quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Mais um ano de blog

Mais um ano deste blog, que começou com o nome de Contrasenso, título de uma crónica que mantinha na altura no jornal A Voz de Loulé (há quanto tempo!), no servidor do Sapo.  Meses depois e após muitos posts mudei para o servidor do Blogger, onde ainda aqui está, por ora com o meu nome. Portanto, feitas as contas, são 11 anos desde o dia 19 de fevereiro de 2004, e assim entro no 12º ano da blogosfera.

domingo, fevereiro 15, 2015

O Rendez-Vous do Rock

A RTP2 (o melhor canal de televisão em Portugal) passou ontem um documentário sobre o célebre Rock Rendez Vous (RRV), o mítico espaço lisboeta da música moderna portuguesa. Nos finais dos anos 80 andei por estes caminhos, com os Entre Aspas, que também participaram num dos concursos posteriores que a Câmara de Lisboa organizou após o ocaso do RRV. O documentário mostra, sem os alardes e vícios da nova filmografia documental, como aquele sítio foi o estímulo decisivo para o que se ouve hoje na música em Portugal. Aplausos.


4 notas que subscrevo sobre o Tempo de Avançar

Rui Bebiano escreve algumas notas sobre a candidatura cidadã Tempo De Avançar (TdA), a partir do seu olhar na convenção fundadora a 31 de janeiro passado. Poderei estar de acordo e subscrever as suas ideias, simples, mas decisivas para que as esquerdas (sim, no plural) possam, finalmente, ter e desenvolver uma ideia e uma prática de convergência nas eleições e no poder de governação.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Homenagem a José Cavaco Vieira

A Federação do Folclore Português homenageou, no passado dia 8 de fevereiro, alguns dos mais lídimos representantes do folclore algarvio. O Grupo Folclórico de Alte, na pessoa do seu diretor Joaquim Figueiredo, solicitou-me um trabalho de homenagem a José Cavaco Vieira, fundador e diretor do GFA, falecido em 2002. O resultado foi um vídeo com imagens e texto em voz-off que pode ser lido abaixo:

Nasceu na aldeia de Alte, no concelho de Loulé, no ano de 1903.
No palco da sua juventude, representou as peças do Grupo Dramático Altense e nos concertos e serenatas ilustrou-se no violino e na guitarra portuguesa, no Grupo Musical Altense.
Quando rumou a Lisboa, decidiu tirar o curso de guarda-livros e aprendeu as línguas da correspondência internacional, o francês e o inglês, os saberes que permitiram o seu excecional trabalho profissional de mais de 30 anos, na Caixa de Crédito Agrícola de Alte.
De regresso à sua aldeia natal foi eleito para secretário da Junta de Freguesia e mais tarde para seu presidente, durante vários mandatos.
Quando em 1938, António Ferro e o Secretariado de Propaganda Nacional lançaram o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, ele viu muito mais longe, do que um simples programa de recuperação dos valores etnográficos nacionais.
A sua capacidade organizativa levou a aldeia de Alte até à fase final do concurso, destacando a cultura tradicional como trampolim para a defesa da identidade cultural local e como uma forma educativa de participação social e empenhamento coletivo do povo da sua terra.
Nos anos 30 e 40 do século vinte, lançou as bases de uma etnografia popular,  baseada em princípios científicos sérios de recolha e de divulgação e dotou o Grupo Folclórico de Alte de uma visão educativa que facilitou a transmissão da aprendizagem da memória local.
Entre os anos quarenta e noventa do século passado escreveu mais de uma centena de crónicas, primeiro no Boletim Paroquial de Alte e depois no seu célebre Conversando, no jornal Ecos da Serra.
Nos seus momentos mais íntimos colocou em telas improvisadas, a pintura que lhe complementava a alma: a natureza agreste, mas benfazeja, as noites de reflexão à luz da lua, as casas brancas e o seu povo, que muito respeitava.
Da sua visão artística e ecológica nasceram também algumas obras, que amava muito pessoalmente: a escultura de pedra camoniana da Fonte Grande, e o Cristo de madeira que expõe em sua casa.
Até nas coisas mais simples da vida, ele foi sabedor. Respeitava a natureza, as árvores do seu quintal e as coloridas plantas da sua aldeia.
Todos os dias passeava junto à ribeira para ver se ela se mantinha livre e vívica como ele gostaria.
Cozia a sua fruta e tocava sempre o seu violino antes de dormir, lembrando a sua esposa.
Alguém lhe chamou o patriarca de Alte. Ele foi patriarca e matriarca, símbolo vivo e emblema, como lhe chamaram diversos amigos e concidadãos.
Ele foi alma e coração de Alte. Todos o ouviam com prazer e escutavam as suas palavras sabedoras e profundas sobre a vida.
Recordamo-lo à porta soalheira da sua casa das Valinhas, sentado a comer, deliciado, um cacho de uvas das suas parreiras.
Tinha acabado de tocar, no seu violino, “Tens a parreirinha à porta”, cansado do trabalho de gravação de um disco sobre a tradição musical de Loulé.
Era fim de tarde de setembro quando percorria, pausadamente, as sombras inclinadas das figueiras e alfarrobeiras, olhando o horizonte prenhe de luz e calor.
Acariciou as palhas secas, as uvas brancas e os figos carnudos da figueira onde se deixou fotografar, ao fim do dia, com o seu colete de linho alvo e o seu negro chapeirão.
Depois, disse, com a sua sabedoria: “Vamos para casa!”.
Morreu num dia de fevereiro de 2002, quando contava 98 anos de idade.
No centenário do seu nascimento, em 2003, uma comissão alargada de instituições e personalidades homenageou devidamente a pessoa que hoje aqui também lembramos com amizade: José Cavaco Vieira.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Mais um de literatura camiliana



