sexta-feira, julho 24, 2015

Edital

Alterações na lista de blogues aqui ao lado direito. Novas ou antigas leituras!

segunda-feira, abril 13, 2015

Fotomaton & Vox



De dentro para fora, veem-se as tílias com a lagoa ao fundo. Talvez seja de tarde, pois o sol reflete sobre a copa das árvores e deixa brilhar a sombra no contorno da luz. Há uma mesa e quatro cadeiras, ou talvez três, pois o meu assento é um banco que se leva ao ombro. Sobre a mesa não deve estar já Fotomaton & Vox, a obra antiga e atual de Herberto Helder, que levei naqueles dias de sol, capa dura e sombria, lembrando terra castanha com sulcos de raiva. Provavelmente o livro está comigo, junto da câmara que fotografou o momento de abril.
[em atualização]

quarta-feira, abril 01, 2015

Metoposaurus algarvensis


 

Sim, a boca dela parece uma sanita, capaz de engolir tudo, em disputa com crocodilos e outros anfíbios. A sua ossada foi descoberta aqui próximo, no concelho de Loulé (local desconhecido), num antigo lago de há alguns milhões de anos. A salamandra gigante (para os tamanhos que hoje conhecemos) vai permitir colocar o Algarve na rota da ciência paleontológica a nível mundial. Daí a designação de metoposaurus algarvensis, para a bela salamandra. Ver aqui a referência científica. E ler a notícia que dá o Observador.

sábado, março 28, 2015

Tolerância religiosa

Já há algum tempo que gostaria de ter escrito aqui o exemplo de ecumenismo, ou poderia dizer de tolerância religiosa, dado pela Câmara de Loulé ao anunciar, na sua Agenda mensal, as liturgias de confissões religiosas que não as católicas. Cumpre-se assim o dever de aceitar e divulgar, ao mesmo nível, as orientações de pendor religioso dos municípes, tal como regula a Constituição, que define o estado laico e a aceitação da diversidade religiosa. Pena que outras instâncias, a começar pela escola pública, não o façam, mantendo a disciplina de Educação Moral e Religiosa, apenas entregue à confissão católica.

quarta-feira, março 25, 2015

Herberto Helder

BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Helder, excerto de Cinco Canções Lunares

terça-feira, março 24, 2015

Julgamento de Rafael Marques



Rafael Marques é um jornalista angolano conhecido como ativista de direitos humanos. A sua obra Diamantes de Sangue serviu para denunciar os atropelos e crimes praticados nas regiões diamantíferas do norte de Angola, no qual acusa a nomenklatura do poder angolano de participação nas afrontas cometidas. Por causa disso começa hoje a ser julgado em tribunal de Angola, correndo o risco inculcado em quem afronta os poderosos. A editora Tinta da China, chancela onde editou a sua obra disponibiliza o download gratuito como forma de apoio a este jornalista, abandonado também pelo estado português. Ler aqui. Pode assinar a petição da Aministia Internacional aqui.

segunda-feira, março 23, 2015

Alisuper: a mentira da economia

Já lá vão três anos. A CUVI, Comissão de Utentes da Via do Infante, preparava a receção ao ministro da economia. Álvaro Pereira, vinha inaugurar a loja do Alisuper ali no paraíso da elite em Vale do Lobo/Loulé. Depois das falências do grupo e do desemprego o ministro anunciava o arranque do grupo, com dinheiros privados do empresário Nogueira. Nessa tarde a nossa tática foi outra. Ao invés de desfraldar os cartazes e as palavras de ordem, e aguentar os empurrões da polícia e dos seguranças, armamo-nos em democratas para desmascarar uma falsidade da política económica do governo de direita, que mantinha as portagens na Via do Infante. 
Bem dito, bem feito!. Passaram uns anos e no sábado, o Expresso-economia lá trazia as queixas do empresário Nogueira, dono do grupo Alisuper, sem créditos para manter as lojas (a de Olhão fechou há semanas) e a queixar-se que o governo não o apoiou. Surpresa?

