terça-feira, março 24, 2020

Albert Uderzo


Morreu Albert Uderzo, o criador e ilustrador da banda desenhada «Astérix, o Gaulês», que nos acompanhou na adolescência e na idade adulta, sempre com  uma boa dose de humor e de estímulo de resistência às adversidades. Foi minha companhia, em álbum, nas vezes em que estive de cama, ou nos momentos de lazer educativo com os meus filhos, quer seja no papel, no cinema ou na televisão. Depois do desaparecimento de Goscinny, em 1977, ainda apreciamos os seus desenhos com textos de novos autores franco-belgas, e depois de Uderzo cessar de desenhar a história continuou e há de perdurar (no jornal Público aqui)!

segunda-feira, março 23, 2020

Kusturika Na Via Láctea

«Na Via Láctea» é um filme genial de Emir Kusturika. Ainda sobre a guerra da  Bósnia-Herzegovina, o autor, músico e cineasta continua a parodiar o frémito estúpido da guerra dos Balcãs, com atrocidades marcadas a fogo (a incineração dos corpos por militares é disso evidência), cheia de metáforas simbólicas (como o rebentamento de um campo minado por um rebanho de ovelhas, salvando os protagonistas, qual Ulisses na «Odisseia»). O filme é toda uma argumentação para a defesa caracterizadora de 'realismo mágico', na filmografia de Kusturika. Sim, a ironia e os mitos de reencarnação de García Marquez e de Sepúlveda estão todos lá. Para além disso, a natureza é a salvação: paisagens agrestes e belas, galinhas ao espelho, patos a banhar-se no sangue da matança do porco e, sobretudo, o falcão peregrino, bailador e combatente. Um prazer musical e estético!

domingo, março 22, 2020

Vou sair de casa e já volto!

Os agentes culturais do Algarve - pelo menos os que responderam ao apelo - gravaram um vídeo a apelar a toda a gente para ficar em casa (vídeo divulgado no SulInformação, aqui). Neste contexto de pandemia a ideia é boa e aconselha-se. Mas talvez seja bom lembrar algumas coisas simples:
- O meu filho mais velho sai de casa, todos as madrugadas, para repor os bens que aqueles que ficam em casa vão ter de comprar;
- O meu amigo Joaquim vai ter de cavar a horta, ali perto de casa, para ter alguns legumes para a sopa da noite;
- O meu colega Sérgio tem algumas saídas para o mar, onde tenta pescar alguma coisa que permita alimentar a família que, por acaso, é numerosa;
- E ainda, nem por último, a minha amiga Luísa lá estará todos os dias no Centro Hospitalar do Algarve, a tratar em condições precárias todos os doentes... (os nomes não são fictícios!).
A indústria da cultura é rápida a converter os estrangulamentos. Após perder o espaço público, há que produzir para o espaço doméstico que, hoje, como sabemos é uma mina nas ditas redes sociais. Em tempos, como se lembra quem estuda estas coisas, tinha sabido converter o consumo doméstico de 'cultura', na massificação consumista na esfera pública.
Por isso vos digo: vou fazer uma caminhada, acompanhado, e volto já para casa!

sábado, março 21, 2020

Pelo Arade acima


  
 «A minha primeira ideia do Arade era a do rio que desaguava nas pedras, lá para a ponta da areia na Praia da Rocha. Ali em frente de Ferragudo, terra de lamas, de fábricas e de um convento secreto.

Já não me lembrava de ter escrito sobre o rio, desta forma. Ler aqui!

segunda-feira, março 16, 2020

Comportamentos e atitudes na pandemia

Entre os conceitos de comportamento e de atitude há grande confusão. O primeiro refere-se a uma ação pontual vísivel em interação. O segundo é mais do que isso, um comportamento arreigado e disponível na prática intrínseca da pessoa. Daí a parafernália de indicações erradas de 'atitude' a propósito de tudo ou nada, sobretudo no mundo da bola.
Há cerca de um mês encontrei um casal a capturar lingueirão com os comuns frascos individuais de sal. Chamei a atenção para a recolha dos mesmos quando acabassem a safra, ao que responderam que tinham sempre esse cuidado. Tem sido habitual encontrá-los às dezenas a boiar na enchente da maré, junto do local onde marisco. Acontece que há dias voltei a encontrar a mesma situação que fotografei e aqui registo.
Será que isto tem alguma coisa a ver com o que se passa na aprendizagem de comportamentos e de atitudes, relativos à pandemia do COVID-19? Não tem nada, e tem tudo!

domingo, fevereiro 23, 2020

'Contra o capitalismo de vigilância!'

