domingo, abril 27, 2008

Abril, há tanto tempo...

Apesar de atrasado (a vida não pára e prefiro isso ao foguetório memorialista das comemorações), aconselho a leitura do conto que escrevi há uns anos sobre o 25 de Abril de há 34 anos. Está ali ao lado, publicado na revista de contos «Bestiário» e chama-se "Trinta anos depois" (link).

quarta-feira, abril 23, 2008

sábado, abril 19, 2008

Edital

Novidades no sidebar: mais revistas online e imprensa no ecrã.

Escândalo

A Câmara Municipal de Portimão (CMP) já tinha revelado muito desleixo, em relação ao problema da classificação da Ria de Alvor como património ambiental. E continuou a fazê-lo, quando permitiu arroteamentos sucessivos de terras nas margens da Ria, na base de interesses turísticos. Agora, o choque é maior. Depois de ter apoiado estudos arqueológicos e promoção patrimonial no povoado pré-histórico de Alcalar, a CMP permite o escândalo do entulhamento de sítios de interesse arqueológico evidente, na periferia do povoado. Muito grave, quando a Câmara tem vereadores e técnicos que se dizem conhecedores e amantes da problemática. Ver no barlavento online (link).

sexta-feira, abril 18, 2008

Cronistas

Uma excelente novidade: os textos dos cronistas do Público estão em linha aberta e disponíveis à leitura (link),

quinta-feira, abril 17, 2008

Treinador de bancada

UMA CHAMA QUE SE APAGA,
OUTRA QUE SE ACENDE

Pois é, a chama olímpica que percorre os vários países até aportar a Pequim, sede dos Jogos Olímpicos de 2008, vai-se apagando de vez em quando, por pressão do povo tibetano. Como aconteceu em França, país ainda símbolo da democracia moderna e da multiculturalidade, cujo governo prevê o boicote às olimpíadas. Ora, esta situação não é nova, e convém lembrar que nos Jogos Olímpicos de 1976, 1980 e 1984 se produziram boicotes nos jogos de Montreal, Moscovo e Los Angeles. Portanto, são ridículas muitas afirmações de espanto e indignação, perante a indignação do povo tibetano e de muitos milhares de pessoas por esse mundo fora.

O mediatismo dos jogos e, sobretudo, a sua conotação com a paz e os direitos humanos no mundo, são uma oportunidade única para a afirmação do protesto tibetano pela independência do país. Convém lembrar que a invasão do Tibete se processou em 1950, um ano após a revolução chinesa, e que já produziu nada mais nada menos do que 90.000 mortos só em Lhasa (capital do país) em 1959, proibição de visitas a estrangeiros, leis marciais no país, e exílio do governo e das organizações democráticas tibetanas. Mesmo agora, com a aproximação dos Jogos, o governo chinês proíbe as visitas de jornalistas estrangeiros ao Tibete e encerra o acesso aos picos mais altos do Everest, pela sua fronteira, obrigando o Nepal a fazer o mesmo na sua entrada de acesso à montanha mais alta.

É claro que os protestos do povo tibetano – quer sejam pela independência (como propugna o Congresso da Juventude Tibetana) quer seja pela via da autonomia da língua e da cultura tibetana (como defende o Dalai Lama) – não se fundamentam apenas na invasão e ocupação do seu território. A China é acusada de violar muitas vertentes dos direitos humanos no seu país e é evidente que toda a gente se lembra do massacre dos tanques na praça de Tian Han Men, em Pequim. E é por estas razões, que milhares de tibetanos no mundo são acompanhados por muitos milhares, de outros povos.

Mas a China é também o grande suporte económico do Ocidente, através da sua economia de exploração de recursos e de mão-de-obra barata. E conta com o apoio dos Estados Unidos que, recentemente, a retiraram da lista de países dos piores violadores de direitos humanos, no mundo. E também não foi por acaso que a China ganhou, em 2001, a disputa, contra o Canadá, para a organização dos Jogos deste ano.

