sexta-feira, outubro 18, 2019

Catalunha: olhar o problema

(Portada do El País)
Quem analisa o tsunami democrático na Catalunha como se fora uma revolta juvenil, está a ver apenas as filas da frente dos milhares de manifestantes em marcha para Barcelona. Quem julga que este movimento de massas nunca visto, é apenas uma rebelião contra a condenação dos líderes catalões democraticamente eleitos, pretende apenas pôr nas mãos do poder judicial espanhol, aquele que é um problema político de fundo. Uma questão de nacionalidade, numa Espanha multinacional que nunca se enfrentou, como um abanico de identidades dispersas que deve dar a palavra ao povo sobre a sua auto-determinação. Como dizia um sexagenário catalão, há pouco na SIC, se o poder judicial e político toma decisões nos gabinetes contra o povo, o povo toma as ruas. Como fez em toda a sua história.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Populismo: conceitos vários

O sociólogo e ativista Walden Bello esteve em Portugal para uma conferência no ISEG e aí esclareceu o seu ponto de vista atual sobre a globalização. Numa pequena entrevista ao Público, mostrou como a extrema direita se apropriou de bandeiras da esquerda em todo o mundo, conquistando eleitoralmente apoios populares e mobilização nas ruas. Particularmente, sobre o conceito de populismo - agora que a designação é usada para cobrir mecanismos e fenómenos muito diversos - esclarece que muitos destes fenómenos, a sul ou a norte, não são na verdade movimentos populistas. Por isso vale a pena citar um excerto da sua entrevista:
O populismo é um estilo de comunicação com as massas e tanto políticos de direita como de esquerda usam-no. Vejo isto mais como um movimento contra-revolucionário. Ao longo das décadas, em alguns casos, foi uma contra-revolução contra a emergência da classe baixa. Noutros casos, o que se passa é o fracasso da democracia liberal na satisfação das aspirações daqueles que inicialmente sentiram que a democracia liberal iria ser um caminho para um empoderamento e igualdade reais. Este movimento contra-revolucionário em oposição à democracia liberal  põe em causa as próprias fundações da democracia , como por exemplo o secularismo, a diversidade, o estado de direito. Os movimentos de extrema-direita, não são só racistas, como colocam em causa as fundações da democracia liberal. (jornal Público, 7 outubro 2019, pp. 30-31)

sábado, outubro 12, 2019

Trabalho em revista



Ocupado com outras investigações e eventuais artigos - entretanto a próxima revista do Arquivo Municipal de Loulé, Al-Uliã, trará dois artigos meus, um deles em co-autoria com antigas alunas minhas - não tenho podido publicar na revista brasileira Trabalho necessário. Mas o facto não me iliba de chamar a atenção para a excelência dos artigos dos dois  mais recentes números, cujas capas estão acima. Para ler é só clicar sobre o nome da revista que está sublinhado.

domingo, outubro 06, 2019

O equívoco das causas da abstenção nas legislativas de 2019


A ideia de que a disseminação de partidos candidatos às eleições são expressão de participação democrática e que determinam a ida às urnas, sempre foi errada e esconde a verdadeira participação por detrás do chapéu de chuva da representação. Grande parte dos 21 partidos candidatos, ao invés de serem mobilizadores, afastam claramente os eleitores. Uns por serem recauchutagem de velhos responsáveis; outros por parecerem a palhaçada visível da ignorância e da vulgaridade; outros surgindo como partidos unipessoais ou monotemáticos. Aliás, o debate radiofónico, expandido às imagens televisivas, foi um belo  exemplo de stand up comedy, melhor do que o 'Levanta-te e Ri'.
Por isso, que não se estranhe a abstenção a subir aos 50%, nestas legislativas de 2019.

quarta-feira, outubro 02, 2019

Organismos gelatinosos

(fotos de Deanna Raimundo)

Na minha infância e adolescência brincávamos com estas alforrecas, na Praia da Rocha. Hoje, elas são organismos gelatinosos importantes para a ciência e para o conhecimento das alterações climáticas, que observamos nas costas marítimas, sobretudo nas marés baixas. Este ano fizemos vários avistamentos, de diversos indivíduos, sobretudo de Rhizostoma luteum, quase sempre na Praia da Falésia, no concelho de Albufeira. As imagens e outras informações são enviadas para o projeto 'Gel à Vista', coordenado pelo IPMA e que pode ser visitado aqui (clicar sobre a palavra sublinhada).
Conselho: Não convém tocar!

