sexta-feira, junho 18, 2010

Morreu Saramago

Saramago morreu há pouco, numa ilha do Atlântico onde vivia, longe do lugar rural onde nasceu. Essa mania da identidade nunca o preocupou e só isso tornou possível escrever romances universais que perdurarão sempre. Dele, li muito, e fui cada vez mais me aproximando das suas ideias, tal como ele das minhas. No fundo, só uma coisa nos preocupa: fazer desta terra um lugar para todos vivermos em paz e igualdade, sem sermos mais iguais uns do que outros. Até logo!

quinta-feira, junho 17, 2010

Intendência

Amigos têm-me perguntado por que não tem havido mais vida por aqui. A resposta é que há mais vida para além do PEC, claro. Uma resposta mais adequada será a de que os estudos de doutoramento, que estou a realizar, não me deixam muito tempo para pensar sobre outras coisas. E se há cortes a fazer, quem paga são os luxos supérfluos, ao contrário de Sócrates que vai cortando na gente. Como o vício da blogosfera, continua activo, tenho também andado por aqui.
Dos muitos projectos em que estou envolvido dar-vos-ei conta neste espaço, incluindo notas avulsas sobre pequenas narrativas do trabalho de investigação de doutoramento, que efectuo em Portimão.

segunda-feira, abril 12, 2010

Artistas plásticos homenageiam as tílias da Praça

Duas semanas após a acção dos cidadãos de Loulé em defesa das árvores urbanas do concelho, outro conjunto de cidadãos - entre os quais estavam alguns artistas plásticos do concelho - organizaram uma homenagem às árvores abatidas na Praça da República. Os munícipes e visitantes, que no passado sábado passeavam frente à Câmara Municipal ou faziam compras no mercado, ouviram as explicações dos organizadores da iniciativa simbólica em defesa das 16 tílias abatidas. Sobre os cepos das árvores elementos iconográficos como fotos, poemas ou flores, criavam uma ambiente afectivo de respeito pela natureza e pela vegetação arbórea, tão importante para os ambientes urbanos excessivamente poluídos e impermeabilizados e fornecedora de abrigo da avifanua e de sombreamento do espaço público. Alguns cidadãos leram poemas alusivos às árvores (foto de cima) e outros acabaram por se nos juntar, na educação ambiental e cívica tão necessária (foto de baixo).

O livro de condolências da iniciativa assinalou um conjunto de contributos que iremos divulgar, no seguimento da mensagem da pequena Sofia que aqui já se publicou.

sábado, abril 10, 2010

Poema das árvores


Poema das Árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.

Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fosse.

As árvores, não.

Solitárias, as árvores

exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós

E entretanto dar flores.

António Gedeão

quarta-feira, março 31, 2010

Alfarrobeira de sombra

No sábado, dia 27 de Março, estive com outros amigos, meus e das árvores da cidade e do planeta, ocupando com o corpo o que roubaram às tílias da Praça da República, em Loulé. Éramos pequenas sombras negras sobre tocos ainda a seivar, como um prolongamento de vida do solo até um céu possível. Não se distinguiam outras sombras de copas, nem se ouviam chilreios de aves. Só algum burburinho de automóveis desfilando por nós, praça acima. Depois descemos das árvores, como crianças que terminaram uma brincadeira de primavera, para entregar palavras feitas frases e frases tornadas manifesto, a quem governa o município e a quem preside ao país.
No domingo, dia 28 de Março, pude acolher-me do sol, com os meus filhos, sob a copa frondosa da alfarrobeira dos tanques de salga do Ludo, provavelmente uma das descendentes daquelas que deram sombra aos pescadores que encheram muitas ânforas de "garum".
As 16 tílias da Praça da República em Loulé, não darão mais sombra a ninguém.

quinta-feira, março 25, 2010

Abate de 16 tílias na cidade de Loulé

Neste momento esta é a minha grande preocupação. Compartilho das preocupações do António Almeida, do João Martins, do Miguel Rodrigues e do Pedro Santos (Árvores de Portugal), da Almargem, do Bloco de Esquerda de Loulé.

segunda-feira, março 08, 2010

Semana da Leitura em Loulé


No âmbito da Semana da Leitura, que decorreu na Escola Horta de Stº António (1º ciclo do Ensino Básico) em Loulé - durante a passada semana - tive a oportunidade de estar presente a convite da professora do meu filho mais novo (Nélia Silva) para fazer algumas leituras de histórias para a infância, em conjunto com outros pais e mães.
Na altura, para além de ler e dramatizar algumas das histórias infantis mais adequadas ao contexto social e temporal do momento, li um conto que fui escrevendo a partir de sucessivas narrações aos meus dois filhos, durante várias noites de histórias necessariamente inventadas. Na verdade, a história é de nós três e se a quiser ler é só clicar em cima da imagem dos dois gatos, desenhada por eles mesmos.