A decisão do Comité Olímpico Internacional também tem adeptos em Portugal. As declarações de Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico Português, vão no mesmo sentido, quando afirma que o boicote só prejudicaria os jogos e, por inerência, os atletas que se preparam há anos para as suas “performances” desportivas. Espero que ele tenha falado por si só. Porque, fazer dos atletas assépticos praticantes de modalidades desportivas é uma ofensa, para todos aqueles que fazem do desporto uma demonstração da prática desportiva como exemplo de solidariedade e de cooperação humanista no mundo.

Talvez percebendo que muitos atletas irão manifestar o seu protesto, durante as provas, a China já prevê a possibilidade de transmissão dos Jogos em diferido, desrespeitando a vertente de fraternidade universal do acontecimento. E contra isto devemos todos protestar. Porque se a China proíbe a liberdade de expressão dos seus artistas, criadores ou simples internautas, não pode agora armar-se em consciência política da Europa e do mundo. Talvez fosse bom a União Europeia e a Organização das Nações Unidas, não se preocuparem só com o Sudão (país a quem a China vende armas que servem para massacrar o povo de Darfur), mas começarem a olhar para o Tibete, enviando ao país observadores independentes. E, já agora, exercerem pressão para que a China permita a entrada no Tibete de organizações insuspeitas como a Cruz Vermelha e a Human Rights Watch. Se a China nada tem a esconder…

(A Voz de Loulé, 15 Abril 2008)

terça-feira, abril 15, 2008

Imperdível

Depois de ter deixado a editora Devir, onde publicou várias obras, José Carlos Fernandes, nosso conterrâneo e um dos maiores argumentistas e ilustradores de BD em Portugal, publica algum material antigo na sua nova editora, a Tinta da China:

Entretanto, as suas traduções da obra maior, A Pior Banda do Mundo, saem agora em polaco e euskara:

Com a sua verve humorística, e sempre inteligente, o Zé Carlos, apresenta-nos as duas traduções:
Diz-se correntemente que a música é uma linguagem universal - já é menos frequente admitir-se que a má música também é uma linguagem universal, como se vê pelo exemplo em anexo.
A título de curiosidade envio-vos a pg.3 do 1º vol. de A Pior Banda do Mundo, em euskara (em publicação na revista Nabarra, de Pamplona) e polaco (publicada em livro pela Taurus Media)

sábado, abril 12, 2008

História Devida

UM CHALÉ NA PRAIA DA ROCHA

O campeonato do mundo de futebol, em Inglaterra, já lá ia há muito. Todos se lembravam do jogo contra a Coreia, que Portugal tinha ganho por cinco a três, depois de estar a perder por três bolas a zero. E do Eusébio, que marcava os golos e imediatamente retirava a bola do fundo das redes. A televisão era a preto e branco nessa altura. E o país também, muito mais preto do que branco. Para eles, que eram todos jovens, brancura, só mesmo no Natal: nas geadas da manhã, quando acordavam, nas neves de que ouviam falar aos seus amigos serrenhos de Monchique e nos algodões alvos, das decorações do presépio. Sim, neste tempo o Pai Natal não existia, ainda não tinha sido inventado pelo comércio das bugigangas dos centros comerciais. Só o Menino Jesus tinha o direito de vaguear pelos sonhos dos meninos e, esse, só descia pelas chaminés noite dentro, na madrugada de 25 de Dezembro. Era pouco o que deixava. Um copo de plástico e uma laranja foi o que o Zezé ganhou, nesse ano. Às vezes, lá deixava uns bombons da Regina, umas peúgas de lã ou um prato de filhós de batata-doce e chocolate.
Nessa noite, saíram em grupo, do bairro industrial sujo e frio, alagado em água salgada e marismas, onde viviam desde que nasceram, ali perto da fábrica de conservas. Em bando, e esfriados, percorreram os poucos quilómetros que os separavam da Praia da Rocha, paraíso da alta burguesia da cidade.
Estavam agasalhados com blusas de lã, refeitas de outras velhas blusas já usadas e casacos coçados dos pais, que lhes cobriam as pernas. Entre as poucas ruas da urbe, tentavam orientar-se timidamente, junto dos chalés de telha preta e janelas de veneziana. A algumas casas era difícil aceder, pois estavam rodeadas de gradeamentos de ferro encimados por espigões, ou guardadas por cães esquisitos, desenhados nas fronteiras das entradas.
Nunca nenhum deles tinha feito semelhante coisa. Não tinham experiência alguma, mas a leveza do prato de caldo verde no estômago, a curiosidade e o advento de uma adolescência presumivelmente escura e sinuosa, levou-os a decidir. Escolheram uma casa de dois andares e pátio de fácil acesso. A porta era de cor castanha e de aspecto pesado e tinha no centro um batente circular, de ferro. Olharam à volta, a noite de Janeiro estava escura, não se via vivalma e, sem barulho, avançaram todos para a porta. A calma era convidativa e o breu da noite ofuscava deliberadamente os seus rostos. De repente, no silêncio ressonante da noite, surge uma melopeia sentida e tristonha, como que vinda do além:

Esta noite é de Janeiras
É de grande merecimento
Por ser a noite primeira
É que Deus passou tormento.

Ensaiada e límpida, a voz do ponto viu-se acompanhada, de imediato, por todo o coro: putos de mãos nos bolsos e boinas de feltro na cabeça, que contavam a história de Cristo, menino como eles, e que rogavam pedidos complacentes aos donos da casa:

Senhora que estais lá dentro
Deixe-se estar que está bem
Mande-nos dar a esmola
Por essa filha que aí tem.

Janeiras cantadas, nervosismo aliviado, a resposta da casa, desta vez, tardou. De dentro do chalé fino não surgia qualquer indício de presença humana, nem luz nem vozes. Poderiam estar a dormir, mas era ainda cedo na noite de sono. Mas, se havia um batente de ferro, o melhor seria retinir um som suave na porta da casa. O barulho do ferro a malhar ecoou na noite escura e silenciosa. E ninguém respondeu. Tudo ficou na mesma e o desalento, pela experiência frustrada, começava a ensombrar os rostos dos putos. E foi nesse momento que um dos amigos reparou. Sobre o batente, bem ao meio da larga porta, estava pendurado um arranjo de azevinho e papel de lustro, em formato de coroa. Ausentes de casa, os donos não quiseram deixar de felicitar e de agradecer aos visitantes, em noite tão sagrada e solitária.
Os miúdos desconheciam a mensagem do arranjo de Natal na porta. No seu bairro, nunca tal tinham visto. Até que um deles chamou a atenção para uma eventual morte. E pensando que tinha morrido alguém em noite tão adventícia, fugiram amedrontados, para bem longe da casa assombrada. Refugiaram-se o resto da noite no seu bairro. Até um dia, em que um lençol de areia cobriu o antigo espaço das casas, transformando o bairro em porto comercial da cidade.
Hoje, esta história deve ser uma das suas boas memórias desses tempos de infância.

Loulé/Algarve
Dezembro 1991/Dezembro 2007
Helder F. Raimundo.

sexta-feira, abril 11, 2008

Para ler

Aconselho as leituras de: uma apreciação crítica à peça de Sófocles - "Antígona" - por José Neves (link); e o post de FJ Viegas sobre a "eterna juventude" (link). Para pensar.

quarta-feira, abril 09, 2008

História devida

A minha história "Um Chalé na Praia da Rocha", lida hoje aos microfones da Antena 1 por Miguel Guilherme, já está disponível em podcast e pode ser ouvida aqui (link).

domingo, abril 06, 2008

Em breve...

