domingo, novembro 18, 2018

Arrumar a casa


 (desenho de Adão Contreiras)
 
Dei uma volta à casa. Literalmente, faço-o com regularidade. A minha psique precisa de arrumo e organização, mas o movimento dos objetos é indispensável ao pensamento: livros, revistas, vestuário, alimentos, tudo, deve mudar de lugar ciclicamente, para que a cabeça mude.
Também nesta casa online procedi a mudanças. Ao invés de me repartir como pessoa, em cidadão, professor, escrevinhador, etc, juntei tudo num só lugar e deu nisto. 
Assim, coloquei à disposição as revistas onde publico:
-Minicontos: microcontos
-Trabalho necessário: artigos de investigação;
-Al-Uliã: artigos de divulgação.
Também em acesso aberto ficam os textos nos repositórios científicos:
-Sapientia, da Universidade do Algarve (também se encontram no RCAAP).
Modernizei a lista de blogues por onde mais circulo; e atualizei as minhas leituras online.
Enjoy!

sexta-feira, novembro 16, 2018

A Resistência de Julián Fuks



Venho de duas gerações consecutivas de exilados políticos. Avós que partiram da Roménia quando o antissemitismo ameaçava fulminar tudo o que tinham, como logo fulminou seus pais, irmãos, tios — desses avós herdei o sobrenome judeu, de seu destino ganhei meu nome argentino. Pais que partiram da Argentina quando o terror de Estado se fez sinistro, abatendo amigos, colegas, companheiros — deles herdei algum inconformismo, de seu destino ganhei a língua em que escrevo. Nunca na vida sequer cogitei que minha sina viesse a se parecer à deles, que forças obscuras pudessem me impelir a deixar o Brasil. Hoje, pela primeira vez em 36 anos, me pergunto se esse medo será tão disparatado assim.

Julián Fuks, brasileiro e filho de pais argentinos, escreve um texto no Expresso de sábado, 10 novembro, um texto que é um desabafo e ao mesmo tempo um manifesto pela defesa da cultura e da arte democráticas. Alma Grande chama ao título a expressão «Um futuro carregado de passado», abrindo o caminho para a resistência ao fascismo e a abertura de outros caminhos da democracia, esteja ela onde estiver.
Fuks ganhou o Prémio Saramago em 2017, com o romance exactamente intitulado «A Resistência», editado em 2016 pela Companhia das Letras.

Ler aqui (só leitores inscritos)

Greve dos estivadores do porto de Setúbal

O porto de Setúbal está  parado, devido à greve dos estivadores com contrato precário.
Esta afirmação de Bento Rodrigues, pivô da Sic Notícias, no jornal da tarde de hoje, é todo um programa ideológico. A frase poderia ser - atendendo a outro programa - "O porto de Setúbal está parado devido à escravatura do século XXI".

quinta-feira, novembro 15, 2018

Henrique Raposo e a Web Summitt

Henrique Raposo, cronista do Expresso, ali ao lado do contraditório de Daniel Oliveira, todos os sábados em papel, tem sido por mim desprezado na maior parte das leituras, desde sempre. Acontece que, por estes tempos, com as leituras do expresso diário, tenho vindo a aproximar-me das suas crónicas curtas, incisivas e sempre diversificadas. Esta característica permite-me ler umas e ignorar outras. Das que li recentemente, as que versaram a Web Summitt, tocaram na 'mouche', mostrando como o novo capitalismo se transmuta e usa como veículo fundamental as redes tecnológicas. Não só como produto, mas acima de tudo como aparelho ideológico do capital, parafraseando o velho conceito de Althusser. Enquanto quase toda a gente se baba com a cimeira do novo capital, que agora se instalou em Lisboa, por uns anos (e entre eles muitos socialistas e prosélitos), Raposo consegue uma análise sociológica acertada, mesmo que do ponto de vista conservador, direi eu. Talvez a nossa origem operária e do sul, nos torne ainda mais próximos...

segunda-feira, novembro 12, 2018

Culturas e similitudes

 
Há tempos desligado das temáticas culturais, que em tempo me envolveram diariamente, dou por mim de vez em quando a descobrir similitudes e sequências que recordam o que fui fazendo com amigos e companheiros de jornadas diversas. O projeto Documentar Loulé Interior é um desses exemplos. No quadro da Algarve Film Comission e financiado por diversos organismos, tem vindo a documentar memórias patrimoniais e orais do concelho. Entre essas, lá encontro o registo sonoro em vídeo das cantigas e das estórias dos Velhos da Torre, que gravei em 2003, no CD intitulado «Velhos da Torre e Amigos», 2º volume da coleção Tradição Musical de Loulé, editada pela Câmara Municipal. O filme, que pode ser visto aqui, também me recorda, nalgumas sequências e no seu guião, o documentário que realizamos, eu e o amigo Adão Contreiras (o trailer pode ser visto no seu blogue, aqui).