sábado, fevereiro 27, 2010

Mais um ano por aqui: o sétimo

Cada ano que passa, menos nos vamos lembrando dos aniversários. Isto é como a nossa idade. Só comemoramos os aniversários até ao fim dos teen. Esta conversa, a propósito de hoje me ter lembrado que já passaram 6 anos desde que, numa noite fria de Fevereiro, iniciei as minhas andanças neste campo ainda desconhecido da blogosfera. Em Portugal não fui um dos da 1ª fase, mas no Algarve e em Loulé, em particular, abri o caminho. Por ora, depois do boom dos anos 2006-2008, a blogosfera estancou, depurou-se e especializou-se, até ser reconhecida como um media fundamental na democracia portuguesa. Em frente, então.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Madeira: um colapso do desenvolvimentismo saloio

Sobre a tragédia que se abateu sobre o povo da Madeira nunca alinharia com as falsas virgens, que sempre dão as mãos para se armarem em solidárias perante o desastre. Se não houvesse quem, contra a corrente, de vez em quando viesse denunciar as calhandrices de quem nos governa, nunca teria havido revoluções e hoje viveríamos ainda no esclavagismo. A propósito daqueles que dizem que, por agora, devemos apenas limpar as lamas e reconstruir e nunca ,mas nunca, criticar os problemas de governação estrutural da ilha, o melhor que temos a fazer é denunciar essa hipocrisia e colocarmo-nos do lado daqueles que no day after vieram denunciar as culpas, como fez Helder Spínola, dirigente da Quercus. O que está em causa, pois, é o modelo desenvolvimentista absurdo e atentatório da natureza que permanece na gestão de Alberto João há décadas, e que tem inexoravelmente impermeabilizado a ilha. Só pode acontecer isto, e não ficaremos por aqui. Deixo-vos um vídeo do programa 'Biosfera' da RTP, que vejo habitualmente, e que há cerca de dois anos já tinha denunciado esta possível calamidade.



quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Poema lá fora

Entrúdios

Os cogumelos já se foram,

Diz o senhor Fausto, olhando o renque de pinheiros húmidos.

Dois burros tristes olhando a praça do povo,

Água da natureza derramando folhas na rua 1º de Maio.

Viviane na rua da Saudade, na noite fria da Ursa Menor.

Carnaval confrangedor, de turistas encafuados,

Longe do Entrudo chocalheiro.

São Miguel, Baiona, Odeceixe…

Tempos modernos e românticos,

Lado a lado,

Disputando o futuro.

*

Alentejo, 16 Fevereiro 2010

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

IKEA: Um case study do capitalismo global

Os interesses da empresa sueca IKEA em instalar um empreendimento comercial no concelho de Loulé estão a desenvolver-se claramente como um ‘case study’. Não tanto pela sua propaganda de capital liberal e moderno mas, sobretudo, pelos interesses monopolistas que faz girar à sua volta e pelo séquito capitalista que mobiliza.

Do que se sabe, do plano do gigante do capital sueco, é que pretende instalar um conjunto de centros comerciais em Espanha e Portugal (com o qual não vou perder aqui muito tempo), entre as quais um deles projectado para o concelho de Loulé. Este, segundo os dados e números da empresa, seria uma loja Ikea e um centro comercial InterIkea.

O investimento atingiria entre 200 a 300 milhões de euros e criaria cerca de 3000 postos de trabalho. Não havendo mais nada de concreto – pelo menos na opinião pública – nada se sabe da verdade destes números, designadamente que tipo de emprego criaria.

Ler o meu artigo completo no jornal «barlavento»

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Os ilícitos jornalistas

Foram meus alunos de Ciências da Comunicação. Não param quietos um segundo. Devoram livros e jornais, escrevem por todo o lado, fazem rádio, curtas, publicam livros. Há tempos andaram pelos blogues e marcaram presença, no Sapo, pela qualidade. Hoje são quase todos jornalistas da imprensa regional. Agora meteram-se numa nova aventura que só podia ter este nome: "Ilícito". Leiam-nos. É só clicar na imagem acima.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Bensaid


