quinta-feira, junho 26, 2008

Final

Confesso que uma final Alemanha-Espanha agrada-me. Quer ganhe uma ou outra equipa provar-se-á que a patridiotice*, enquanto nacionalismo saloio criado por Scolari em Portugal, não vinga em países desenvolvidos e modernos. A selecção de futebol do país vai pagar, por muitos e bons anos, este populismo castrista/caravaggiano.

[* termo devido a Vale de Almeida]

quinta-feira, junho 19, 2008

Patridiotas

Ah sim, "eu estou tranquilo, mais do que tranquilo". A patridiotice acabou na altura certa e agora só falta retirar as bandeirinhas da 1ª república das janelinhas coitadinhas. Scolari deu o pum do Ipiranga e eu agradeço, pois já não tenho que aturar as idiotices dos patriotas da bola. Agora a sério: a equipa da Alemanha fez a síntese hegeliana. Não percebem? Vão estudar!

quarta-feira, junho 18, 2008

Treinador de bancada

RESTRIÇÕES À JUSTIÇA DESPORTIVA

Bom, deixarei para a próxima crónica a propalada questão do “multiculturalismo” da selecção de futebol de Portugal, que parece aproximar uma certa intelectualidade das manifestações nacionalistas do velho império. Por agora, abordarei as demarches da justiça desportiva, que têm sido mais actividade desportiva de juízes do que justiça sobre o desporto.

Já se torna claro que os tempos dos comportamentos trogloditas de dirigentes nos estádios, das ameaças de grunhos do norte contra o sul e vice-versa – que a comunicação expandiu e ampliou –, deixaram de fazer qualquer sentido. Tirando os apaniguados do costume, já ninguém lhes liga. Os tempos são outros e o fair-play não serve só para ostentar nas camisolas. A luta pelo poder trava-se agora noutros campos.

Tudo indica que o FC Porto vai ser impedido de disputar a Liga dos Campeões, pelo facto de estar a ser investigado num processo sobre corrupção desportiva. O facto de ser tricampeão em Portugal não conta para nada, nem deve servir para recurso. Até porque o processo discorre exactamente sobre esses períodos. Por isso, tudo indica que a UEFA não vai voltar atrás com a primeira decisão. Quando esta crónica for lida, já terá reunido a Comissão de Apelação da organização do futebol europeu e já se saberá a deliberação final. Eu aposto no impedimento. Entretanto, se isto se confirmar, o SL Benfica é um dos clubes beneficiados. Tento não usar o meu subconsciente clubístico: o Benfica não deveria necessitar de aproveitar este mecanismo tribunalício para integrar as provas europeias. Foi um mau clube esta época, mas a justiça tem destas coisas; em todas as matérias. Agora dizer (como faz Miguel Sousa Tavares), que o Benfica faz pressão na UEFA a favor de uma decisão favorável, é confundir os leitores. Se a justiça desportiva precisa de provas, as afirmações que se fazem, também.

Apontando, agora, a agulha para outros territórios do desporto e da justiça. A RP da China aprovou um pacote de 57 restrições ao aficionado dos Jogos Olímpicos de Pequim. Como sabem, até a liberdade tem limitações. Foi o que a Revolução Francesa nos legou. O New York Times dá a história toda. Querem conhecer algumas dessas restrições? Aqui vão: i) a concessão de vistos a visitantes será controlada nome a nome; ii) todo o activismo, em nome dos direitos humanos, será punido; esperemos que não a esmagamento de canhão; iii) portadores de doenças sexualmente transmissíveis ou do foro psíquico não terão entrada; por isso veja lá bem; iv) imagens e textos atentatórios da política, economia, ou moral chinesas serão proibidos; de acordo com a cartilha chinesa, claro. A lista é grande e ficaremos por aqui. Provavelmente ela aumentará à medida que os Jogos se aproximam. Como o respeitinho é muito bonito, o Comité Olímpico Internacional nada diz. Ora, ora, quem cala consente.

A China, mais uma vez, mostra que tem o poder discriminatório de impor limitações à liberdade, até agora inauditas noutro qualquer país organizador. Até Hitler foi mais estúpido. Ainda longe do carácter assassino dos anos da guerra, deixou que em 1936, em Berlim, o velocista Jesse Owen lhe mandasse à cara o que significava esse conceito de “raça ariana”. A China é mais polida. Publica, antecipadamente, restrições ao contágio da causa da democracia capitalista de pés de aço, que norteia a sua gestão nos últimos tempos. Uma nova revolução cultural, talvez seja o que nos espera.