Quando iniciamos um projeto não sabemos quando ele acabará. Criado na época da blogboom, quando o 'capitalismo da vigilância' ainda não tinha sido inventado pelos monopólios da tecnomedia, este blog foi servindo para treinar a escrita sobre tudo o que fosse útil dizer: em tempos de maior ou menor ativismo, na política, nos movimentos sociais, ou apenas na boémia libertária do lazer - ócio, ócio, que o trabalho é alienante. 
São passados 16 anos, com a irregularidade apanágio das nossas vidas, num tempo em que desapareceram quase todos os blogs algarvios desses momentos frenéticos, agora substituídos pelo frenesi das redes de exploração de dados a que o vulgo chama de 'sociais'. Pois fiquem sabendo que a minha luta, aqui  nestes domínios, passa por pequenos passos carbonizadores: não tenho, nem nunca terei a merda do feicebuque (à RAP, pois claro, leiam, leiam), watsapp, ou outra bolha qualquer de seita, e mesmo no gmail, são poucas as pegadas que deixo nesse lixo cibernético. Neste blog também é recusada a publicidade. 
Daqui a mais 16 anos iremos ver!!

Nota: aproveito para dar os parabéns ao João Martins, que ainda se mantém desde 2006, com uma regularidade e pujanças necessárias à diversidade e heterodoxia das vozes públicas (ver aqui)

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Povo que Canta não pode morrer

A RTP Memória voltou a pôr no ar os episódios da primeira série do programa de Michel Giacometti «O Povo que Canta», gravado entre 1970 e 1974, com realização de Alfredo Tropa. Já tinha visto muitos nas reposições de há uns anos e agora pude ver as gravações magníficas de cantos de trabalho, coletivo e individual, caso da cantiga de roda de tirar água, agreste e religiosamente dolorosa. Lembro-me de ter visto o programa ainda antes do 25A, na altura em que o marcelismo deixava passar os filmes do realismo italiano e alguns destes programas. Disponíveis também na plataforma dos Arquivos RTP (clicar aqui), pude visionar a célebre oração das almas de Alcoutim, Recordai Nobre Senhor, gravado em Monte Cabaços, que tinha já cantado no Grupo de Música Tradicional Dar de Vaia, mas da qual não conhecia o registo sonoro em filme, efetuado há cerca de 50 anos. Voltarei a este tema em breve.

Na foto: cantadeiras da Salvé Rainha do Mar, de Armação de Pera (foto minha, de 1984)

sexta-feira, fevereiro 07, 2020

O meu cânone de literatura

Livros de cabeceira, há uma semana atrás. Ainda o último romance de Robert Wilson estava em leitura. Agora, na sua posição deitado, está A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells.
Ao mudar a posição da mesa observei-a de outro ponto de vista; não o do leitor mas o do definidor de cânones. Sim, aceitemos alguns cânones de literatura, de Steiner a Bloom, ou mesmo de Francisco José Viegas. O meu poderia ser este, ou melhor, ter nesta mesa parte dele. Aqui estão Ulisses, de James Joyce, O Valente Soldado Schveik, de Jaroslav Hasek, O Som e a Fúria, de Faulkner e, escondido na prateleira do meio, o nunca acabado Viagem ao Fim da Noite de Céline. Na cómoda, à minha frente, estão muitos mais: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, Nós, de Zamiatine e Photomaton & Vox, de Herberto Helder. Todos eles precursores de muita coisa nas palavras escritas. E há mais, muitos mais, espalhados pela compulsão da casa!