sexta-feira, novembro 09, 2018

Alte e o concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal (1938)

Os escritos científicos (artigos ou teses) não estão imunes a erros, omissões ou inverdades. As pesquisas duradouras e extenuantes obrigam, muitas vezes, a pequenas ou grandes imprecisões. Resultado de cansaço, imprudência, ingenuidade ou inexperiência, podem originar erros mais ou menos graves. O exemplo que aqui trago, não é sobre algo de extrema importância no contexto da investigação, até porque não é matéria central do texto. Expliquemo-nos! 
Há dias, procurando resultados no Google sobre eventuais plágios de textos meus ou de origem conhecida, lá encontrei um 'velho' mito, o da aldeia de Alte como a segunda eleita no Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, realizado em 1938, pelo Secretariado de Propaganda Nacional. No exemplo, foi um problema de fontes; quando a mesma não é fidedigna e, no caso, a da Junta de Freguesia de Alte, pelo seu caráter encomiástico, não é nada segura. Trata-se de uma tese de doutoramento (o que deveria obrigar a um maior controlo), sobre história local, da autoria de Maria Inês Cristiano Cerol, intitulada «O Espaço Público nas Aldeias e nos Centros Históricos do Barlavento Algarvio...», defendida em 2015, na Universidade de Lisboa. Na página 55, no contexto do concurso acima referido, afirma-se:
(...) Nesse concurso a aldeia algarvia Alte ficou em segundo lugar (JF-ALTE www), galardão que durante os primeiros tempo de propaganda turística foi exibido como atestado da genuinidade do seu interior (...)
Ora, são conhecidas antes da data da referida tese, algumas teses de mestrado e de doutoramento, realizadas em Alte, que abordam direta ou indiretamente esta questão e que, por isso, deveriam ter sido consultadas, apesar de se saberem de mais difícil acesso. Mas não é esse um dos desafios principais dos investigadores? Para não maçar muito, e usando textos que são fontes fidedignas, apenas queremos referir o já clássico texto de Joaquim Pais de Brito (1980, pp. 511-532), publicado nas Actas do Colóquio «O Fascismo em Portugal»; o capítulo 9. O Concurso 'A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal' (1938), da autoria de Pedro Félix* (2003, pp. 207-232), inserta na obra magna «Vozes do Povo. A Folclorização em Portugal», organizada por Castelo-Branco e Branco; e ainda o meu humilde livro «Grupo Folclórico da Casa do Povo de Alte. 75 anos de vida: ora agora mando eu!», publicado em 2013 e cuja capa se reproduz na imagem.

Já agora: a aldeia de Alte foi selecionada, de entre as concorrentes, para um primeiro grupo de seis aldeias e, numa segunda fase, foi eliminada para a fase final, em que foram colocadas: Paul, Carrezedo de Bucos e Monsanto. Como sabemos, a esta última foi entregue o 'Galo de Prata', símbolo da aldeia vencedora, não tendo sido atribuídos quaisquer outros lugares.


* Nota: o texto de Félix pode ser lido online aqui.

quinta-feira, novembro 08, 2018

Memórias educativas

Ontem, na SIC Notícias da manhã, uma cara conhecida a dar notas das análises da imprensa americana sobre os resultados intercalares para o Congresso. A Mónica Martins foi minha aluna de Educação Social e mais tarde rumou a Lisboa para fazer mestrado em Comunicação. Sabia da sua participação na equipa de produção do programa E se fosse consigo?, que abordava questões de bulliyng a vários níveis, o que representava uma boa interação entre educação e comunicação. Agora, ainda um pouco nervosa, lá estava frente às câmaras, a falar de republicanos e democratas. Parabéns Mónica!

quarta-feira, novembro 07, 2018

Democracia na América

Os democratas ganharam a maioria na Câmara dos Representantes do Congresso  (a House), mas ficaram com menos lugares no Senado. E depois?

segunda-feira, novembro 05, 2018

Mar ou montanha


 (Burgau, Algarve, 2018)

Percebe-se por que Lévi-Strauss já preferia a montanha ao mar nos anos 1950, quando escreveu Tristes Trópicos. Na altura, já as cidades e espaços territoriais marítimos se infestavam de urbanização e respetivo relambório:
Além disto os encantos que reconheço ao mar são-nos hoje recusados. Como um animal que envelhece e cuja carapaça se torna mais espessa, (...) a maior parte dos países europeus deixa as suas costas revestirem-se de vivendas, hotéis e casinos. Em vez de o litoral esboçar, como outrora, uma imagem antecipada das solidões oceânicas, tornam-se uma espécie de frente de batalha em que os homens mobilizam periodicamente todas as suas forças para atacar uma liberdade cujo preço eles desmentem pelas condições nas quais aceitam apoderar-se dela (p. 335).
E nós, os que nascemos ou vivemos no Algarve, o que temos a dizer?