(A Voz de Loulé, 15 Junho 2008)

sexta-feira, junho 13, 2008

Restrições nos Jogos Olímpicos

A RP da China aprovou um pacote de 57 restrições ao aficionado dos Jogos Olímpicos de Pequim. Como sabem, até a liberdade tem limitações. Foi o que a Revolução Francesa nos legou. O New York Times dá a história toda. Querem conhecer algumas dessas restrições? Aqui vão: i) a concessão de vistos a visitantes será controlada nome a nome; ii) todo o activismo, em nome dos direitos humanos, será punido; esperemos que não a esmagamento de canhão; iii) portadores de doenças sexualmente transmissíveis ou do foro psíquico não terão entrada; por isso veja lá bem; iv) imagens e textos atentatórios da política, economia, ou moral chinesas serão proibidos; de acordo com a cartilha chinesa, claro. A lista é grande e ficaremos por aqui. Provavelmente ela aumentará à medida que os Jogos se aproximam. Como o respeitinho é muito bonito, o Comité Olímpico Internacional nada diz. Ora, ora, quem cala consente.

quarta-feira, junho 11, 2008

Justiça desportiva

Tudo indica que o FC Porto vai ser impedido de disputar a Liga dos Campeões, pelo facto de estar a ser investigado num processo sobre corrupção desportiva. O facto de ser tricampeão em Portugal não conta para nada, nem deve servir para recurso. Até porque o processo discorre exactamente sobre esses períodos. Por isso, tudo indica que a UEFA não vai voltar atrás com a primeira decisão. Entretanto, se isto se confirmar, o SL Benfica é um dos clubes beneficiados. Tento não usar o meu subconsciente clubístico: o Benfica não deveria necessitar de aproveitar este mecanismo tribunalício para integrar as provas europeias. Foi um mau clube esta época, mas a justiça tem destas coisas; em todas as matérias. Agora dizer (como faz Miguel Sousa Tavares), que o Benfica faz pressão na UEFA a favor de uma decisão favorável, é confundir os leitores. Se a justiça desportiva precisa de provas, as afirmações que se fazem, também.

quarta-feira, junho 04, 2008

Em espera...

Amanhã (ou depois) escreverei sobre dois assuntos próximos do que recentemente abordei na minha coluna Treinador de Bancada, em A Voz de Loulé: a deliberação da UEFA que retira o FC Porto da Liga dos Campeões e as 57 restrições da RP da China aos visitantes dos Jogos Olímpicos de Pequim. Material que pega fogo.

terça-feira, junho 03, 2008

Treinador de Bancada


Apitemos, então!

Não, não me esqueci do Apito Final. Só que a selecção de futebol tem ocupado tanto os nossos olhos e ouvidos que ninguém tem paciência para nos ler. Eu próprio vou confirmando o papel manipulador dos media, na sua profusão de futebolândia em todos os meios: rádios, jornais, televisão, web. No meu bairro, já começaram a aparecer as bandeiras, com timidez é certo, até porque este ano o que está a dar é ser sócio da selecção, uma invenção mais consonante com a desgraçada classe média que temos e ao nível do programa da Liga dos Últimos, um momento de culto do futebol nacional.

Entretanto, alguém vai ter que ir tocando o país para a frente. De vez em quando uma noticiazinha, lá no fim do jornal da noite, ou nas páginas a preto e banco dos jornais desportivos, vai informando o povo do processo do Apito Final. Sabemos que Pinto da Costa já não manda penhorar a casa de banho do estádio do dragão, que Valentim Loureiro já não manda passear a procuradora Maria José Morgado, que Pimenta Machado e João Loureiro estão fora das direcções dos clubes que dirigiram a seu bel-prazer. De Avelino Torres não vale a pena falar, de tão rasteira que a coisa é.