Na próxima 4ª feira, dia 9, Miguel Guilherme lê, aos microfones da Antena 1, uma história minha intitulada "Um Chalé na Praia da Rocha". Trata-se de uma história seleccionada para ser lida no programa "A História Devida", das Produções Fictícias, que é emitido todos os dias, de 2ª a 6ª, às 17:20h, com repetição às 21:20h e 03:20h. O programa, da autoria de Inês Fonseca Santos e com leituras do actor Miguel Guilherme, pretende divulgar histórias curtas de ouvintes da RDP, não só neste formato, mas também aos domingos na revista "Pública" e em formato livro (link). Portanto, está convidado para ouvir o meu conto na 4ª, dia 9, pelas 17.20h, na Antena 1*. Pode ouvir online (link). Nesse dia postarei o conto completo e explicarei como foi construído.
* [Frequências para ouvir: Faro (97.6), Monchique (88.9) e Alcoutim (88.9)]

quarta-feira, abril 02, 2008

Treinador de bancada

DO EURO 2004 À LUSITANEA

A derrota da equipa profissional (convém que se diga, não?) de futebol de Portugal contra a Grécia, na passada quarta-feira, recorda-me o Euro 2004. Na altura, a equipa de Portugal perdeu também os dois jogos que disputou contra a equipa de Katsouranis, o carrasco do último jogo. Como se percebe, Scolari tem, na Grécia, uma espada de Dâmocles eterna sobre a sua cabeça. O problema talvez se explique pela distância cultural de Scolari: vindo de um país colonizado 300 anos por Portugal, o treinador de Madaíl apenas solta o seu grito de Ipiranga, mas não chega à civilização de Sócrates e Platão.

Mas o jogo de Dusseldorf poderia ter sido jogado no estádio Algarve, aproveitando as férias da Páscoa e a recente enchente do estádio, na final da Taça da Liga, de nome Calsberg. Já sabem que Páscoa e Algarve são sinónimos, mesmo que a dita seja em Março e chova a cântaros como deve de ser. Isso não impediu o estádio (que representa uma caravela encalhada em seco) encher-se de espectadores, mesmo que muitos com bilhetes oferecidos ou a preços de uva mijona. Como, aliás, deveriam ser sempre os preços. O nome da Taça fez-lhe jus. Como a cerveja Carlsberg já quase não se encontra, que melhor nome para uma prova que teve cerca de 3500 espectadores em média por jogo. Um “número de sucesso” como referiu o presidente da Liga, Hermínio Loureiro.

Também o estádio Algarve é fruto desta estratégia megalómana da visão desportiva do país. Lembro a reportagem do jornal «Público», de Fevereiro de 2006, sobre os estádios do Euro 2004. Nessa peça, da autoria de Manuel Mendes, o estádio do Algarve é referido como um dos “elefantes brancos”: 320.000 euros de receita anual contra 3.200.000 euros de despesas anuais com encargos financeiros e de manutenção. Fazendo as contas, 10 vezes mais despesas do que receitas. Tudo “a cargo” da Associação de Municípios de Faro/Loulé. Explicando: tudo “a cargo” das Câmaras de Faro e de Loulé e, portanto, do erário dos munícipes. Mas nada disso é problema, porque esta visão estratégica vai para além do estádio e suporta um projecto inexistente chamado Parque das Cidades.

O problema é que este problema não está só. Abre-se a caixa de Pandora do Euro 2004 e uma desgraça nunca vem só. O jornal «Expresso», do passado dia 15 de Março, mostra como a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) da região Centro, em conúbio com uma associação público-privada e com o apoio das câmaras da região e respectivas regiões de turismo, obteve financiamento de Bruxelas para promover no exterior a imagem do Centro. Tudo sob o belo nome de “Lusitanea”. Uma auditoria, às contas da campanha de 2004, mostra 2,7 milhões de euros de facturas irregulares, 1,9 milhões de euros de débito a Bruxelas e, finalmente, uma notificação das Finanças no valor de 1,6 milhões de euros que ninguém paga. Como calculam, isto são só números. Custa-me tanto escrevê-los aqui como vós, leitores, a lê-los. Simplesmente, trata-se de dinheiros públicos que o Organismo Europeu de Luta Anti-Fraude não consegue recuperar. Como foi isto possível? Fácil. Bastou que Paulo Pereira Coelho fosse à altura (2004) o presidente da CCDR Centro e se nomeasse, também, presidente da Associação para o Desenvolvimento do Turismo da Região Centro, para gerir a campanha que prometeu mundos e fundos. Depois, foi só sair dos dois organismos e integrar o ex-governo de Santana Lopes na Secretaria de Estado da Administração Interna, deixando os fundos e partindo para novos mundos. Agora, os actuais presidentes que paguem as favas.