Pelo vistos não sou só eu que ando a ler ou a reler Camilo. Coração, Cabeça e Estômago (atenção que é apenas o título da obra) esteve na minha mesa de cabeceira mais de 5 anos, acho. Não se preocupem que fui limpando o pó. A edição tem alguns anos, é da Europa-América e como é sabido não tem data. Como gosto da sátira de Camilo (e desculpem os queirosianos, mas de Eça, só as obras menos conhecidas, vulgo, As Cartas de Inglaterra), o livro foi ficando parado, ali a modos que à espera do radicalismo de Silvestre da Silva. Aconteceu agora com a leitura do último soneto em honra de D. Catarina Balsemão e Bocage. E como diz o editor: “Bem se vê que o soneto era o da morte. Um grande merecimento tem ele: é ser o último”.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

A Costa dos Murmúrios

Este livro, o 4º de Lídia Jorge, andou anos na minha mesa de cabeceira, entre muitos outros que fui lendo. Na verdade a história nunca me agarrou muito. Tratar uma guerra colonial, na viragem dos anos 60, mas escrita nos anos 80, ainda com tanta opacidade e simbolismos, enfraqueceu a história que volteia ciclicamente entre o tempo dos gafanhotos e a costa dos murmúrios. Mesmo depois de ter visto o filme homónimo da Margarida Cardoso, os ânimos não aqueceram muito. Uma obra muito longe dos dois primeiros romances, O célebre O Dia dos Prodígios e O Cais das Merendas.
Entretanto, a autora já escreveu muito mais obras que aguardam leituras.

terça-feira, janeiro 06, 2015

Tempo de Avançar no Algarve


A candidatura cidadã avança no Algarve. No próximo sábado, dia 10, encontramo-nos todos e todas 
na Sociedade Os Artistas, em Faro.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Gorjear em APC

Há cerca de 8 anos (tempo de entusiasmos juvenis pelos blogues em Portugal, ainda antes da diarreia dos face...), ajudava alguns amigos a criar os seus suportes de escrita nessa plataforma. Um deles, entre outros claro, recordou-me esse facto em comentário abaixo. Para ele, que tem sabido manter as memórias etnográficas, em paralelo com a opinião crítica atual, vai uma grande saudação e o link do seu APCGorjeios (aqui).

terça-feira, dezembro 30, 2014

Todos temos a nossa Lolita, diria Nabokov

(...) A minha Lolita tinha uma maneira muito sua de levantar o joelho esquerdo dobrado, no amplo e elástico início do ciclo do servir, criando, e deixando pairar ao sol durante um segundo, uma teia vital de equilíbrio entre as pontas dos pés, a prístina axila, o braço bronzeado e a raqueta lançada muito para trás, um segundo em que sorria, de dentes cintilantes, ao globo suspenso tão alto, no zénite do potente e gracioso cosmos que ela criara com o objetivo expresso de lhe cair em cima com o estalido vibrante do seu chicote dourado. (...)
Nunca se escreveu melhor sobre o ato de servir a bola de ténis. É desta beleza de imagens simbólicas que se faz a grande literatura. E é por isso que eu decidi, por estes dias, só ler os clássicos (para além de coisas menores, entre os lençóis à espera do sono). O Adeus às Armas, do Hemingway, depois de esperar algum tempo na cabeceira, foi-se. Por ora termino Lolita, do Nabokov, um provocador inteligente, do qual se percebe ser o autor da citação acima.

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Demolições na Ria Formosa. E depois?

[Foto de Rui Ochôa no Expresso]

Sim, começaram as demolições de casas nas ilhas e ilhotes da Ria Formosa. Há mais de 20 anos que os sucessivos governos apregoam as demolições de construções em regiões dunares nas ilhas barreira da costa central do Algarve. E por onde começaram as demolições? Pelos ilhotes do Ramalhete (que teve a presença dos sapatos e gravata do ministro da tutela) e pelo ilhote da Cobra, pequenos resíduos de areia nos esteiros da Ria. Agora é só esperar que as máquinas cheguem às ilhas do Farol e de Faro, onde estão as casas de muitos responsáveis políticos, ex-autarcas, ex-governadores, ex-presidentes. Então vamos ver!

