


Poema das Árvores
As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.
As árvores, não.
Solitárias, as árvores
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.
Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.
António Gedeão

Entrúdios
Os cogumelos já se foram,
Diz o senhor Fausto, olhando o renque de pinheiros húmidos.
Dois burros tristes olhando a praça do povo,
Água da natureza derramando folhas na rua 1º de Maio.
Viviane na rua da Saudade, na noite fria da Ursa Menor.
Carnaval confrangedor, de turistas encafuados,
Longe do Entrudo chocalheiro.
São Miguel, Baiona, Odeceixe…
Tempos modernos e românticos,
Lado a lado,
Disputando o futuro.
*
Alentejo, 16 Fevereiro 2010
Os interesses da empresa sueca IKEA em instalar um empreendimento comercial no concelho de Loulé estão a desenvolver-se claramente como um ‘case study’. Não tanto pela sua propaganda de capital liberal e moderno mas, sobretudo, pelos interesses monopolistas que faz girar à sua volta e pelo séquito capitalista que mobiliza.
Do que se sabe, do plano do gigante do capital sueco, é que pretende instalar um conjunto de centros comerciais em Espanha e Portugal (com o qual não vou perder aqui muito tempo), entre as quais um deles projectado para o concelho de Loulé. Este, segundo os dados e números da empresa, seria uma loja Ikea e um centro comercial InterIkea.
O investimento atingiria entre 200 a 300 milhões de euros e criaria cerca de 3000 postos de trabalho. Não havendo mais nada de concreto – pelo menos na opinião pública – nada se sabe da verdade destes números, designadamente que tipo de emprego criaria.
Foram meus alunos de Ciências da Comunicação. Não param quietos um segundo. Devoram livros e jornais, escrevem por todo o lado, fazem rádio, curtas, publicam livros. Há tempos andaram pelos blogues e marcaram presença, no Sapo, pela qualidade. Hoje são quase todos jornalistas da imprensa regional. Agora meteram-se numa nova aventura que só podia ter este nome: "Ilícito". Leiam-nos. É só clicar na imagem acima.
Mudar de Vida é um jornal de cariz popular posicionado à esquerda. Publica artigos e ensaios do campo do pensamento marxista e socialista moderno. Uma leitura a acompanhar com regularidade em papel ou em versão online. Ler aqui.Corre uma discussão acesa sobre o abate de árvores no ‘Hospital da Misericórdia’. No blogues 'Sebastião' e 'MAC Loulé' é possível ler como, muitas vezes, estas questões são diálogos de surdos ou ainda neste caso, uma grande confusão entre os valores naturais e patrimoniais. Seria bom que se lesse um pouco, um poucochinho que fosse, de Lévi Strauss, para se perceber o que é a natureza e o que é a cultura, e sobretudo que elas não se opõem, tendo a ‘cultura’ a obrigação de ser mais responsável pela defesa da biodiversidade, em todos os campos. Para mim, um dos aspectos importantes desta discussão é perceber que o debate participado destes temas deve ser feito antes, e nunca depois, de qualquer acto que ponha em causa a vida cultural de qualquer território. Em tempos fui dos primeiros a escrever sobre o assunto e a pôr em causa opiniões escondidas sobre a questão. Ler o que publiquei neste blog (Abril 2007 e Outubro 2007) e em A Voz de Loulé (Março 2005).
O acidente do viaduto, em Andorra, que vitimou trabalhadores portugueses mostra, sobretudo, que o capitalismo é igual em toda a parte. A morte de cinco trabalhadores e os ferimentos de outros seis é reveladora de como o capital internacional e a competitividade neoliberal das empresas os tratam: mais de 12 horas diárias de trabalho, roubo do descanso semanal e condições perigosas de trabalho. Neste caso não há argumentos de segurança que valham. Acresce que, no caso dos imigrantes portugueses, as suas deslocações regulares entre Portugal e Espanha – por ausência de trabalho no seu país – obrigam a condições psicológicas de trabalho muito mais atentas. Por isso, não vale a pena os sindicatos colocarem os trabalhadores espanhóis como estando numa relação de vantagem sobre os portugueses. O capital trata-os da mesma maneira. Só que, neste caso, os portugueses para além de operários são também emigrantes. Alguns deles não o serão mais.