terça-feira, outubro 01, 2019

A velha agenda cultural de Loulé

(clicar na imagem para ver melhor)

Na arrumação - crónica - de velhos papéis e revistas que enxameiam arquivos mortos e prateleiras na garagem e restantes espaços da minha casa, lá encontrei alguns velhos recortes que fazem as memórias e as histórias do presente. Neste caso, trata-se de um texto de José Batista (conhecido no mundo da banda desenhada como Jobat), amigo e companheiro de várias lides, já falecido. O Batista faz, no texto, o historial daquela que foi a primeira Agenda Cultural do município de Loulé, na altura designada como «Roteiro Cultural e Desportivo de Loulé» e publicada em Novembro de 1991. Nunca lhe agradeci o encómio que nos faz, a mim, ao Luís Guerreiro (RIP) e ao Joaquim Mealha Costa, dez anos depois daquela data.

terça-feira, setembro 24, 2019

Recicla-me, porra

Duas tampas de garrafa de coca-cola. Em cima, uma tampa de garrafa comprada em Portugal; em baixo uma tampa de garrafa comprada em Espanha. Todo um programa ecológico dos fabricantes e distribuidores da bebida conhecida como a bebida do imperialismo americano. Mesmo assim, Portugal mantém uma quota de reciclagem superior à do país vizinho.

sábado, setembro 21, 2019

Gajas e frangos

Um grupo de adultos maiores, conversando sobre política sexual na esplanada da avenida José da Costa Mealha em Loulé, à volta do pasquim «Correio da Manhã», aberto nas páginas voyeuristas:
Vocês perdem tempo aí a olhar para as pernas das gajas; eu não perco tempo com isso. Isso é papel. Eu prefiro uma boa perna de frango!

segunda-feira, setembro 09, 2019

Fernando Silva Grade


(Blog FaroArtistas)
Dei pela notícia do falecimento do Fernando Grade numa leitura do 'barlavento' a propósito dos organismos gelatinosos, do programa Gelavista, em que participo. O Fernando Grade - era assim que o conhecíamos, já que vem a adotar o nome Silva mais tarde por razões artísticas,  - era hoje mais conhecido como crítico urbanista e ativista ambiental. A sua formação de biólogo e a sua veia filosófica macrobiótica levam-no a aderir às causas ambientais, muito antes da moda e da sua filiação na associação Almargem.
Conhecemo-nos, entre outros praticantes e defensores das tradições musicais do Algarve, no projeto musical Levante, que mais tarde dá origem ao ainda célebre Grupo Dar de Vaia. O Fernando era o homem das congas e da viola, que assumia com empenho, nos ensaios e nos treinos de casa que compartilhei algumas vezes. Entre 1983 e 1984, fez parte da equipa do Museu Regional do Algarve, comigo e com a Luísa Rogado, que investigou Aljezur e preparou a exposição sobre o património do referido concelho. Durante esse período passamos muito tempos juntos, na aldeia da Zambujeira e na casa de família na Praia de Faro, visionando centenas de diapositivos para que o Fernando desenhasse, a tinta-da-china, os elementos etnográficos. Muito na linha do etnógrafo Fernando Galhano, o Fernando ganhou alento para iniciar a sua pintura de temática geológica, vivendo alguns tempos isolado em retiro junto da aldeia da Raposeira, como motivo de inspiração e de recolhimento. Aí visitei-o algumas vezes, entre as minhas odisseias em busca do património cultural algarvio, e nos últimos tempos tenho pena que nos tenhamos avistado tão poucas vezes.
Até sempre Fernando!

sexta-feira, junho 21, 2019

A bebedeira do mar


A obra acima - que deveria ser lida por toda a gente - é uma enciclopédia simples de saber que estou a ler de novo. Os livros de Bryson são isso mesmo: tentações de saber.
No capítulo XVI (O Planeta Solitário), o autor descreve as investigações malucas dos Haldane, pai e filho, sobre a intoxicação por azoto, que se transforma «numa droga potentíssima a profundidades superiores a 30 metros». Estava na praia quando li estas páginas (359-371) e por associação de ideias veio-me à memória as histórias contadas pelos pescadores submarinos da Carrapateira, em Aljezur, no verão de 1982. Estávamos junto da praia nos primeiros esboços abarracados de alojamento turístico de um amigo, ouvindo os pescadores que tinham ido pescar sargos e liças para o nosso jantar. E acabado o vinho, o acompanhamento disponível de medronho obrigava a uma magia de audição de histórias e a desenhos inextrincáveis. E aí eles contaram como a profundidades altas, na costa vicentina, entre as arribas de xisto e basalto, perdiam os sentidos na apneia de pesca, e ouviam chamados cânticos de sereias e uma coloração vegetal de algas em arco-íris, obrigando-os a deixar armas e equipamento para o fundo do mar. Só depois, a consciência os trazia, em suspensão, para a superfície. Era o azoto no cérebro, pois claro!