Quando escrevi aqui, na minha antiga coluna, em 15 de Março de 2004 (em plena euforia da 1ª futebolândia nacional) sobre as ligações entre futebol, construção civil e branqueamento de capitais, caiu o Carmo e a Trindade. Melhor, caiu o Largo de S. Francisco e o pórtico da Graça. Mas eu recordo, agora que parece que o povinho do futebol já aprendeu alguma coisa:

(…) O dirigismo no futebol é tirocínio obrigatório para quem quer ascender a cargos políticos de referência. Em qualquer currículo que se preste a provas eleitorais, lá vai a referência à gestão da direcção do clube da aldeola, ou à prática desta ou daquela actividade amadora. Em tempos, era raro o presidente de Câmara que não tivesse lugar cativo na presidência de uma qualquer assembleia-geral de um qualquer clube. Do anonimato para a associação, desta para o clube de futebol da terra, e deste para o cargo político, este era o caminho certo para o poder (…)
A sociologia há muito tempo que estuda o assunto. E é por isso que se pode ler o futuro. A corrupção no futebol é algo evidente que, mais tarde ou mais cedo, se vai provando aos poucos, e a tendência é que desça dos grandes para os pequenos. E sabem porquê? Não? Eu digo-vos: é que o caminho da futebolândia constrói-se a partir de uma rede de favores e benevolências minúsculas e invisíveis, que estruturam a fidelidade de apaniguados, empregados, funcionários e autoridades. Só assim é possível, a quem detém o poder, mobilizar em sua defesa todos aqueles que dependem dessa rede diáfana da solidariedade corrupta. Para contrariar esta rede, é só alguém meter um pauzinho na engrenagem e já está.

Ora, o que é interessante nos dias que correm é a premente necessidade de identificação com os clubes, em particular com o futebol, que muita gente vai assumindo. Esse proselitismo saloio tem várias funções: o futebol é a sua pátria e ao seu serviço até vão combater na guerra do Iraque; eles são os únicos patriotas, erguem todas as bandeiras contra o inimigo, sobretudo quando os detractores estão nos blogues e nas colunas de jornal; eles formaram-se nas escolas dos clubes e o seu bilhete de identidade dá-lhes o direito de maltratar os adversários.

Talvez se possa aconselhar algum remédio a esta gente. Quando forem à bola, quer seja na caravela em seco, vulgo pomposo estádio do Algarve, quer seja no pelado do treino do filho, levem um livrinho e leiam algumas páginas. Aconselho dois: Contra o Fanatismo, de Amos Oz e El Fútbol a Sol y Sombra, de Eduardo Galeano. Perguntam-me do que falam os livros? É melhor lerem, verão que assim perceberão melhor o futebol e claro, a cidadania…

A Voz de Loulé, 1 de Junho 2008

sexta-feira, maio 30, 2008

Teatro Análise de Loulé

Parece que foi ontem. Em 1983 integrava, com alguns amigos e outros menos conhecidos, uma Oficina de Formação Teatral com os actores do Teatro Laboratório de Faro, Luís Aguilar, Isabel Pereira e José Louro. Por motivos pessoais e profissionais não terminei a formação, mas vim a assistir à produção colectiva Cena Vazia que o curso apresentou em Faro, no velho edifício dos Correios. Nesse ano ainda, a partir de um grupo de jovens formandos de Loulé, nasce o TAL, Teatro Análise da Casa da Cultura de Loulé. O grupo faz agora 25 anos, tanto tempo já. Parabéns à Manuela, ao Teiga, ao Quim Mealha e ao Clareza... O Canal do Sul edita uma reportagem vídeo sobre o aniversário. Depois de aceder ao site, clicar no vídeo "Os 25 anos do TAL" (link).

Música de Tradição Oral

Abri mais uma secção no sidebar do blogue, intitulada Música de Tradição Oral. A ideia é disponibilizar, graciosamente, a audição de temas da música tradicional de transmissão oral, por mim recolhidas, permitindo o usufruto do melómano e/ou a investigação da temática, a partir do descarregamento na plataforma onde estão alojadas. Há alguns meses, tinha já carregado dois temas do álbum «Velhos da Torre e Amigos», e um tema do álbum «Outras Músicas», editados pela Câmara Municipal de Loulé, sob a minha coordenação. Só agora foi possível indicá-los ali ao lado, a partir do tema "Marcadinha", de Analide Santos, exímio tocador de harmónica e castanholas de Alte, infelizmente já falecido. Assim, esta novidade é também uma homenagem da minha parte. Em breve carregarei, na plataforma, mais espécimes musicais.