Tutores ou polícias nas escolas?

O El País noticiava que o governo francês estuda a possibilidade de colocar polícias nas escolas, após vários incidentes com armas ameaçadoras. Ou mesmo criar estabelecimentos específicos especializados para 'jovens conflituosos'. Pais e estudantes mostram-se contra, claro, considerando que o problema está na educação e não na repressão. O problema não é novo e o artigo dá o exemplo de Espanha, mostrando que a figura do tutor, um agente educativo que nem sempre está na escola mas pode intervir de forma assertiva, tem demonstrado ser eficaz na prevenção da conflitualidade, mas também na prevenção educativa e social.
Há alguns anos atrás o nosso melhor pedagogo nestas matérias, Daniel Sampaio, já tinha proposto a figura do tutor, entre outras medidas, não consideradas nas políticas educativas neoliberais ou economicistas dos vários governos.

quinta-feira, novembro 01, 2018

Começar a resistir na Piauí



Os ataques de Bolsonaro à liberdade de expressão já começaram, com as ameaças à Globo e à Folha de S. Paulo. A melhor revista do Brasil, a PIAUÍ, também não vai escapar. Começando a resistir, ela ali fica, com destaque nas revistas.

A prosa de Rosa contra as balas


Li, por estes dias, entre muita prosa sobre a eleição do fascista Bolsonaro para presidente do Brasil, um extrato de Grande Sertão:Veredas, a obra prima de João Guimarães Rosa, um dos 100 livros mais importantes de sempre. O excerto era este:
-Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram da briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acêrto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí vieram me chamar.
O excerto é do início do romance. Fui ver ao meu livro e confirmei, como a ficção prevê a realidade; e por arrasto fui ao fim do livro, após as suas belas 594 páginas:
Nonada. O diabo não há! É o que eu digo se fôr... Existe é homem humano. Travessia.
O livro, um testemunho da invenção literária e do arrojo de criação linguística do sertão brasileiro, é um testemunho do poder da palavra e do ser humano. Uma prosa que liberta, uma Rosa que se une, contra o regresso da maldade.

terça-feira, outubro 30, 2018

Algarve, livre de petróleo?

 
O consórcio GALP/ENI desistiu da exploração do furo de petróleo no Algarve. Após várias ações de luta da Plataforma Algarve Livre de Petróleo, do descontentamento de autarcas e populações e da providência cautelar aceite no Tribunal Administrativo de Loulé, cessa mais um dos negócios de exploração de hidrocarbonetos no país. Acontece que a utilização de combustíveis fósseis continua a disparar, seja  pela industrialização crescente dos países emergentes, seja pelo uso descontrolado da mobilidade automóvel. Como dizia uma colega minha num pequeno debate performativo: «Estamos muito contentes e somos contra a exploração de petróleo no Algarve, mas ele continua a ser explorado e a servir-nos, vindo dos países explorados do terceiro-mundo». Meditemos pois, em tempos de recordar o que foi o internacionalismo das causas, e o que tem sido a prática nacionalista das mesmas.
Nota: Este tema merece ser acompanhado aqui.

segunda-feira, outubro 29, 2018

Um PCP da esquerda ambiental


Domingo, fim de tarde na ria Formosa, no extremo sul da ponte rodoviária e pedonal da entrada na Praia de Faro. Uma faixa do PCP, identificada com o P de Português a cinzento, exigindo...(clicar na imagem para ler melhor). Um PCP patriótico e de esquerda, quer dizer o quê? Amigo do tráfego e da poluição de monóxido de carbono? Não só, amigo também dos passeios pedestres ao lado de bicicletas e automóveis. Pois claro! Assim se faz a revolução nacional.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Condenados a aprender

Na mesa redonda sobre o papel da educação não formal na capacitação dos jovens, defendi a necessidade de encararmos a aprendizagem ao longo da vida como um processo de aprender permanente, no contexto da velha visão da UNESCO, pese embora o complexo social neoliberal desta modernidade. A minha proposta, foi a de encarar a educação não formal como uma modalidade educativa num complexo elástico entre o muito formal e o muito informal, recuperando, assim, o gueto em que se colocou a educação escolar (formal) e resgatando ao mesmo tempo a educação informal, criando, para o efeito, espaços e momentos educativos nas ruas, nas escolas, no trabalho, entre outros.
É preciso, como alguém disse (Almerindo Afonso), repensar a escola a partir do não formal e não o contrário.

quarta-feira, outubro 17, 2018

Capacitar os jovens?!

