do Brasil (e, que saibamos, andou a ler recentemente a «Carta a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil», de Pêro Vaz de Caminha), lembrou-se de capitanear a armada com os émulos dos descobridores portugueses. Vai daí, foi só fazer a lista: Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Fernão de Magalhães…Só faltava um, para ele o mais importante, aquele que se diz ter descoberto o Brasil. Uma terra que já lá estava, há muito, povoado de índios “pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andavam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas”. Foi esta inspiração, plasmada na Carta, que levou Scolari a revelar apenas o nome do capitão-mor da selecção de futebol, de seu nome Ricardo Carvalho. Parece que o próprio nem sabe, ele que lá anda nos relvados do “velho império onde o sol nunca se punha”. Um capitão que, provavelmente, não o quer ser, pois sabe que Colunas não nascem todos os dias.

Bem vistas as coisas, da selecção entenda-se, e olhando as bandeiras chinesas, já muito esfarrapadas, pendentes de janelas e mastros, percebe-se o que nos espera: um movimento de adesão patriótica em torno da equipa de todos nós, uma coesão de valores nacionais entre homens e mulheres, velhos e novos, e ricos e pobres. Só a nossa selecção de futebol poderia conseguir tal feito. Eu até me oferecia para escrever a carta do achamento da Áustria e da Suiça, mas acho melhor não embarcar.

Vou ali jogar à bola com os meus filhos e já volto…

(A Voz de Loulé, 15 Maio 2008)

domingo, maio 11, 2008

Microconto

O umbigo
Estávamos a ensinar o M a fazer sexo. Ele esbracejava entre a roupa da C, sempre disposta a estes prazeres adolescentes do corpo, procurando o sítio certo. Era mais que certo que não sabia onde o procurar, era caloiro na matéria. (...)

Leia o resto do meu microconto na revista minguante nº 10, de Maio de 2008 (link). E divulgue-a (link).

terça-feira, maio 06, 2008

Treinador de bancada

A Fórmula dos dois milhões

Tiago Monteiro recebeu dois milhões de euros para rodar o seu carro na Fórmula 1. Todos nós sabemos o que são dois milhões de euros, mesmo não os tendo visto na nossa mão. Um exercício, fácil de comparação, será pensarmos que esse número corresponde, grosso modo, a dois milhões de pessoas no limiar de pobreza, já que um euro será o mínimo de subsistência para cada pessoa, por dia, nos países pobres e desfavorecidos. Outro exercício deveras interessante, seria o de confrontarmos o que receberam modalidades olímpicas representadas no Comité Olímpico Português, no qual se integram centenas de atletas: dois milhões e duzentos mil euros, para o mesmo período.

Agora, meus amigos, eu direi o que vocês já sabem: os tais dois milhões, que serviram ao piloto português nos anos de 2005 e 2006 nos campeonatos do mundo, foram endossados pelo governo de Portugal. Simples e limpo, como manda a cultura do défice. Melhor, há vida para além do défice, como diria o ex-presidente Jorge Sampaio.

A história é mais simples de contar do que perceber. Como os patrocinadores se estiveram nas tintas para dar o dinheiro à Jordan, e mais tarde à Midland, empresas de gestão do piloto (caramba, o que se aprende na alta roda do desporto, meus senhores), alguém teve que entrar com o dinheiro dos contribuintes. Quem é que governa o dinheiro dos contribuintes? Vocês sabem, o governo, pois claro. Primeiro o de Santana, que prometeu o “apoio incondicional ao piloto”; depois o de Sócrates que “não pode deixar de honrar compromissos”, como se sabe. O actual, diz que a culpa é do anterior, mas toda a gente diz que afinal os contratos de pagamento foram assinados de livre vontade. Na berlinda da defesa do acordo, lá estão o ministro da presidência, Silva Pereira e o sempre presente secretário de estado do desporto, Laurentino Dias. A piada de todo este imbróglio é que se o anterior governo não tivesse caído, a avaliar pelas promessas do ex-ministro adjunto Gomes da Silva, o financiamento do governo ao atleta teria sido de seis milhões de euros. Pasmem, por favor. Como se veio a verificar, as empresas que suportariam esse acordo jogaram pelo seguro e deixaram o carro de Tiago Monteiro a correr em família.

Mas o que leva um governo a financiar um piloto de Fórmula 1, perguntam vocês e bem. A resposta é clara, simples e patriótica: trata-se de uma “oportunidade única para potenciar a imagem de Portugal no mundo”. Foi esta ideia, tão saloia quanto pseudo-identitária, que movimentou tanta gente de dois governos, na passagem do cheque do Instituto de Desporto de Portugal para as mãos da CSS Stellar, gestora da carreira do piloto. Tratou-se, portanto, na filosofia megalómana dos dois governos envolvidos, de “um desígnio de alto interesse para o país”. Como todos sabemos, as razões foram mais prosaicas. O dinheiro serviu, apenas, para pagar as dívidas do piloto, à equipa canadiana que o tinha suspenso da competição em 15 de Julho de 2006, de forma a não abandonar a Fórmula 1. Um desporto, que tantas alegrias tem dado a Portugal, não é verdade?! Segundo se diz, o contrato de financiamento dos dois milhões de euros não estipula qualquer obrigação do piloto de publicitar a marca Portugal.

Agora, sabem o que seria interessante? Dar a ler esta crónica a Ana Rente, atleta do Lisboa Ginásio Clube, ginasta campeã da Europa de juniores em 2004, a João Costa, atirador da Naval 1º de Maio, 7º lugar nos Jogos de Atenas, a Sílvia Cruz, lançadora de dardo do Sporting, que prepara a sua primeira participação nos Jogos, ou a Vanessa Fernandes, com 19 vitórias em taças do mundo de triatlo. Não alonguemos a lista…

(A Voz de Loulé, 1 Maio 2008)

sexta-feira, maio 02, 2008

Maio 68

O "Maio de 68", em França, foi há 40 anos. Uma apresentação de imagens, de cartazes marcantes desse tempo de mudança radical, pode ser vista em slideshow na plataforma do Sapo (link).

terça-feira, abril 29, 2008

[Pub]

Aqui mesmo ao nosso lado, a única livraria da cidade de Loulé (Caravana) tem um espólio de livros a preços de ocasião. Quase todos do catálogo da distribuidora Sodilivros, conhecida pela venda em feiras e livrarias de retalho, lá estão dezenas de livros entre 1 e 7 euros: banda desenhada, romance, ensaio, técnicos. Não resisti ao «Belos Cavalos» do Cormac McCarthy, da Teorema e a dois ensaios de prestígio, um sobre Os Ciganos e outro sobre a história de vida do Chefe Sioux, Alce Negro, ambos da editora Antígona. Aliás queria chamar a atenção para o excelente conjunto de livros desta editora, à disposição dos leitores. Não lê mesmo, quem não quer...

segunda-feira, abril 28, 2008

A ler

E já agora queria aconselhar a leitura do romance blogosférico do José Carlos Barros, "O Fio do Norte", no seu blogue Casa de Cacela (link).

domingo, abril 27, 2008

Abril, há tanto tempo...

Apesar de atrasado (a vida não pára e prefiro isso ao foguetório memorialista das comemorações), aconselho a leitura do conto que escrevi há uns anos sobre o 25 de Abril de há 34 anos. Está ali ao lado, publicado na revista de contos «Bestiário» e chama-se "Trinta anos depois" (link).