Os patriotismos do Euro

A crónica, que publicarei na minha coluna Treinador de Bancada em A Voz de Loulé, do próximo dia 1 de Junho, tem muito de similitude com isto:
O Público de segunda-feira trazia uma interessante reportagem que juntava especialistas em futebol, como Humberto Coelho ou Bruno Prata, e completos leigos que pouco ou nada sabem sobre bola, como José Diogo Quintela ou Artur Jorge. Afinal de contas, já só faltam 23 dias para o jogo de abertura. Não temos muitos dias para iniciar a nossa preparação, enquanto adeptos. Em meados de Junho, teremos de estar com os níveis de patriotismo no ponto certo para apoiar os jogadores da selecção nacional e suportar com denodo a desilusão que eles vão proporcionar-nos desta vez. Todo o tempo é pouco. Ler +

quarta-feira, maio 28, 2008

Tyto Alba

Em pleno Alentejo, uma Coruja das Torres voava, cansada e ofuscada, em plena tarde de sol. Capturei-a, apenas para que a minha esposa pudesse registar a sua beleza, emprestada naquele dia. Depois, soltei-a para a noite que se aproximava.
Mais foto (link)>

terça-feira, maio 27, 2008

Pollack

Habituei-me a gostar dos filmes de Sidney Pollack, não tanto pela realização (e de muitos recordo África Minha ou Tootsie, que quase toda a gente viu), mas sobretudo pela capacidade de ele se colocar dentro do filme, para lá do interior da câmara de filmar. Essa competência em se expor, fez dele um outro Hitchcock, não tanto pelo humor do personagem, mas mais pela afectividade com os outros personagens.

sexta-feira, maio 23, 2008

Guantánamo

O governo continua a meter a cabeça na areia. E ainda por cima se arma em avestruz arrogante. Desde há cerca de um ano que recusa confirmar os voos da CIA no espaço aéreo português, sobretudo os que tiveram origem e destino na prisão americana de Guantánamo. Hoje, finalmente, confirmou a passagem de 56 voos entre Julho de 2005 e Dezembro de 2007. Desses, 55 eram militares. Daqui a um ano confirmará que nesses aviões viajaram prisioneiros muçulmanos acusados de terrorismo pelos EUA.

quarta-feira, maio 21, 2008

Memória de José Vieira

O último Laboratório da Memória, iniciativa da Divisão de Cultura e História Local da Câmara de Loulé (CML), foi dedicado a José Cavaco Vieira. Este altense é sobejamente conhecido e, por isso, a conversa à volta da biografia e significado social desta personalidade assentou mais numa leitura sócio-antropológica do que na narração de datas e acontecimentos significativos da sua vida. O problema é que a sua cronologia de 98 anos foi tão preenchida que não se pode interpretar a personalidade sem perceber a sua circunstância, como defendia Ortega y Gasset. No encontro, tive a oportunidade de alinhavar algumas ideias que me parecem chave para perceber José Vieira, e o seu papel na história de Alte e do Algarve. A propósito, recordo algumas palvaras que escrevi, como coordenador da edição, na introdução à obra «Conversando a Vida Toda», lançada no âmbito das comemorações do centenário de Vieira, em 2003, e que a CML distribuiu graciosamente no encontro:

José Cavaco Vieira nasceu em Alte, em 1903 e morreu na mesma aldeia, no ano de 2002. Faria 100 anos no dia 23 de Novembro do corrente ano.
A propósito das comemorações do centenário do nascimento de José Cavaco Vieira, ilustre cidadão altense, ocorreu-me pensar no, também ilustre, poeta que abriu caminho àqueles que por obras valorosas se foram da lei da morte libertando. Talvez porque Vieira tenha percorrido todo o século XX, vivendo diversos contextos sociais e políticos, sempre, mas sempre, com um valor intrínseco e elevado: fazer o bem! A sua vida pautou-se por uma multifacetada diversidade histórica, equilibrando diversas dimensões humanas: por um lado uma dimensão humanista; por outro lado uma dimensão comunitária; ainda uma dimensão artística ecléctica; e finalmente, uma dimensão ecológica e histórica.

quinta-feira, maio 15, 2008

Treinador de Bancada #8

O Capitão-mor da armada portuguesa

Estava eu descansado, com a crónica já escrita do “Apito Dourado”, quando senão param todas as máquinas. Vinha aí a conferência de imprensa do seleccionador de futebol da equipa das quinas. E logo às 20 horas, horário de abertura de todos os espaços informativos das televisões públicas e privadas. É claro que ninguém ficou de fora, estavam lá todos, julgo eu, que estava em trânsito e limitei-me ao rádio do carro. Mas, pelo que vi depois, ninguém deixou de apresentar em directo e ao vivo, da terra do presidente da Associação Nacional de Municípios, as sábias palavras do presidente da Federação Portuguesa de Futebol e do seu escolhido. A propósito, quem tem olhos na cara e ouvidos bem abertos já percebeu que não reina confiança e esperança na voz embargada e triste do presidente federativo. A ideia de Scolari como salvador da pátria já foi chão que deu uvas. Aliás, não deu uvas nenhumas, como se sabe.

