terça-feira, junho 04, 2019

Agustina




Confesso que «A Sibila» nunca sibilou aos meus ouvidos, talvez porque no meu tempo «Os Maias» davam cartas no liceu, romance que também não li. Na altura, era o marxismo que me ocupava as leituras, de ensaios e romances.
Em 1988, numa fase de busca de individualidade libertária-filosófica comprei «Prazer e Glória», acabado de sair, um romance sobre uma família burguesa – como era o universo de Agustina – mas com o bastardo artista João Pinheiro (talvez lembrando o traído Pinheiro Alves, marido da amante de Camilo, esse sim autor boémio de que li muito) a contrariar o universo.
Pedro Mexia dizia, ontem a propósito da literatura de Agustina, que ela era sobretudo criticada por motivos ideológicos, como autora burguesa e elitista, mas que a devíamos olhar pelo lado puramente literário. Lembro-me que na altura achei prazeirosa e gloriosa a crítica de Agustina à atitude miserável, ignorante, e incivilizada do povinho português. E essa era também a minha impressão. Há semanas atrás voltei a pegar no livro da Guimarães Editores, para o reler, e ali está ele na página 19, de canto dobrado: “Eram gente de prazer e de glória, que em tudo morre para em tudo permanecer”.

quinta-feira, maio 30, 2019

É tempo de desmantelar o Facebook


Para quem anda alienado ou distraído com a melhor ferramenta de alienação mental já inventada, vale a pena ler o texto de Chris Hugues, cofundador do facebook, publicado no New York Times e no Expresso/Revista do passado sábado. A história é comovente, mas para quem sabe da poda, mostra ali o perigo para a democracia que está na mão de um yuppie neocapitalista, que se está cagando para as partilhas e as interações do povo. Já tinha sido uma lástima, ver o Zuckerberg a suar em bica na televisão ou no senado americano, a justificar a sua bondade, mas o homem não engana com o ópio que substituiu a velha religião. Sim, o canal Odisseia passara em março deste ano dois episódios vergonhosos para a letra 'f', que muita gente continua a defender, como crianças a brincar com o fogo. E sabemos como o fogo alastra até aos nossos pés.
Este blogue abomina o facebook e está explicado porquê. Depois não digam que não vos avisei.

Liga Europa em silêncio na TV

Artur Jorge, um jogador de excelência da velha Académica e do Benfica (e naturalmente o primeiro treinador português a ganhar a liga dos campeões), costumava dizer que preferia ver futebol na tv com o som no silêncio. Acrescentava música clássica para acompanhar as jogadas no relvado, sem as perturbações dos comentadores encartados. Foi o que fiz ao visionar o jogo da final da liga Europa, entre o Chelsea e o Arsenal. Apaguei, assim, o desconhecimento do pivô da Sic e os comentários perturbantes, aborrecidos e irritantes do Marco Caneira, sofrível jogador e ainda pior analista. O homem, quando o deixei falar, ainda apostava no 'futebol apático do Chelsea', veja-se só. Depois não sei o que disse. Pouco importa, já que o Chelsea deu uma lição de como se joga à bola. Pena foi o olhar triste de Petr Cech no final do jogo.

terça-feira, abril 09, 2019

O que fazer pelo clima?

Recupero o  texto de Francisco José Viegas, que só li agora, sobre o tema em título (ler aqui). O que ele escreveu foi o mesmo que pensei, na altura quando dei pela ação de alguns jovens das escolas. Em minha casa poupa-se água e energia, separamos lixo orgânico e todos os restantes resíduos sólidos urbanos para o ecoponto, recolhemos lenha e pinhas para aquecimento, não temos ar condicionado, aproveitamos a água da chuva para limpezas e rega de plantas, usamos viaturas em segunda mão, vendemos ou oferecemos o que não nos faz falta, trocamos livros usados, andamos a pé e de bicicleta, enfim... E os meus filhos (jovens naturalmente) fazem parte desta filosofia prática. Por isso, FJV tem toda a razão! Velhos e reacionários, uma ova!

segunda-feira, abril 08, 2019

Conversando de José Cavaco Vieira



O Museu Municipal de Loulé (MML) publica regularmente um Boletim do seu Centro de Documentação, dando a conhecer o seu património documental. O último número traz uma segunda referência ao jornal local «Ecos da Serra» de Alte, desta vez sobre a sua rubrica mais famosa, a crónica do altense José Cavaco Vieira, intitulada ‘Conversando’ (ler aqui, nas páginas 6-9, texto de Sónia Silva, técnica do MML).
A qualidade dos textos do 'Conversando' motivou a sua publicação pela Câmara Municipal de Loulé, ainda em 1997 e em vida do autor e, mais tarde, em 2003, numa obra que tive o prazer de coordenar e de introduzir aquando das comemorações do seu 100º aniversário, após o seu fenecimento. A obra, intitulada «Conversando a Vida Toda», é hoje considerada rara, apesar de ainda estar à venda nos serviços da autarquia (ver aqui).

sexta-feira, abril 05, 2019

De como o capitalismo se serve do fascismo

http://periodicos.uff.br/trabalhonecessario
(Clicar na imagem para aceder à revista)

