domingo, outubro 17, 2010

Operário protesta nu na 125

A luta dos operários contra a fome, ao longo da história, já deu muitos exemplos de criatividade e de desespero. Na 6ª passada um operário imigrante ucraniano protestou nu, contra os 6 meses de salário que a empresa VDV Protrata (responsável pela construção do Hotel Conrad Algarve Palácio da Quinta, na Quinta do Lago) lhes deve, bem como a mais operários que também protestaram em Almancil, junto da sede da empresa (ler notícia).
Já se percebeu que a situação de crise económica e financeira que o país vive é sobretudo uma crise estrutural do capitalismo, que tem vivido da exploração de mão de obra dos trabalhadores no mundo inteiro. Por outro lado, sabemos que as respostas às situações de desemprego, fome e exploração, se começam em pequenos laivos de protesto, localizado e individualizado, rapidamente engrossam para explosões sociais incontroláveis. A tendência presente pode ser espontânea e desorganizada, mas depressa surgirão organizações e movimentos que aglutinam e organizam a revolta latente em muita gente explorada. Todos os trabalhadores conhecem (ou conhecerão) esta história.
Adenda de 21/10/2010:
Ler o excelente contributo do João Martins para a melhor compreensão do meu post acima. Aliás, aconselho vivamente uma atenção redobrada ao que o autor tem vindo a escrever, que considero do melhor que se escreve na blogosfera em termos de análise sobre fenómenos contemporâneos.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Um filme indispensável

Já se falou aqui dos Velhos da Torre, sobre a sua vida e sobre a sua música. Deste casal da aldeia da Torre/Alte, são conhecidas as suas participações na cultura popular rural, sobretudo por via dos seus muitos espetáculos, pelo disco de que são os principais protagonistas («Velhos da Torre e Amigos»), editado pela Câmara de Loulé e coordenado por mim, e por terem influenciado o 1º disco das Moçoilas. Entretanto, eu e o meu amigo Adão Contreiras, metemos mãos (e pés) a um projecto de urgência, de modo a registar em suporte vídeo a sua música tradicional, enquadrada no seu contexto social e económico. De Janeiro a Agosto deste ano, convivemos entre canções, hortas e culturas, com vista a produzir o filme de que agora damos a público os primeiros 'frames'. Na Sociedade dos Gorjões, perto de Santa Bárbara de Nexe, iremos fazer a 1ª apresentação pública do filme "Tudo Vai dar em Cantigas", a que se seguirão outras passagens em circuitos alternativos, a anunciar em breve. Para já, pode contentar-se com o trailer do filme aqui.

sexta-feira, junho 18, 2010

Morreu Saramago

Saramago morreu há pouco, numa ilha do Atlântico onde vivia, longe do lugar rural onde nasceu. Essa mania da identidade nunca o preocupou e só isso tornou possível escrever romances universais que perdurarão sempre. Dele, li muito, e fui cada vez mais me aproximando das suas ideias, tal como ele das minhas. No fundo, só uma coisa nos preocupa: fazer desta terra um lugar para todos vivermos em paz e igualdade, sem sermos mais iguais uns do que outros. Até logo!

quinta-feira, junho 17, 2010

Intendência

Amigos têm-me perguntado por que não tem havido mais vida por aqui. A resposta é que há mais vida para além do PEC, claro. Uma resposta mais adequada será a de que os estudos de doutoramento, que estou a realizar, não me deixam muito tempo para pensar sobre outras coisas. E se há cortes a fazer, quem paga são os luxos supérfluos, ao contrário de Sócrates que vai cortando na gente. Como o vício da blogosfera, continua activo, tenho também andado por aqui.
Dos muitos projectos em que estou envolvido dar-vos-ei conta neste espaço, incluindo notas avulsas sobre pequenas narrativas do trabalho de investigação de doutoramento, que efectuo em Portimão.

segunda-feira, abril 12, 2010

Artistas plásticos homenageiam as tílias da Praça

Duas semanas após a acção dos cidadãos de Loulé em defesa das árvores urbanas do concelho, outro conjunto de cidadãos - entre os quais estavam alguns artistas plásticos do concelho - organizaram uma homenagem às árvores abatidas na Praça da República. Os munícipes e visitantes, que no passado sábado passeavam frente à Câmara Municipal ou faziam compras no mercado, ouviram as explicações dos organizadores da iniciativa simbólica em defesa das 16 tílias abatidas. Sobre os cepos das árvores elementos iconográficos como fotos, poemas ou flores, criavam uma ambiente afectivo de respeito pela natureza e pela vegetação arbórea, tão importante para os ambientes urbanos excessivamente poluídos e impermeabilizados e fornecedora de abrigo da avifanua e de sombreamento do espaço público. Alguns cidadãos leram poemas alusivos às árvores (foto de cima) e outros acabaram por se nos juntar, na educação ambiental e cívica tão necessária (foto de baixo).

O livro de condolências da iniciativa assinalou um conjunto de contributos que iremos divulgar, no seguimento da mensagem da pequena Sofia que aqui já se publicou.

sábado, abril 10, 2010

Poema das árvores


Poema das Árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.

Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fosse.

As árvores, não.

Solitárias, as árvores

exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós

E entretanto dar flores.

António Gedeão