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

CR7=35

CR7 fez  35 anos! E depois? A diarreia de reportagens dos media sobre o assunto, mostra como a indústria da cultura de massas é capaz de produzir e reproduzir, até à exaustão, simbologia de legitimação popular que só reforça a hegemonia do capitalismo e do poder monopolista do dinheiro. Nesse dia, outra gente nasceu, e vive esse mesmo dia a tentar saber como estenderá o rendimento do trabalho até ao fim do mês, ou pagará os impostos no meio do ano. A desigualdade social é também reforçada pela desigualdade de apropriação dos valores simbólicos e culturais inculcados pelos mass media, que assim cobram parte do pecúlio da exploração dos milhões que o futebol movimenta. Razão tinham, há quase um século, os sociólogos da Escola de Frankfurt: se o meio é mesmo a mensagem, então CR7 é o melhor meio para a exploração simbólica e real do valor do dinheiro no capitalismo financeiro.

terça-feira, janeiro 28, 2020

A dita natureza humana

Enquanto o caso Luanda Leaks vai ensinando os leitores e ouvintes sobre o conceito de acumulação primária de capital (prefiro a tradução primária a primitiva, dada a sua confusão com o capitalismo primitivo, como esclarece Giddens), outra acumulação vai acontecendo nas quintas periféricas da cidade. Alheios ao bulício da urbe moderna e cosmopolita, uma família de porcos de montanheira, vai-se alimentando de bolota, azeitona e laranjas, no processo de engorda para a matança dos tempos frios do próximo outono/inverno, no complexo fenómeno da rurbanização imperfeita.

quarta-feira, janeiro 22, 2020

Dos Santos, Marx e a acumulação do capital



 (foto-arquivo ASantos)

As relevações do Luanda Leaks, está a causar estranheza a muita gente. Para quem leu um módico de Marx facilmente percebe o que está em causa. O capitalismo adaptou-se aos novos tempos, batizado ou não de neoliberalismo, fazendo dos capitalistas, empreendedores ou empresários, mesmo quando estes já nada têm de ligação a fábricas e aos trabalhadores. Mas a exploração é a mesma, mesmo que disfarçada de pobreza, desemprego e ruína. O caso Isabel dos Santos mostra como o capital continua a ser alvo de uma acumulação capitalista primária, escondida hoje nos paraísos off-shores no Dubai, ou na conivência com os gestores do capital em Portugal. Francisco Louçã denuncia-o bem, e como não se espera vergonha nem de gestores, nem de políticos reprodutores do capital, o que nos resta é denunciar esta desfaçatez.

O texto de Francisco Louçã, publicado no Expresso-Diário e só acessível a leitores registados, pode ser lido via Brumas, aqui!)

[Atualização] Ver também o desabafo de João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas (aqui)! E também no Vias de facto (aqui)

sexta-feira, janeiro 17, 2020

Imprensa: papel e rede

 (clicar sobre a imagem para ler melhor)
A propósito do post do João Martins, nos seus 14 anos do blog MacLoulé, lembrei-me do texto que escrevi, na Voz de Loulé, há cerca de 12 anos sobre o futuro que se adivinhava para a imprensa: um misto de comunicação em papel, mas a caminhar paulatinamente, e de seguida mais aceleradamente para o nível digital, nas plataformas disponíveis. Hoje, quase só leio no computador ou no telemóvel, o Expresso (diário ou semanário) entra-me pela tela móvel e, vejam lá, até o New York Times - nas suas reportagens internacionais que me interessam - me chega no formato semanal em série televisiva através do The Weekly.
É bom reler e concordar, que ainda não acertamos em tudo...

quarta-feira, janeiro 15, 2020

Hanna Arendt talvez...

O homem escreve, todos os dias, uma pequena coluna no Correio da Manhã. No seu blogue esperamos um mês para as ler, todas de seguida. Quase sempre encontramos pequenas pérolas de escritor; como esta:
A banalização do mal é um dos horrores da nossa história – mas a “banalização do bem” desvaloriza-nos a todos.
(clicar aqui para ler todo o post)

sábado, janeiro 04, 2020

Sagrado

Dias sem  vento, coisa estranha e inexplicável.  Aqui onde a terra acaba e o mar começa num canto da Europa que é a minha casa,  muitas vezes por ano.