E nós, satisfeitos com a bola, que é redonda e nunca pára.

(A Voz de Loulé, 1 Abril 2008)

Just one year

Para a Verdocas, os parabéns, cá da casa, pelo 1º aniversário.

domingo, março 30, 2008

Edital

Tenho escrito pouco, por aqui. A razão não se explica só pela falta de tempo, pois a verdade é que não me tem apetecido escrever sobre os quotidianos do país, cheios de telemóveis, %s de iva, a futebolada nacional, os casos da justiça, etc, etc. Tenho-me reservado para outra escrita. Para as crónicas quinzenais sobre desporto em A Voz de Loulé, um compromisso que assumi com o meu amigo Luís Guerreiro, editor no jornal. Mas, sobretudo, para a publicação de textos "literários" em revistas e outras publicações: na revista minguante (imagem e link já colocados ali ao lado no sidebar) e, em selecção, noutras revistas a revelar.
Mudei o "livro de cabeceira", porque apesar do Baudelaire estar ainda por acabar no meu carro, outros se acumulam verdadeiramente na cabeceira, ao lado da cama. Entre eles está a colectânea, de histórias de anónimos americanos, compilada por Paul Auster, cujo significado explicarei em breve, pois tem a ver com um projecto em que colaborarei nas próximas semanas, em Portugal, claro.

quinta-feira, março 27, 2008

À espera...

sentindo o tempo, olhando os pássaros nas águas salobras, lendo A Lagoa de Sherman a conselho do Zé Carlos Fernandes, pensando sobre o mundo e as lógicas da identidade deste país à beira-mar plantado. Até já.

terça-feira, março 18, 2008

Treinador de Bancada

FUTSAL:

um explicável jogo de futuro


Fiquem descansados que não vou falar do Camacho (todos sabemos quem é este antigo jogador do Real Madrid; ah, e também o mais recente ex-treinador do Benfica). A verdade é que, nos últimos dias, este eclipse mediático pareceu obscurecer a marcha de indignação dos professores e a visita do Presidente da República ao Brasil. E tudo por causa da saída de um treinador de uma equipa de futebol, ou da “mea culpa” de um dos capitães da equipa.

Hoje prefiro falar de futsal, essa modalidade híbrida que nos últimos tempos me tem levado ao Pavilhão Desportivo de Loulé, de jornais e moleskine na mão.

O futsal, como o nome indica, é uma modalidade “dois em um”: conjuga o futebol ao mais alto nível e as danças de salão. No meu tempo chamava-se futebol de cinco. Sim, porque se jogava com cinco jogadores a partir pernas uns aos outros nas tabelas de alvenaria que emolduravam o campo, mas que serviam também para executar algumas tabelas do mais digno bilhar de competição. Agora não, o jogo desenrola-se num tapete encerado onde é possível treinar uns carrinhos contra as pernas do adversário. O facto é que as manhas, os truques, as técnicas e outras filosofias do futebol, vêm todas parar ao campo do futsal. Por um lado, é essa a dinâmica e o estilo inato dos jogadores; por outro, os manuais de treinamento são ainda dos craques das Faculdades de Motricidade Humana, viciados em futebol e pouco entendidos em danças de salão. Bem, talvez não seja tanto assim e, convenhamos, os pequenos passes, os corrupios, o picadinho rápido do pé sobre a bola, é muito semelhante ao fox-trot e ao corridinho.