terça-feira, junho 04, 2019

Agustina




Confesso que «A Sibila» nunca sibilou aos meus ouvidos, talvez porque no meu tempo «Os Maias» davam cartas no liceu, romance que também não li. Na altura, era o marxismo que me ocupava as leituras, de ensaios e romances.
Em 1988, numa fase de busca de individualidade libertária-filosófica comprei «Prazer e Glória», acabado de sair, um romance sobre uma família burguesa – como era o universo de Agustina – mas com o bastardo artista João Pinheiro (talvez lembrando o traído Pinheiro Alves, marido da amante de Camilo, esse sim autor boémio de que li muito) a contrariar o universo.
Pedro Mexia dizia, ontem a propósito da literatura de Agustina, que ela era sobretudo criticada por motivos ideológicos, como autora burguesa e elitista, mas que a devíamos olhar pelo lado puramente literário. Lembro-me que na altura achei prazeirosa e gloriosa a crítica de Agustina à atitude miserável, ignorante, e incivilizada do povinho português. E essa era também a minha impressão. Há semanas atrás voltei a pegar no livro da Guimarães Editores, para o reler, e ali está ele na página 19, de canto dobrado: “Eram gente de prazer e de glória, que em tudo morre para em tudo permanecer”.

quinta-feira, maio 30, 2019

É tempo de desmantelar o Facebook


Para quem anda alienado ou distraído com a melhor ferramenta de alienação mental já inventada, vale a pena ler o texto de Chris Hugues, cofundador do facebook, publicado no New York Times e no Expresso/Revista do passado sábado. A história é comovente, mas para quem sabe da poda, mostra ali o perigo para a democracia que está na mão de um yuppie neocapitalista, que se está cagando para as partilhas e as interações do povo. Já tinha sido uma lástima, ver o Zuckerberg a suar em bica na televisão ou no senado americano, a justificar a sua bondade, mas o homem não engana com o ópio que substituiu a velha religião. Sim, o canal Odisseia passara em março deste ano dois episódios vergonhosos para a letra 'f', que muita gente continua a defender, como crianças a brincar com o fogo. E sabemos como o fogo alastra até aos nossos pés.
Este blogue abomina o facebook e está explicado porquê. Depois não digam que não vos avisei.

Liga Europa em silêncio na TV

Artur Jorge, um jogador de excelência da velha Académica e do Benfica (e naturalmente o primeiro treinador português a ganhar a liga dos campeões), costumava dizer que preferia ver futebol na tv com o som no silêncio. Acrescentava música clássica para acompanhar as jogadas no relvado, sem as perturbações dos comentadores encartados. Foi o que fiz ao visionar o jogo da final da liga Europa, entre o Chelsea e o Arsenal. Apaguei, assim, o desconhecimento do pivô da Sic e os comentários perturbantes, aborrecidos e irritantes do Marco Caneira, sofrível jogador e ainda pior analista. O homem, quando o deixei falar, ainda apostava no 'futebol apático do Chelsea', veja-se só. Depois não sei o que disse. Pouco importa, já que o Chelsea deu uma lição de como se joga à bola. Pena foi o olhar triste de Petr Cech no final do jogo.

terça-feira, abril 09, 2019

O que fazer pelo clima?

Recupero o  texto de Francisco José Viegas, que só li agora, sobre o tema em título (ler aqui). O que ele escreveu foi o mesmo que pensei, na altura quando dei pela ação de alguns jovens das escolas. Em minha casa poupa-se água e energia, separamos lixo orgânico e todos os restantes resíduos sólidos urbanos para o ecoponto, recolhemos lenha e pinhas para aquecimento, não temos ar condicionado, aproveitamos a água da chuva para limpezas e rega de plantas, usamos viaturas em segunda mão, vendemos ou oferecemos o que não nos faz falta, trocamos livros usados, andamos a pé e de bicicleta, enfim... E os meus filhos (jovens naturalmente) fazem parte desta filosofia prática. Por isso, FJV tem toda a razão! Velhos e reacionários, uma ova!

