segunda-feira, janeiro 07, 2019

Por Timor! em Loulé, 1992





Há 26 anos deve ter sido a 1ª manifestação de apoio a Timor. Pensada por alguns ativistas, a iniciativa juntou artistas plásticos e músicos na Avenida José da Costa Mealha e no Cine-Teatro da cidade. No espólio do nosso amigo Venceslau Contreiras, infelizmente já falecido, o seu irmão Adão Contreiras encontrou e editou um documentário de 8 minutos sobre a iniciativa. Lá aparecem o Adão, o Vitor Picanço, o Afonso Rocha, o Afonso Matos, o Hermínio Pinto da Silva, o Daniel, não sei se o Sérgio Sousa - todos artistas plásticos. Também de passagem, e sempre a correr, eu, o Joaquim, o Albano, e muitos miúdos da Secundária de Loulé, mobilizados e ensaiados como sempre pelo José Teiga, outro dos ativistas. Também a Filomena e o Filhó, que apresentaram a sessão da noite.
Para perceber o contexto convém ler o conjunto de posts que escrevi há uns anos (clicar aqui).
No blog do Adão aqui!

sexta-feira, janeiro 04, 2019

Arte de vanguarda e povo rural

Tal como tinha referido em post anterior [aqui], escrevi um pequeno ensaio sobre o tema da incomunicação entre artistas de vanguarda e povo rural, publicado no último número do Jornal Ecos da Serra, de Alte (novembro-dezembro 2018), que pode ser lido em papel:



A ARTE E AS COMUNIDADES RURAIS. 
O CASO DA INSTALAÇÃO ARTÍSTICA DE DANIEL VIEIRA NA ALDEIA DE ALTE

Em estudo realizado sobre as Bienais de Arte de Vila Nova de Cerveira, a socióloga Idalina Conde, num texto já clássico de 1987, fala da dissonância entre arte de vanguarda (arte moderna) e o público com o qual se comunica. Um dos conceitos fundamentais, presente nesta relação entre o artista e o público, é o da «incomunicação», dado que a arte erudita de vanguarda não é recebida por um público sem disposição estética para apreciar uma prática artística, que é uma imposição aos seus hábitos e práticas culturais.
Ora, a propósito da instalação das obras de arte do artista plástico Daniel Vieira, transformadas pela artista Renata Pawelec, e colocadas nas paredes das casas da aldeia de Alte, no concelho de Loulé, é interessante colocar algumas notas:
i) Daniel Vieira é um artista plástico consagrado, e aceite consensualmente na área da pintura e da serigrafia nacionais. Outra coisa é quando as suas obras são simuladas como baixos relevos por outra artista. Não há nada de mal neste trabalho em conjunto, mas essa situação deve ser explicada, sobretudo quando o artista expõe no espaço público;
ii) É exatamente este aspeto que se deve considerar. Quando se passa do espaço privado (a oficina ou a galeria do artista) para o espaço público (a rua), a arte assume outra dimensão e a responsabilidade atinge toda a comunidade, já que estamos no domínio do público, das gentes que habitam a aldeia e, por isso, esse público tem o poder de se auto-excluir, ou de criticar;
iii) Outro aspeto relaciona-se com o momento expositivo da arte. Quando esta se expõe de forma efémera, quer dizer, instala-se durante algum tempo, sabemos que o seu impacto visual e social é menor. Quando, pelo contrário, a arte é colocada como elemento permanente, o seu peso é tão grande quanto uma casa, uma chaminé, um museu, e assim ela passa a constituir um elemento arquitetónico da aldeia;
iv) Ora, é justamente este ponto que nos deve preocupar. As instalações colocadas nas ruas da aldeia de Alte, tornam-se mais um elemento de impacto e de estímulo visual, tal como a arquitetura, a iluminação, o trânsito, as pessoas, etc. O excesso de elementos visuais, tal como os escritos, não são benéficos para o usufruto cultural e podem tornar-se naquilo que Conde diz ser uma imposição de novos hábitos culturais, que criam tensão e violência simbólica. Como exemplo, temos o painel colocado na Rua dos Pisadoiros, rua que já tem dois painéis de azulejo sobre o tema local do esparto.
v) Que fazer, então, perante este desentendimento entre artistas e públicos?
Uma das metodologias (a maneira de fazer) usadas pelos artistas, é aquilo a que se chama a «arte participada», um espaço coletivo e comum de compromisso social compartilhado por artistas e público, em que este é parte indispensável do processo criativo. Lembro que, aquando da 1ª Semana das Artes e Culturas, em 1995, as três manifestações artísticas realizadas em Alte, obedeceram a este princípio. Como exemplo, a escultura de pedra de Afonso Rocha, foi trabalhada por algumas pessoas da aldeia; a própria pedra calcária, em que assenta o acordeão, foi encontrada e trazida por populares para a instalar no Largo José Cavaco Vieira.
vi) Finalmente, a arte encontra hoje na educação o seu parceiro fundamental. As manifestações artísticas, sejam eruditas ou populares, devem ter uma componente educacional. Os jovens estudantes de turismo da Escola Profissional podem fazer presépios com as artesãs da Torre, porque aprendem cultura local. Também os populares podem ser artistas plásticos por um dia.
Assim, as obras de arte instaladas na aldeia deveriam ter a discussão e a participação mais passiva ou mais ativa da comunidade local, porque é ela também a detentora do espaço público onde vive.
(investigador do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa)