Mas o que levou a tanta emoção nos media nacionais, para que todos estivessem em directo de Viseu? Bem, a resposta é simples: ouvir a lista de 23 jogadores da equipa de Portugal que, na Áustria/Suíça, irão disputar o Europeu de Futebol. Como isto não tem qualquer novidade, os jornalistas fazem da vulgaridade do acto a descoberta do Brasil. E perguntam, rápido e certeiro, pela ordem do sorteio de perguntas na sala: por que razão o Maniche, que foi o melhor marcador das duas campanhas anteriores, não estará nos convocados; para que serve o Helder Postiga, que praticamente não jogou esta época; qual o papel do Ronaldo, se afinal ele não tem a equipa do Manchester em campo, a seu lado; e, finalmente, por que raio continua o Ricardo a ser titular da baliza? Como se percebe, um verdadeiro acto de estado, a conferência de imprensa da Federação Portuguesa de Futebol.

Bom, mas sejamos justos. Lá que houve novidade, houve mesmo. Ficamos a saber que é agora que a disciplina militar vai ser imposta. E, para isso, a equipa não vai ter um, nem dois capitães, mas sim cinco. Ouviram? Cinco! Scolari, grande estudioso da história do Brasil (e, que saibamos, andou a ler recentemente a «Carta a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil», de Pêro Vaz de Caminha), lembrou-se de capitanear a armada com os émulos dos descobridores portugueses. Vai daí, foi só fazer a lista: Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Fernão de Magalhães…Só faltava um, para ele o mais importante, aquele que se diz ter descoberto o Brasil. Uma terra que já lá estava, há muito, povoado de índios “pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andavam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas”. Foi esta inspiração, plasmada na Carta, que levou Scolari a revelar apenas o nome do capitão-mor da selecção de futebol, de seu nome Ricardo Carvalho. Parece que o próprio nem sabe, ele que lá anda nos relvados do “velho império onde o sol nunca se punha”. Um capitão que, provavelmente, não o quer ser, pois sabe que Colunas não nascem todos os dias.

Bem vistas as coisas, da selecção entenda-se, e olhando as bandeiras chinesas, já muito esfarrapadas, pendentes de janelas e mastros, percebe-se o que nos espera: um movimento de adesão patriótica em torno da equipa de todos nós, uma coesão de valores nacionais entre homens e mulheres, velhos e novos, e ricos e pobres. Só a nossa selecção de futebol poderia conseguir tal feito. Eu até me oferecia para escrever a carta do achamento da Áustria e da Suiça, mas acho melhor não embarcar.

Vou ali jogar à bola com os meus filhos e já volto…

(A Voz de Loulé, 15 Maio 2008)

domingo, maio 11, 2008

Microconto

O umbigo
Estávamos a ensinar o M a fazer sexo. Ele esbracejava entre a roupa da C, sempre disposta a estes prazeres adolescentes do corpo, procurando o sítio certo. Era mais que certo que não sabia onde o procurar, era caloiro na matéria. (...)

Leia o resto do meu microconto na revista minguante nº 10, de Maio de 2008 (link). E divulgue-a (link).

terça-feira, maio 06, 2008

Treinador de bancada

A Fórmula dos dois milhões

Tiago Monteiro recebeu dois milhões de euros para rodar o seu carro na Fórmula 1. Todos nós sabemos o que são dois milhões de euros, mesmo não os tendo visto na nossa mão. Um exercício, fácil de comparação, será pensarmos que esse número corresponde, grosso modo, a dois milhões de pessoas no limiar de pobreza, já que um euro será o mínimo de subsistência para cada pessoa, por dia, nos países pobres e desfavorecidos. Outro exercício deveras interessante, seria o de confrontarmos o que receberam modalidades olímpicas representadas no Comité Olímpico Português, no qual se integram centenas de atletas: dois milhões e duzentos mil euros, para o mesmo período.