sábado, março 21, 2015

A ministra do regime

Ter os cofres cheios e afirmá-lo lembra o velho botas Salazar, que se engrandecia de soberba com as barras de ouro no Banco de Portugal, enquanto o povo passava fome, vivia na miséria e se iluminava de iliteracia. A ministra das finanças herdou a sobranceria ideológica e o desejo do garrote explorador do velho regime fascista. E se dúvidas houvessem bastava escutar as suas paternalistas e bíblicas palavras destinadas aos jovens conservadores da JSD: "vocês são jovens, multiplicai-vos!". É certo que a exploração capitalista precisa de braços para trabalhar. Antes nas fábricas e nos campos, agora nos call center ou na emigração. Solução? Pôr esta gente daqui pra fora.

quinta-feira, março 19, 2015

Zé Francisco, músico do mar do Algarve

O Zé já não me surpreende. Ao ouvir a Rua Fm, no caso o programa Socializar Por Aí (do curso de Educação Social), dei com o 1º álbum do Zé Francisco, velho amigo das lides musicais (Borda d'Água, Entre Aspas, Mare Nostrum, and so on), na sua velha veia de cantautor. O Zé escreve com a alma de pescador da borda dágua, cheio da maresia de Santa Luzia. Para além disso é um grande músico, que herdou as sabedorias dos lídimos instrumentistas do eixo entre Cabanas de Tavira e Fuzeta. O Zeca sabia-o bem.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Esquerda radical na Europa

Dá-me alguma satisfação verificar a adjetivação, pouco habitual, de "esquerda radical", para designar um governo da União Europeia. Pois é, a Grécia é governada por um governo de coligação (como é habitual nos países mais desenvolvidos da Europa - como alíás aqueles que a construíram como a conhecemos) que inclui um partido de direita nacionalista. Mas a marca fundamental, o padrão mediático, são dados pelo dito esquerdismo radical, que hoje assinala o caminho a seguir em Portugal, e na Europa, claro (ler aqui).

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Funcionários de escolas em greve em Loulé

Contra a política de austeridade e roubo do trabalho, os funcionários não docentes das escolas fizeram hoje greve. A Escola Duarte Pacheco em Loulé (2º e 3º ciclos do EBásico) fechou hoje portas, deixando na rua a comunidade escolar. Há muito tempo que isso não acontecia naquela escola e é muito bom sinal. Para se perceber que a escola não tem funcionários que cheguem para tantos alunos (o rácio deve ser 1 por 200 alunos?), quer seja para apoio às salas de aulas, docentes e  corredores, quer seja para recreio, controlo e educação controlada por pares. Para além da falta de funcionários, convém saber que o vencimento médio dos funcionários é de cerca de 500 euros. Por isso há que exigir do governo (e das câmaras, já agora) medidas importantes e decisivas neste assunto.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Mais um ano de blog

Mais um ano deste blog, que começou com o nome de Contrasenso, título de uma crónica que mantinha na altura no jornal A Voz de Loulé (há quanto tempo!), no servidor do Sapo.  Meses depois e após muitos posts mudei para o servidor do Blogger, onde ainda aqui está, por ora com o meu nome. Portanto, feitas as contas, são 11 anos desde o dia 19 de fevereiro de 2004, e assim entro no 12º ano da blogosfera.

domingo, fevereiro 15, 2015

O Rendez-Vous do Rock

A RTP2 (o melhor canal de televisão em Portugal) passou ontem um documentário sobre o célebre Rock Rendez Vous (RRV), o mítico espaço lisboeta da música moderna portuguesa. Nos finais dos anos 80 andei por estes caminhos, com os Entre Aspas, que também participaram num dos concursos posteriores que a Câmara de Lisboa organizou após o ocaso do RRV. O documentário mostra, sem os alardes e vícios da nova filmografia documental, como aquele sítio foi o estímulo decisivo para o que se ouve hoje na música em Portugal. Aplausos.