Olhando o jogo de futsal, reconhecemos a dinâmica, a rapidez e o tempo real de jogo, do velho futebol inventado pela burguesia inglesa nos tempos do romantismo. Quando o povo se apropriou da bola e o levou para as ruas, desencadeou um desporto ontológico, de postura e estilo corporal complexos. Sim, porque não me venham dizer que a modernidade é que o desenvolveu. O que a modernidade fez foi matá-lo. Como? Deixou a economia gerir a bola e a sociologia ter de explicar o hooliganismo.

Mas, e o futsal? Ah, esse devolveu-nos a proximidade e a democracia. A proximidade, porque nós estamos ali a ouvir as indicações do treinador e os célebres gritos de guerra dos jogadores (hey) a aplaudir todas as jogadas. Quando o barulho é muito, ou a Sic transmite os jogos de futsal do Benfica, não há nada que nos afaste. Coloca-se um micro na lapela do treinador e ouve-se tudo. Daqui a uns anos, um microprocessador embutido na fronte cerebral de cada treinador permitirá conhecer as suas visões mais eróticas sobre o jogo. E que dizer da capacidade democrática do futsal? Bem, reparem que nada há de maior igualdade e cidadania. No terreno de jogo (melhor, no salão) os praticantes são quase sempre mais do que os espectadores, e isso é uma lição da democracia desportiva. Coisa de que o futebol não se pode orgulhar, mais elitista do que os sacrossantos golfe e ténis, pois é nele que a diferença entre praticantes e público é maior.

E não pensem que o futsal é a ovelha ranhosa da futebolada. Estratégia, técnica e táctica são conceitos tu cá tu lá nos jogos de futsal. Num dos últimos jogos do Louletano, a certa altura os espectadores debruçaram-se ostensivamente sobre a equipa adversária que, à volta do seu treinador, ouviam atentamente as indicações no pequeno quadro magnético. Do outro lado, a equipa do Louletano ouvia classicamente a sinfonia de palavras do seu treinador, argumentando com inflexões de voz, dicção elaborada, voz tonitruante. Na verdade, ele não precisava daquela modernidade, naquele momento. O quadro estava lá e seria usado quando necessário. E o que os espectadores locais queriam não era a absorção do conhecimento de um instrumento moderno e desconhecido, mas simplesmente conhecer as indicações de jogo do adversário, para o perceberem melhor. Que lição de aprendizagem desportiva, hem?

(A Voz de Loulé, 15 Março 08)

Agora que leio o jornal em papel, posso ler nas curtas do António Montes que o treinador de futsal do Louletano, que é referido nesta crónica (Rui Morais), foi substituído pelo seu adjunto (Paulo Cavaco) e antigo jogador. Não sei se por isso, se por aquilo que digo, o que é certo é que o Louletano ganhou, na penúltima jornada, aos Torpedos por grossos 5-1.

sexta-feira, março 14, 2008

Elos, elos

O Luís entrega-me um dos testemunhos. Devo dar continuidade à prova atlética. Aí vai, portanto: ao Almeida, ao Adão, ao Zé Neves, ao Gregório e ao Zé Carlos.

terça-feira, março 11, 2008

Info

Muito trabalho com os meus alunos não me tem deixado escrever por aqui. Conto, em breve, voltar com alguns posts que se vão atrasando, compostos na memória curta mas ainda não editados.

quarta-feira, março 05, 2008

Leituras

Calçada à portuguesa

No dia em que fez 100 anos, Oscar Niemeyer acabou de ler pela centésima vez o romance “Os Maias”. Depois de pousar cuidadosamente o livro sobre a maquete do novo aeroporto de Lisboa, desceu do seu ateliê na cobertura do prédio da Avenida Atlântico, no Rio.

Ler o meu microconto completo na "minguante" nº 9 (link)

domingo, março 02, 2008

Treinador de Bancada 3#

A minha coluna no jornal:

A JANGADA DE RELVA

Bom, eu não queria falar de literatura mas a proposta de Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, obriga-me a isso. Então não é que o homem propõe a organização do campeonato do mundo de futebol de 2018, em conjunto por Portugal e Espanha?