domingo, dezembro 28, 2014

Entrevista no Socializar por Aí

Socializar Por Aí é nome de blogue. Criei-o para trabalhar com os meus alunos, antes dos tempos das tutorias eletrónicas na Universidade do Algarve. Mais tarde passou a ser também nome do programa do curso de Educação Social da UAlg na RUA fm. Enquanto o Socializar (blogue) ficou inevitavelmente inativo mas sempre a receber visitas, leitores e pedidos de citação, o Socializar (rádio) continua a emitir, todas as segundas das 19 às 20 horas em 102.7. O último programa (22 de dezembro) tem uma entrevista comigo, conduzida pela aluna do 3º ano Isabel Pacheco. Lá fala-se de mim (o que interessa isso?), mas sobretudo do ensino como eu o vejo, ligado à construção quotidiana da realidade, das práticas dos estudantes, de Lobo Antunes e de Paulo Freire e de docentes militantes como Bourdieu e Touraine. Também se escuta a música dos Dar de Vaia e o meu conto de natal "Um chalé na Praia da Rocha", publicado na revista Letrário. Podem ouvir em podcast na página da RUA: programas; Socializar por aí-22 dezembro. Até já.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Convergência das esquerdas é inevitável

Vale a pena ler a crónica de Vitor Malheiros, no jornal Público de terça feira passada. Para além de ser, e parecer, a vontade da grande maioria dos portugueses, de terminar com a austeridade e reconstruir um país socialmente aceitável, o artigo abre caminho a uma perceção cada vez mais clara: a necessidade da convergência das esquerdas. E digo-a no plural para se perceber qual é a minha posição.

Tenho a certeza de que uma maioria significativa dos portugueses deseja que, das próximas eleições legislativas, saia um novo governo que ponha em prática uma política que recuse o modelo austeritário, que defenda os interesses de Portugal na União Europeia e não os interesses dos nossos credores, que seja capaz de encontrar aliados na UE para combater as políticas europeias que põem em causa a democracia, a independência e o desenvolvimento nacional (a começar pelo Tratado Orçamental e pela TTIP-Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), que combata de forma vigorosa as desigualdades e a pobreza, que promova uma educação e uma saúde de acesso universal, que defenda a ciência e a cultura, que combata os poderes ilegítimos e a corrupção, que promova o emprego e a dignidade do trabalho, que garanta um desenvolvimento social e ambientalmente sustentável, que permita enfim a todos os cidadãos uma vida decente numa sociedade democrática.

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Alface


A última revista LER - que assinei recentemente - traz um desenvolvido ensaio de Nuno Costa Santos sobre o escritor João Alfacinha da Silva, mais conhecido por Alface. Só um humorista sério com a verve linguística e o 'nonsense' de Costa Santos para escrever, e bem, sobre o autor que morreu há sete anos em Lisboa, em plena apresentação de um seu livro, Cá Vai Lisboa. De Alface já tinha lido a pequena novela do Nino e do Sr. Branco, personagens de Um Pai Porreiro Ganha Muito Dinheiro. Lembro que na altura que o li, em 1999, o achei tão estranho quanto gostoso. Ontem e hoje, a partir do estímulo de Costa Santos, voltei a lê-lo com o prazer de descobertas graciosas, como diria o autor.

quarta-feira, novembro 26, 2014

Em Portugal será que PODEMOS?



Espanha é hoje, o palco onde se constrói uma outra forma de pensar e agir sobre a realidade.
Pablo Iglésias veio a Portugal participar numa iniciativa do BE, que antecedeu a sua convenção. 
Nas grandes finalidades e valores: defesa da justiça social, da dignidade das pessoas, do combate aos especuladores e corruptos o PODEMOS e o BE têm toda a afinidade, mas no resto, em quase tudo diferem.
O Bloco, o PCP e mesmo alguns dirigentes do PS continuam a usar uma ferramenta (o marxismo, só ou agregado de outros ismos, leninismo, maoismo, trotskismo...) que não devendo ser desprezada, deveria já hoje conviver com outras abordagens, capazes de construir as respostas necessárias para enfrentar o liberalismo selvagem, sem regras nem valores com que hoje estamos confrontados.
Lendo e/ou ouvindo a entrevista de Iglésias é percetível que estamos perante uma nova abordagem que deixa de estar focalizada na luta de classes para fundamentar a sua ação nos valores cujo centro são as pessoas: o direito a viver em dignidade, a crescer tendo as mesmas oportunidades de desenvolver competências e vocações, a construir e usufruir uma sociedade em que prime a justiça social...
Devemos entender esta abordagem, em que inclusive se questiona a arrumação dos agentes políticos em esquerda e direita como  um retrocesso? Ou antes um avanço, que apesar do regresso  num quadro político, económico e cultural diferente, às referências da revolução francesa é o que mais se adequa ao quadro cultural e desenvolvimento das sociedades, em particular na Europa, não sendo certo que assim seja em todos os países?
Eu estou convencido que em Espanha se está a ensaiar uma resposta e que com eles e outros povos poderemos juntar forças para enfrentar a "besta".

[Joaquim M. Costa]