4 notas que subscrevo sobre o Tempo de Avançar

Rui Bebiano escreve algumas notas sobre a candidatura cidadã Tempo De Avançar (TdA), a partir do seu olhar na convenção fundadora a 31 de janeiro passado. Poderei estar de acordo e subscrever as suas ideias, simples, mas decisivas para que as esquerdas (sim, no plural) possam, finalmente, ter e desenvolver uma ideia e uma prática de convergência nas eleições e no poder de governação.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Homenagem a José Cavaco Vieira

A Federação do Folclore Português homenageou, no passado dia 8 de fevereiro, alguns dos mais lídimos representantes do folclore algarvio. O Grupo Folclórico de Alte, na pessoa do seu diretor Joaquim Figueiredo, solicitou-me um trabalho de homenagem a José Cavaco Vieira, fundador e diretor do GFA, falecido em 2002. O resultado foi um vídeo com imagens e texto em voz-off que pode ser lido abaixo:

Nasceu na aldeia de Alte, no concelho de Loulé, no ano de 1903.
No palco da sua juventude, representou as peças do Grupo Dramático Altense e nos concertos e serenatas ilustrou-se no violino e na guitarra portuguesa, no Grupo Musical Altense.
Quando rumou a Lisboa, decidiu tirar o curso de guarda-livros e aprendeu as línguas da correspondência internacional, o francês e o inglês, os saberes que permitiram o seu excecional trabalho profissional de mais de 30 anos, na Caixa de Crédito Agrícola de Alte.
De regresso à sua aldeia natal foi eleito para secretário da Junta de Freguesia e mais tarde para seu presidente, durante vários mandatos.
Quando em 1938, António Ferro e o Secretariado de Propaganda Nacional lançaram o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, ele viu muito mais longe, do que um simples programa de recuperação dos valores etnográficos nacionais.
A sua capacidade organizativa levou a aldeia de Alte até à fase final do concurso, destacando a cultura tradicional como trampolim para a defesa da identidade cultural local e como uma forma educativa de participação social e empenhamento coletivo do povo da sua terra.
Nos anos 30 e 40 do século vinte, lançou as bases de uma etnografia popular,  baseada em princípios científicos sérios de recolha e de divulgação e dotou o Grupo Folclórico de Alte de uma visão educativa que facilitou a transmissão da aprendizagem da memória local.
Entre os anos quarenta e noventa do século passado escreveu mais de uma centena de crónicas, primeiro no Boletim Paroquial de Alte e depois no seu célebre Conversando, no jornal Ecos da Serra.
Nos seus momentos mais íntimos colocou em telas improvisadas, a pintura que lhe complementava a alma: a natureza agreste, mas benfazeja, as noites de reflexão à luz da lua, as casas brancas e o seu povo, que muito respeitava.
Da sua visão artística e ecológica nasceram também algumas obras, que amava muito pessoalmente: a escultura de pedra camoniana da Fonte Grande, e o Cristo de madeira que expõe em sua casa.
Até nas coisas mais simples da vida, ele foi sabedor. Respeitava a natureza, as árvores do seu quintal e as coloridas plantas da sua aldeia.
Todos os dias passeava junto à ribeira para ver se ela se mantinha livre e vívica como ele gostaria.
Cozia a sua fruta e tocava sempre o seu violino antes de dormir, lembrando a sua esposa.
Alguém lhe chamou o patriarca de Alte. Ele foi patriarca e matriarca, símbolo vivo e emblema, como lhe chamaram diversos amigos e concidadãos.
Ele foi alma e coração de Alte. Todos o ouviam com prazer e escutavam as suas palavras sabedoras e profundas sobre a vida.
Recordamo-lo à porta soalheira da sua casa das Valinhas, sentado a comer, deliciado, um cacho de uvas das suas parreiras.
Tinha acabado de tocar, no seu violino, “Tens a parreirinha à porta”, cansado do trabalho de gravação de um disco sobre a tradição musical de Loulé.
Era fim de tarde de setembro quando percorria, pausadamente, as sombras inclinadas das figueiras e alfarrobeiras, olhando o horizonte prenhe de luz e calor.
Acariciou as palhas secas, as uvas brancas e os figos carnudos da figueira onde se deixou fotografar, ao fim do dia, com o seu colete de linho alvo e o seu negro chapeirão.
Depois, disse, com a sua sabedoria: “Vamos para casa!”.
Morreu num dia de fevereiro de 2002, quando contava 98 anos de idade.
No centenário do seu nascimento, em 2003, uma comissão alargada de instituições e personalidades homenageou devidamente a pessoa que hoje aqui também lembramos com amizade: José Cavaco Vieira.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Mais um de literatura camiliana