Agora, meus amigos, eu direi o que vocês já sabem: os tais dois milhões, que serviram ao piloto português nos anos de 2005 e 2006 nos campeonatos do mundo, foram endossados pelo governo de Portugal. Simples e limpo, como manda a cultura do défice. Melhor, há vida para além do défice, como diria o ex-presidente Jorge Sampaio.

A história é mais simples de contar do que perceber. Como os patrocinadores se estiveram nas tintas para dar o dinheiro à Jordan, e mais tarde à Midland, empresas de gestão do piloto (caramba, o que se aprende na alta roda do desporto, meus senhores), alguém teve que entrar com o dinheiro dos contribuintes. Quem é que governa o dinheiro dos contribuintes? Vocês sabem, o governo, pois claro. Primeiro o de Santana, que prometeu o “apoio incondicional ao piloto”; depois o de Sócrates que “não pode deixar de honrar compromissos”, como se sabe. O actual, diz que a culpa é do anterior, mas toda a gente diz que afinal os contratos de pagamento foram assinados de livre vontade. Na berlinda da defesa do acordo, lá estão o ministro da presidência, Silva Pereira e o sempre presente secretário de estado do desporto, Laurentino Dias. A piada de todo este imbróglio é que se o anterior governo não tivesse caído, a avaliar pelas promessas do ex-ministro adjunto Gomes da Silva, o financiamento do governo ao atleta teria sido de seis milhões de euros. Pasmem, por favor. Como se veio a verificar, as empresas que suportariam esse acordo jogaram pelo seguro e deixaram o carro de Tiago Monteiro a correr em família.

Mas o que leva um governo a financiar um piloto de Fórmula 1, perguntam vocês e bem. A resposta é clara, simples e patriótica: trata-se de uma “oportunidade única para potenciar a imagem de Portugal no mundo”. Foi esta ideia, tão saloia quanto pseudo-identitária, que movimentou tanta gente de dois governos, na passagem do cheque do Instituto de Desporto de Portugal para as mãos da CSS Stellar, gestora da carreira do piloto. Tratou-se, portanto, na filosofia megalómana dos dois governos envolvidos, de “um desígnio de alto interesse para o país”. Como todos sabemos, as razões foram mais prosaicas. O dinheiro serviu, apenas, para pagar as dívidas do piloto, à equipa canadiana que o tinha suspenso da competição em 15 de Julho de 2006, de forma a não abandonar a Fórmula 1. Um desporto, que tantas alegrias tem dado a Portugal, não é verdade?! Segundo se diz, o contrato de financiamento dos dois milhões de euros não estipula qualquer obrigação do piloto de publicitar a marca Portugal.

Agora, sabem o que seria interessante? Dar a ler esta crónica a Ana Rente, atleta do Lisboa Ginásio Clube, ginasta campeã da Europa de juniores em 2004, a João Costa, atirador da Naval 1º de Maio, 7º lugar nos Jogos de Atenas, a Sílvia Cruz, lançadora de dardo do Sporting, que prepara a sua primeira participação nos Jogos, ou a Vanessa Fernandes, com 19 vitórias em taças do mundo de triatlo. Não alonguemos a lista…

(A Voz de Loulé, 1 Maio 2008)

sexta-feira, maio 02, 2008

Maio 68

O "Maio de 68", em França, foi há 40 anos. Uma apresentação de imagens, de cartazes marcantes desse tempo de mudança radical, pode ser vista em slideshow na plataforma do Sapo (link).

terça-feira, abril 29, 2008

[Pub]

Aqui mesmo ao nosso lado, a única livraria da cidade de Loulé (Caravana) tem um espólio de livros a preços de ocasião. Quase todos do catálogo da distribuidora Sodilivros, conhecida pela venda em feiras e livrarias de retalho, lá estão dezenas de livros entre 1 e 7 euros: banda desenhada, romance, ensaio, técnicos. Não resisti ao «Belos Cavalos» do Cormac McCarthy, da Teorema e a dois ensaios de prestígio, um sobre Os Ciganos e outro sobre a história de vida do Chefe Sioux, Alce Negro, ambos da editora Antígona. Aliás queria chamar a atenção para o excelente conjunto de livros desta editora, à disposição dos leitores. Não lê mesmo, quem não quer...

segunda-feira, abril 28, 2008

A ler

E já agora queria aconselhar a leitura do romance blogosférico do José Carlos Barros, "O Fio do Norte", no seu blogue Casa de Cacela (link).