Numa altura em que o poder militar no Brasil desenvolve um retomar protofascista da ditadura militar (veja-se o recente vídeo da presidência Bolsonaro de elogio aos ditadores militares do golpe de 1964), desenrolam-se, ao mesmo tempo, os inevitáveis movimentos sociais de resistência democrática. As baterias do Carnaval carioca são disso um bom exemplo, com o destaque para a memória política do assassinato de Marielle Franco, feminista e defensora popular. Nas universidades, e na escola em geral, atacadas pelo programa Escola Sem Partido, mas que entrega à Bíblia os conteúdos científicos do ensino, são outros os meios de resistência. Muitas vezes, servindo apenas uma franja de académicos e intelectuais mas obrigando-se a cumprir o seu papel, as revistas académicas são um nicho de produção de conhecimento e de teoria social que serve toda essa resistência, dispersa e diversa. A «Trabalhonecessário», revista da Universidade Federal Fluminense na qual colaboro, preparou a sua edição nº 32 (jan-abr2019) sobre o tema das categorias fundacionais do materialismo histórico marxista, com artigos escritos e sujeitos a arbitragem científica, até novembro de 2018. Este foi também o período de campanha, eleição presidencial e tomada de posse do presidente do Brasil. Podemos dizer, são ínvios, os caminhos da história. Por isso vale a pena ler os artigos pensados com precisão a talhe de foice (e martelo?) de Emir Sader, de Gaudêncio Frigotto e Sónia Maria Ferreira, o editorial de Lia Tiriba et. al, e muitos outros, alguns deles meus professores e colegas. Uma justeza marxista na mouche…Eu tive o prazer de contribuir com a fatia internacional, através de um artigo sobre a ascensão do capitalismo industrial no Algarve. A minha tese é a de que o capitalismo se serviu do fascismo para a exploração operária, para que o fascismo se afirmasse como a ideologia do desenvolvimento industrial e capitalista. Dizem os organizadores ( Moura & Oliveira) que a minha

interpretação é que este movimento se estabeleceu num quadro de permanentes e crescentes expressões da luta de classes. Desta forma, o texto se constitui como um contributo para melhor visualização e análise de como se expressaram diversos movimentos de resistência, os quais, na prática, foram formas diversificadas de materialização da luta de classes
 Para ler o artigo clicar aqui!

terça-feira, março 12, 2019

Xenofobia em Loulé

Café Portas do Céu em Loulé. Conhecido na cidade pela presença assídua de reuniões, tertúlias políticas e culturais, foi também lá que se reuniu durante alguns anos a CUVI, Comissão de Utentes da Via do Infante, movimento informal de luta contras as portagens da A22, conhecida como Via Infante de Sagres. Há tempos o café modernizou-se e deixou o seu cunho rústico para se tornar num café aberto aos novos ricos. Há dias decidi dar uma vista de olhos e beber um café, mas dois batráquios xenófobos dentro de portas fizeram-me guardar as moedas. O Café Portas do Céu assume assim que é discriminador e racista na cidade de Loulé, reforçando o mito do medo dos ciganos daqueles sapos músicos. Se passasse por estas portas a cineasta Leonor Teles, ela dizia-vos o que era «A Balada de Um Batráquio».

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Peixoto e Galveias


PEIXOTO REFLETE SOBRE SI
Helder Faustino Raimundo | 01-02-2019
Todos os escritores escrevem sobre si próprios. José Luís Peixoto não desmente esta asserção. O Caminho Imperfeito é o seu caminho, o caminho que trilha há algum tempo, entre a sua vida e a sua ficção. Esta não ficção, é isso mesmo, uma narrativa de ficção sobre as personagens da sua vida pessoal, social e profissional. Banguecoque e Las Vegas são o disfarce da viagem interior que o autor desenvolve sobre si, o seu passado e o seu futuro, numa teia literária entre o lugar de Galveias e o não-lugar que é todo o mundo.

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

A teoria das classes sociais e Olin Wright

O João Martins deu conta da morte do sociólogo Erik Olin Wright. Nas leituras para a minha tese de doutoramento lá andei à volta dos textos deste autor, quase sempre sobre a teoria das classes sociais. Considerava ele que o marxismo deveria repensar-se a partir do descalabro dos regimes ditos comunistas, e essa reflexão deveria ser feita dentro de uma nova perspetiva de análise das classes sociais. Em 1983 escreveu mesmo um texto que intitulou de "O que é neo e o que é marxista na análise neo-marxista das classes?" para explicar o seu ponto de vista. Em 1997 publicou uma importante pesquisa empírica «Class counts: comparative studies in class analysis», pela Cambridge University Press. O sociólogo português João Ferreira de Almeida escreveu um texto (1981) onde ajuda a perceber a teoria das classes sociais, citando também Olin Wright, sobretudo o seu livro anterior «Class, crisis and the State» (1978).

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Por Timor! em Loulé, 1992





Há 26 anos deve ter sido a 1ª manifestação de apoio a Timor. Pensada por alguns ativistas, a iniciativa juntou artistas plásticos e músicos na Avenida José da Costa Mealha e no Cine-Teatro da cidade. No espólio do nosso amigo Venceslau Contreiras, infelizmente já falecido, o seu irmão Adão Contreiras encontrou e editou um documentário de 8 minutos sobre a iniciativa. Lá aparecem o Adão, o Vitor Picanço, o Afonso Rocha, o Afonso Matos, o Hermínio Pinto da Silva, o Daniel, não sei se o Sérgio Sousa - todos artistas plásticos. Também de passagem, e sempre a correr, eu, o Joaquim, o Albano, e muitos miúdos da Secundária de Loulé, mobilizados e ensaiados como sempre pelo José Teiga, outro dos ativistas. Também a Filomena e o Filhó, que apresentaram a sessão da noite.
Para perceber o contexto convém ler o conjunto de posts que escrevi há uns anos (clicar aqui).
No blog do Adão aqui!