sexta-feira, dezembro 20, 2019

Sul Informação discrimina

Queria eu comentar o artigo do Sul Informação sobre a aprovação na Assembleia Municipal de Loulé da suspensão do Plano Diretor Municipal na área referente ao terreno do mercado semanal de fruta em Quarteira, mas eis que o jornal online não me deixa comentar, a não ser por via da merda do feicebuque (como diz o RAP). Discriminação estúpida, digo eu, para um jornal tão moderno que não respeita as opções livres de cada leitor. E eu, que tenho o jornal nas minhas leituras de sidebar, em conjunto com outros bem mais sérios...

sexta-feira, dezembro 13, 2019

Medronhos

Aí estão eles, os arbustos do barrocal e da serra do Algarve, cheios de frutos laranjas e vermelhos, enquanto o sol tímido do outono não traz algum calor aos montes. São redondos e picados de rugosidade, tenros ao contacto dos dedos e brilhantes no desejo de os colher e comer. Quando era puto, dizia-se da sua bebedeira; eram os mais velhos guardando para si os sabores ácidos dos medronhos. Colhidos, limpos de folhas e pedúnculos, depois fermentados em tinas várias, eles são o conduto dos alambiques de cobre, aquecidos a lenha, até se despejarem em líquido escorreito, transparente e quente até às goelas a queimar de quem o bebe. Em jovem trabalhei numa moagem e destilaria em Lagos, mas lá só se destilava o engaço da uva e o figo, transformados em bagaços e aguardentes. Ao sair do alambique para o copo, vinha solícita até à nossa boca sequiosa de adolescente. Mais tarde, em adulto, colhi muitos medronhos nas serras de xisto do nordeste, com o mesmo frenesim com que sabia os iria beber em líquido de fogo.

quinta-feira, dezembro 12, 2019

Crónicas de Assis Pacheco

Numa investigação que estou a fazer, nos jornais locais e regionais no Centro de Documentação da Câmara de Loulé, deparei-me com as minhas crónicas publicadas no jornal A Voz de Loulé. Insertas com vários formatos e designações eram, de certa maneira, devedoras deste blog e suas causadoras também. É o ovo e a galinha da filosofia. Mas vem isto a propósito de este estímulo me ter levado a voltar à leitura de livros de crónicas. Ao livro de Nelson Rodrigues, A Vida Como Ela É... e a este caso, quase surrealista de Assis Pacheco, Tenho Cinco Minutos para Contar uma História. Pequenos contos de 5 minutos, lidos aos microfones da rádio, entre 1977-1978, sobre tudo o que merece ser contado e partilhado, palavras, frases e expressões nas quais nos revemos sempre.
(Clicar na imagem para aceder ao livro)

quarta-feira, dezembro 11, 2019

José Lopes

José Lopes tinha menos dois anos do que eu. Morreu na rua, de tristeza e de miséria. Tinha sido ator e colaborador da extinta Cornucópia, o projeto de teatro excecional de Luís Miguel Cintra. O blogue de Eduardo Pitta, pergunta: ler aqui!

Liberais sem iniciativa

Confrangedora, foi a intervenção do deputado da Iniciativa Liberal no debate quinzenal parlamentar com o governo. Mal preparado, sem dados para argumentar no pouco tempo de debate, foi gozado e enxovalhado, pelo humor pouco habitual, mas repescado, do primeiro ministro. As promessas da ideologia liberal cada vez conquistam mais detratores.

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Tirem a pata de cima!

Estiveram bem, e coerentes, com a defesa de uma política de paz e de solidariedade entre os povos, o Bloco e o PCP na Assembleia da República, ao questionarem a reunião, ao que parece clandestina, entre o secretário americano Mike Pompeo e o primeiro ministro israelita Benjamin Netanhiu. Empurrados pelo esperto Boris Jonhson, que deu a desculpa de estar muito ocupado para assegurar segurança e custos em Londres, aqueles dois colonizadores e fazedores de guerras, vêm encontrar-se em Portugal, não como turistas, mas para cozinhar algo, Ambrósio! Razão tem o líder parlamentar do BE, quando afirma que isto nos faz lembrar a cimeira das Lajes, nos Açores, quando a direita europeia se encontrou, sob o beneplácito de Durão Barroso, antes da invasão e da guerra do Iraque.