A convite da MOJU (Movimento Juvenil em Olhão) fui ontem participar no 'Seminário de boas práticas na intervenção com jovens', na Mesa Redonda sobre a importância da educação não formal na capacitação dos jovens. Lá encontrei antigas alunas e alunos, hoje colocados nos serviços públicos e privados da área da educação, a desempenhar e a desenvolver a sua aprendizagem pessoal e profissional.
A iniciativa insere-se na 9ª Semana da Juventude que decorre em Olhão de 15 a 19 de outubro. Para + informações clicar na palavra assinalada na primeira linha.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Paulo Freire e Bolsonaro


O Brasil é um barril de pólvora. País enorme nas desigualdades sociais e na permanente luta de classes, de géneros e de gostos, está em permanente ebulição. Hoje, dominado pela tríade dos 3B (Boi, Bala e Bíblia), percorre um tempo de angústias com o horizonte da ditadura militar, tempos de fome, miséria e exílio que o regime dos militares impôs de 1964 a 1985. Conhecemos bem este mundo, ou não tivéssemos vivido a ditadura de Salazar e Caetano durante 48 anos. Por agora, e até ao segundo turno das eleições presidenciais, escutemos as palavras avisadas do pedagogo brasileiro Paulo Freire, na sua obra de 1996 (uma das últimas), Pedagogia da Autonomia, que estou lendo: «Não posso proibir que os oprimidos com quem trabalho numa favela votem em candidatos reacionários, mas tenho o dever de adverti-los do erro que cometem, da contradição em que se emaranham. Votar no político reacionário é ajudar a preservação do 'status quo'. Como posso votar, se sou progressista e coerente com minha opção, num candidato em cujo discurso, faiscante de desamor, anuncia seus projetos racistas?».
Belas palavras que deveriam ser escutadas pelos milhões de brasileiros que vão escolher entre o coiso e Haddad.

Atualização: O blog Ladrões de Bicicletas posta um excelente e informado texto de Brian Winter, no Americas Quartely, sobre o que esperar de Bolsonaro, aqui traduzido.

terça-feira, outubro 09, 2018

As praxes e o poder da academia


Sobre as praxes, e a violência sobre os direitos humanos que ela encarna, já muito se disse, como no último Expresso, nas palavras de Sérgio Sousa Pinto. Também as análises sociológicas mostram o carácter de discriminação, opressão e domínio de poder sobre o outro, por exemplo os ensaios do Centro de Estudos Sociais da universidade de Coimbra.
Sobre este aspecto escreverei mais tarde, mas por agora interessa dizer que a universidade é conivente com esta prática abjecta. A sua tolerância continua a existir porque, mesmo propondo-se alternativas pedagógicas, diretores e docentes apaparicam comissões de praxe não eleitas e estimulam essas práticas, comprando os votos dos estudantes nas eleições para órgãos de gestão.
Voltarei a este aspeto!

(Na foto: estudantes de educação social em atividade de intervenção comunitária na aldeia de Gorjoes na freguesia de Santa Bárbara de Nexe).

sábado, outubro 06, 2018

Praia da Amália



Pouca gente sabe onde fica e também não sou eu que vou dizer. Mas como por estes dias a câmara de Odemira homenageia a fadista que comprou terreno e construiu casa no Brejāo, ali perto da Zambujeira do Mar, será mais fácil encontrar o caminho. Curioso é saber que a cantora de Camões e O'Neill tentou comprar no Algarve e não logrou, afastando-se para norte, entre silvados e ribeiras, escondendo a casa e a pequena baía que lhe serviu de praia durante muito tempo. Poucos sabiam como lá chegar e mesmo em pleno agosto éramos dois ou três, na areia fina e na água fresca, mesmo ali perto da azenha em declínio.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Cristiano Ronaldo fora da selecção

Era o que se esperaria. A federação de futebol não pode ignorar as acusações de assédio e violação sexual ao jogador, que correm nos tribunais americanos.
Nem o jogador se pode esconder por trás do véu mediático de que dispõe nos média e redes virtuais, tal como afirma Henrique Raposo no Expresso diário.
Nunca fui apaniguado da figura, quer seja pela forma de jogar, quer seja pela relação com a sociedade. No caso, parece que o dinheiro paga tudo: museus, hotéis, o disfarce da solidariedade etc. Também os impostos devidos em Espanha foram desmentidos, mas acabaram por ser pagos.
Agora, vamos ver se a acusação são fake news. Alguém acredita?