segunda-feira, abril 08, 2019

Conversando de José Cavaco Vieira



O Museu Municipal de Loulé (MML) publica regularmente um Boletim do seu Centro de Documentação, dando a conhecer o seu património documental. O último número traz uma segunda referência ao jornal local «Ecos da Serra» de Alte, desta vez sobre a sua rubrica mais famosa, a crónica do altense José Cavaco Vieira, intitulada ‘Conversando’ (ler aqui, nas páginas 6-9, texto de Sónia Silva, técnica do MML).
A qualidade dos textos do 'Conversando' motivou a sua publicação pela Câmara Municipal de Loulé, ainda em 1997 e em vida do autor e, mais tarde, em 2003, numa obra que tive o prazer de coordenar e de introduzir aquando das comemorações do seu 100º aniversário, após o seu fenecimento. A obra, intitulada «Conversando a Vida Toda», é hoje considerada rara, apesar de ainda estar à venda nos serviços da autarquia (ver aqui).

sexta-feira, abril 05, 2019

De como o capitalismo se serve do fascismo

http://periodicos.uff.br/trabalhonecessario
(Clicar na imagem para aceder à revista)

Numa altura em que o poder militar no Brasil desenvolve um retomar protofascista da ditadura militar (veja-se o recente vídeo da presidência Bolsonaro de elogio aos ditadores militares do golpe de 1964), desenrolam-se, ao mesmo tempo, os inevitáveis movimentos sociais de resistência democrática. As baterias do Carnaval carioca são disso um bom exemplo, com o destaque para a memória política do assassinato de Marielle Franco, feminista e defensora popular. Nas universidades, e na escola em geral, atacadas pelo programa Escola Sem Partido, mas que entrega à Bíblia os conteúdos científicos do ensino, são outros os meios de resistência. Muitas vezes, servindo apenas uma franja de académicos e intelectuais mas obrigando-se a cumprir o seu papel, as revistas académicas são um nicho de produção de conhecimento e de teoria social que serve toda essa resistência, dispersa e diversa. A «Trabalhonecessário», revista da Universidade Federal Fluminense na qual colaboro, preparou a sua edição nº 32 (jan-abr2019) sobre o tema das categorias fundacionais do materialismo histórico marxista, com artigos escritos e sujeitos a arbitragem científica, até novembro de 2018. Este foi também o período de campanha, eleição presidencial e tomada de posse do presidente do Brasil. Podemos dizer, são ínvios, os caminhos da história. Por isso vale a pena ler os artigos pensados com precisão a talhe de foice (e martelo?) de Emir Sader, de Gaudêncio Frigotto e Sónia Maria Ferreira, o editorial de Lia Tiriba et. al, e muitos outros, alguns deles meus professores e colegas. Uma justeza marxista na mouche…Eu tive o prazer de contribuir com a fatia internacional, através de um artigo sobre a ascensão do capitalismo industrial no Algarve. A minha tese é a de que o capitalismo se serviu do fascismo para a exploração operária, para que o fascismo se afirmasse como a ideologia do desenvolvimento industrial e capitalista. Dizem os organizadores ( Moura & Oliveira) que a minha

interpretação é que este movimento se estabeleceu num quadro de permanentes e crescentes expressões da luta de classes. Desta forma, o texto se constitui como um contributo para melhor visualização e análise de como se expressaram diversos movimentos de resistência, os quais, na prática, foram formas diversificadas de materialização da luta de classes
 Para ler o artigo clicar aqui!

terça-feira, março 12, 2019

Xenofobia em Loulé

Café Portas do Céu em Loulé. Conhecido na cidade pela presença assídua de reuniões, tertúlias políticas e culturais, foi também lá que se reuniu durante alguns anos a CUVI, Comissão de Utentes da Via do Infante, movimento informal de luta contras as portagens da A22, conhecida como Via Infante de Sagres. Há tempos o café modernizou-se e deixou o seu cunho rústico para se tornar num café aberto aos novos ricos. Há dias decidi dar uma vista de olhos e beber um café, mas dois batráquios xenófobos dentro de portas fizeram-me guardar as moedas. O Café Portas do Céu assume assim que é discriminador e racista na cidade de Loulé, reforçando o mito do medo dos ciganos daqueles sapos músicos. Se passasse por estas portas a cineasta Leonor Teles, ela dizia-vos o que era «A Balada de Um Batráquio».