A Degradação do Ensino Superior



Durante uns dias a imprensa regional e as televisões nacionais deram notícia do professor de química que ameaçou o diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve, de colocar uma bomba nas instalações da escola, por se sentir discriminado com a sua situação profissional. As notícias acrescentaram apenas, por via do seu diretor, que o docente estaria de baixa psiquiátrica. Mais nada!
O que interessava saber, era se o estado de saúde mental do docente determinou o seu comportamento atentatório, ou se foram os fenómenos de degradação do ensino superior que contribuíram para o desenlace daquela atitude: a permanente redução e congelamento salarial, a obrigatoriedade de avaliações burocratizadas, o imperativo da ‘investigação’ a metro, a proibição de redução de serviço para cumprimento de graduações sucessivas, o não cumprimento da lei relativamente às progressões remuneratórias determinadas pela avaliação docente, et cetera, et cetera.
Agora, sabemos que o docente foi julgado e sancionado com termo de identidade e residência.
Pergunta-se, qual o papel educativo da universidade neste caso?

[seguem-se os dados de identificação] 

Nota: carta enviada para a seção Cartas do jornal Expresso, a 30.11.2018, sujeita a 150 palavras e não publicada

terça-feira, dezembro 11, 2018

Lourenço Marques, aliás Maputo


De Francisco José Viegas li vários livros, quase todos policiais passados em Portugal. Tinha deixado este em banho maria, mas a história também cruza um polícia com a busca de memórias da colónia, não a colónia do capitalismo português, mas a cidade das acácias, a pérola do Índico, como refere o autor.
De Moçambique não tenho memórias, nem de cafés, nem de cinemas, nem de bailes, nem de cervejas, nem de pretos, nem de brancos, nem de lagos, nem de rios...
De Moçambique, tive um carro, um Austin 1000 branco, comprado a uma amiga minha, que deve ter comprado à sua mãe, e que ficou ali, até ser levado para abate. De Moçambique fugi da guerra, melhor antecipei a fuga, recusando dar o nome em janeiro de 1974, no ano em que faria 18 anos e lia «A Mãe», de Máximo Gorki.

terça-feira, dezembro 04, 2018

Agustina, os comboios e eu



A propósito de uma viagem de comboio, Pedro Mexia (Expresso de 24 de novembro) fala do livro de Agustina «As Estações da Vida», que sendo sobre os painéis de azulejos das estações, é sobretudo sobre a viagem. Das recordações de viagens de comboio lembro os dois anos em que estudei em Silves, quando os assentos de pau não fazim mossa nos corpos juvenis, habituados ao tempo das descobertas da sexualidade, da boémia e da vadiagem. Por isso foram dois anos e não um, como deveria ser até ao acesso ao liceu de Portimão, onde vivia. Também foi numa dessas automotoras que a Pide, nos vigiou e seguiu, após alguns discursos intrusivos e críticos do regime. Falo disto no conto ‘Trinta Anos Depois’, escrito aquando das comemorações dos 30 anos do 25 de Abril e publicado na revista Bestiário (agora apenas editora; mas o conto pode ser lido em breve nos meus arquivos).
Há uns anos, a pedido dos meus filhos que só conheciam as viagens de automóvel, viajamos de comboio entre Loulé e Faro, olhando com tempo as paisagens ainda rurais da passagem do trem. Nessa viagem, o revisor deixou um bilhete autografado como recordação aos miúdos, deixando também parte da sua alma de viajante.