Daniel Bensaid, um pensador francês inquieto, faleceu hoje. Li dele vários pequenos ensaios, agudos e profundos, sobre o capitalismo que nos tem governado. Só o podemos honrar com o nosso trabalho e luta, contra todas as injustiças.
Ler artigo inédito (em português) de Bensaid "Marx e as crises" (link)

sábado, dezembro 05, 2009

Dimissioni



[Meu contributo para No Berlusconi Day]

quarta-feira, novembro 25, 2009

Conto infantil

O gato azul e o gato cor de laranja

Era uma vez dois gatos. Um era azul e o outro era cor de laranja. Naquele dia encontraram-se e ficaram muito espantados, por se descobrirem de cores diferentes. Pensavam que todos os gatos eram pretos, ou brancos, ou cinzentos, ou castanhos, mas nunca da cor de cada um deles. Ou mesmo de cor diferente.
Quando se encontraram ficaram amigos, por serem diferentes de todos os outros gatos. E assim combinaram ir para sítios onde pudessem mostrar a todos a sua cor. O gato azul subiu para cima de um telhado muito alto, tão alto que a sua cor se projectava contra o azul do céu, lá ao longe. O gato cor de laranja foi deitar-se sobre uma frondosa laranjeira, carregada de laranjas.
As pessoas que passavam nas ruas e olhavam para o céu azul, bem no alto, não viam gato nenhum. Às vezes confundiam o gato azul com uma estrela gorda, velha e sem brilho, ou mesmo com um estranho planeta de forma muito esquisita. No pomar de laranjeiras as mulheres, que apanhavam laranjas à pressa para vender na beira da estrada ou no mercado de sábado, costumavam agarrar a cabeça ou o rabo do gato cor de laranja, pensando que ele era uma sumarenta laranja. Os meninos da rua, com fome, ou sede, ou fome de brincadeira, agarravam o coitado do gato e levavam-no à boca, assustando-se de seguida, quando o gato miava ou os arranhava.
Foi por tudo isto, que tornava a vida dos dois amigos gatos num inferno, que eles resolveram trocar de lugar. E no outro dia o gato azul foi para cima da laranjeira e o gato cor de laranja subiu ao telhado mais alto da rua, recortada no céu. Nunca mais foram confundidos com laranjas ou estrelas. E cada um percebeu o seu lugar num mundo onde os gatos são pretos, ou brancos, ou cinzentos, ou castanhos.

Helder F. Raimundo
25 Novembro 2004
(conto escrito a partir de narrações sucessivas aos filhos)

sexta-feira, novembro 20, 2009

Leituras obrigatórias

Mudar de Vida é um jornal de cariz popular posicionado à esquerda. Publica artigos e ensaios do campo do pensamento marxista e socialista moderno. Uma leitura a acompanhar com regularidade em papel ou em versão online. Ler aqui.

terça-feira, novembro 10, 2009

Uma jogada de mestre

Ao contrário do que pensam, a ausência de Cristiano Ronaldo no jogo contra a Bósnia só nos favorece. Porquê? CR não marca golos na selecção, como se sabe - síndroma que o irá acompanhar e acentuar ainda mais enquanto estiver no Real - e é incompetente com a braçadeira de capitão. Portanto, o pedido de escusa de CR e do Real, vem legitimar a inteligência de Queiroz (que eu sempre aplaudi) quando o convoca sabendo que ele está lesionado. De mestre!

segunda-feira, novembro 09, 2009

Abate de árvores em Loulé

Corre uma discussão acesa sobre o abate de árvores no ‘Hospital da Misericórdia’. No blogues 'Sebastião' e 'MAC Loulé' é possível ler como, muitas vezes, estas questões são diálogos de surdos ou ainda neste caso, uma grande confusão entre os valores naturais e patrimoniais. Seria bom que se lesse um pouco, um poucochinho que fosse, de Lévi Strauss, para se perceber o que é a natureza e o que é a cultura, e sobretudo que elas não se opõem, tendo a ‘cultura’ a obrigação de ser mais responsável pela defesa da biodiversidade, em todos os campos. Para mim, um dos aspectos importantes desta discussão é perceber que o debate participado destes temas deve ser feito antes, e nunca depois, de qualquer acto que ponha em causa a vida cultural de qualquer território. Em tempos fui dos primeiros a escrever sobre o assunto e a pôr em causa opiniões escondidas sobre a questão. Ler o que publiquei neste blog (Abril 2007 e Outubro 2007) e em A Voz de Loulé (Março 2005).

domingo, novembro 08, 2009

O capital é sempre igual

[foto Público]

O acidente do viaduto, em Andorra, que vitimou trabalhadores portugueses mostra, sobretudo, que o capitalismo é igual em toda a parte. A morte de cinco trabalhadores e os ferimentos de outros seis é reveladora de como o capital internacional e a competitividade neoliberal das empresas os tratam: mais de 12 horas diárias de trabalho, roubo do descanso semanal e condições perigosas de trabalho. Neste caso não há argumentos de segurança que valham. Acresce que, no caso dos imigrantes portugueses, as suas deslocações regulares entre Portugal e Espanha – por ausência de trabalho no seu país – obrigam a condições psicológicas de trabalho muito mais atentas. Por isso, não vale a pena os sindicatos colocarem os trabalhadores espanhóis como estando numa relação de vantagem sobre os portugueses. O capital trata-os da mesma maneira. Só que, neste caso, os portugueses para além de operários são também emigrantes. Alguns deles não o serão mais.