Depois de, no ano passado, ter dito que essa era uma “ideia peregrina”, Madaíl colocou agora o país em alvoroço. O Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, veio rapidamente afirmar que não se deve “vaguear sobre ideias”. Claro que, como se sabe, o governo o que gosta menos é de vaguear sobre ideias. E no futebol, quem já viu alguma ideia a vaguear por aí? Cuidado, pois. É que está muito fresca, nas retinas portuguesas, a imagem dos dez estádios do euro-2004 que trouxeram a glória a Portugal, como nos velhos tempos da expansão, lembram-se? Eu lembro-me bem, nem que seja pelas bandeiras esfarrapadas que esvoaçam nalgumas janelas, ainda recordando as “boutades” de Scolari.

O Presidente da República também não ficou lá muito contente. Ou esperavam que em tempo de vacas magras ele viesse dizer que sim senhor, nós não temos mais nenhuma prioridade, e não são o novo aeroporto ou o TGV que nos vão tirar o sono ou o ordenado ao fim do mês.

Peço desculpa, mas eu desta vez apoio o presidente da Federação. Devo dizer que ele pensa com estratégia. Vê longe e sabe o que diz. Reflictam comigo: então não vamos ter em Portugal um novo aeroporto, que intensificará a vinda de espanhóis ao território português? O comboio de alta velocidade não pretende ligar-nos a Madrid, com maior rapidez? Não temos já um movimento pendular, para aquisição de bens (sobretudo combustível), para lá das fronteiras, de Vilar Formoso a Ayamonte? Então? Qual o problema de organizarmos um campeonato em conjunto com Espanha, digam? E reparem: são as federações que organizam, mas os governos que pagam. E só irão nisso depois de a ideia ter sido “pensada, projectada, estudada e calculada” (Laurentino Dias, dixit). Ou pensam que o governo se mete assim à toa num evento com a projecção patriótica desta envergadura?

Por falar em patriotismo, eu não sei porque é que tanta gente ainda anda a falar das velhas sagas com Castela, dos Filipes que nos governaram e de outros nacionalismos bem mais serôdios. Já perceberam em que mundo vivem, ou não? Pois é, vamos lá então dar lustro aos estádios, que nessa altura bem precisarão, sobretudo o do Algarve, gasto de tanto ser usado por futebolistas, músicos, gaivotas e cegonhas. Portanto, meus amigos, vamos lá pensar, projectar, estudar e calcular, que é o que os portugueses mais gostam de fazer. E os espanhóis também.

A propósito disto, já perceberam que a parte da literatura, que abordo no princípio da crónica, respeita a outra proposta, tão mal recebida por alguns sectores, os mesmos que também não perceberam o alcance geoestratégico de Madaíl. No verão de 2007, em entrevista ao “Diário de Notícias”, Saramago propõe uma União Ibérica entre os dois países da península. A concretização da tese iberista de «A Jangada de Pedra», o romance que abriu o caminho ao exorcismo de Portugal na ilha de Lanzarote. Madaíl leu a obra e, passadas duas décadas, percebeu claramente a forma de a concretizar no mundo do futebol. Pena é que os dirigentes desportivos de Espanha, e o governo de Zapatero, ainda tenham lido pouco do autor, premiado com o Nobel, que vive no seu país. Porque se o tivessem feito, agora estariam na primeira linha da defesa do mundial de futebol de 2018, nos estádios ibéricos de Portugal e de Espanha. E daqui a uns anos, quem sabe, talvez eu escrevesse uma crónica neste jornal, não sobre os estádios, mas sobre os estados. Os estados actuais de Portugal e de Espanha que, para afirmar a sua identidade comum perante a União Europeia, teriam dado o nó numa nova União Ibérica. E assim, eu já não precisaria de ir a Sevilha, para ver a peça de Saramago “In Nomine Dei” representada em castelhano, ou esperar que, só depois de Lanzarote e antes de Madrid e de Nova Iorque, Lisboa pudesse acolher a exposição sobre os 10 anos de Nobel e os 85 do autor.

Mas enfim, como sabem, estas são palavras para amantes de literatura e detractores de futebol.

(1 Março 2008)