Pelo vistos não sou só eu que ando a ler ou a reler Camilo. Coração, Cabeça e Estômago (atenção que é apenas o título da obra) esteve na minha mesa de cabeceira mais de 5 anos, acho. Não se preocupem que fui limpando o pó. A edição tem alguns anos, é da Europa-América e como é sabido não tem data. Como gosto da sátira de Camilo (e desculpem os queirosianos, mas de Eça, só as obras menos conhecidas, vulgo, As Cartas de Inglaterra), o livro foi ficando parado, ali a modos que à espera do radicalismo de Silvestre da Silva. Aconteceu agora com a leitura do último soneto em honra de D. Catarina Balsemão e Bocage. E como diz o editor: “Bem se vê que o soneto era o da morte. Um grande merecimento tem ele: é ser o último”.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

A Costa dos Murmúrios

Este livro, o 4º de Lídia Jorge, andou anos na minha mesa de cabeceira, entre muitos outros que fui lendo. Na verdade a história nunca me agarrou muito. Tratar uma guerra colonial, na viragem dos anos 60, mas escrita nos anos 80, ainda com tanta opacidade e simbolismos, enfraqueceu a história que volteia ciclicamente entre o tempo dos gafanhotos e a costa dos murmúrios. Mesmo depois de ter visto o filme homónimo da Margarida Cardoso, os ânimos não aqueceram muito. Uma obra muito longe dos dois primeiros romances, O célebre O Dia dos Prodígios e O Cais das Merendas.
Entretanto, a autora já escreveu muito mais obras que aguardam leituras.

terça-feira, janeiro 06, 2015

Tempo de Avançar no Algarve


A candidatura cidadã avança no Algarve. No próximo sábado, dia 10, encontramo-nos todos e todas 
na Sociedade Os Artistas, em Faro.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Gorjear em APC

Há cerca de 8 anos (tempo de entusiasmos juvenis pelos blogues em Portugal, ainda antes da diarreia dos face...), ajudava alguns amigos a criar os seus suportes de escrita nessa plataforma. Um deles, entre outros claro, recordou-me esse facto em comentário abaixo. Para ele, que tem sabido manter as memórias etnográficas, em paralelo com a opinião crítica atual, vai uma grande saudação e o link do seu APCGorjeios (aqui).

terça-feira, dezembro 30, 2014

Todos temos a nossa Lolita, diria Nabokov

(...) A minha Lolita tinha uma maneira muito sua de levantar o joelho esquerdo dobrado, no amplo e elástico início do ciclo do servir, criando, e deixando pairar ao sol durante um segundo, uma teia vital de equilíbrio entre as pontas dos pés, a prístina axila, o braço bronzeado e a raqueta lançada muito para trás, um segundo em que sorria, de dentes cintilantes, ao globo suspenso tão alto, no zénite do potente e gracioso cosmos que ela criara com o objetivo expresso de lhe cair em cima com o estalido vibrante do seu chicote dourado. (...)
Nunca se escreveu melhor sobre o ato de servir a bola de ténis. É desta beleza de imagens simbólicas que se faz a grande literatura. E é por isso que eu decidi, por estes dias, só ler os clássicos (para além de coisas menores, entre os lençóis à espera do sono). O Adeus às Armas, do Hemingway, depois de esperar algum tempo na cabeceira, foi-se. Por ora termino Lolita, do Nabokov, um provocador inteligente, do qual se percebe ser o autor da citação acima.