domingo, março 30, 2008

Edital

Tenho escrito pouco, por aqui. A razão não se explica só pela falta de tempo, pois a verdade é que não me tem apetecido escrever sobre os quotidianos do país, cheios de telemóveis, %s de iva, a futebolada nacional, os casos da justiça, etc, etc. Tenho-me reservado para outra escrita. Para as crónicas quinzenais sobre desporto em A Voz de Loulé, um compromisso que assumi com o meu amigo Luís Guerreiro, editor no jornal. Mas, sobretudo, para a publicação de textos "literários" em revistas e outras publicações: na revista minguante (imagem e link já colocados ali ao lado no sidebar) e, em selecção, noutras revistas a revelar.
Mudei o "livro de cabeceira", porque apesar do Baudelaire estar ainda por acabar no meu carro, outros se acumulam verdadeiramente na cabeceira, ao lado da cama. Entre eles está a colectânea, de histórias de anónimos americanos, compilada por Paul Auster, cujo significado explicarei em breve, pois tem a ver com um projecto em que colaborarei nas próximas semanas, em Portugal, claro.

quinta-feira, março 27, 2008

À espera...

sentindo o tempo, olhando os pássaros nas águas salobras, lendo A Lagoa de Sherman a conselho do Zé Carlos Fernandes, pensando sobre o mundo e as lógicas da identidade deste país à beira-mar plantado. Até já.

terça-feira, março 18, 2008

Treinador de Bancada

FUTSAL:

um explicável jogo de futuro


Fiquem descansados que não vou falar do Camacho (todos sabemos quem é este antigo jogador do Real Madrid; ah, e também o mais recente ex-treinador do Benfica). A verdade é que, nos últimos dias, este eclipse mediático pareceu obscurecer a marcha de indignação dos professores e a visita do Presidente da República ao Brasil. E tudo por causa da saída de um treinador de uma equipa de futebol, ou da “mea culpa” de um dos capitães da equipa.

Hoje prefiro falar de futsal, essa modalidade híbrida que nos últimos tempos me tem levado ao Pavilhão Desportivo de Loulé, de jornais e moleskine na mão.

O futsal, como o nome indica, é uma modalidade “dois em um”: conjuga o futebol ao mais alto nível e as danças de salão. No meu tempo chamava-se futebol de cinco. Sim, porque se jogava com cinco jogadores a partir pernas uns aos outros nas tabelas de alvenaria que emolduravam o campo, mas que serviam também para executar algumas tabelas do mais digno bilhar de competição. Agora não, o jogo desenrola-se num tapete encerado onde é possível treinar uns carrinhos contra as pernas do adversário. O facto é que as manhas, os truques, as técnicas e outras filosofias do futebol, vêm todas parar ao campo do futsal. Por um lado, é essa a dinâmica e o estilo inato dos jogadores; por outro, os manuais de treinamento são ainda dos craques das Faculdades de Motricidade Humana, viciados em futebol e pouco entendidos em danças de salão. Bem, talvez não seja tanto assim e, convenhamos, os pequenos passes, os corrupios, o picadinho rápido do pé sobre a bola, é muito semelhante ao fox-trot e ao corridinho.

Olhando o jogo de futsal, reconhecemos a dinâmica, a rapidez e o tempo real de jogo, do velho futebol inventado pela burguesia inglesa nos tempos do romantismo. Quando o povo se apropriou da bola e o levou para as ruas, desencadeou um desporto ontológico, de postura e estilo corporal complexos. Sim, porque não me venham dizer que a modernidade é que o desenvolveu. O que a modernidade fez foi matá-lo. Como? Deixou a economia gerir a bola e a sociologia ter de explicar o hooliganismo.

Mas, e o futsal? Ah, esse devolveu-nos a proximidade e a democracia. A proximidade, porque nós estamos ali a ouvir as indicações do treinador e os célebres gritos de guerra dos jogadores (hey) a aplaudir todas as jogadas. Quando o barulho é muito, ou a Sic transmite os jogos de futsal do Benfica, não há nada que nos afaste. Coloca-se um micro na lapela do treinador e ouve-se tudo. Daqui a uns anos, um microprocessador embutido na fronte cerebral de cada treinador permitirá conhecer as suas visões mais eróticas sobre o jogo. E que dizer da capacidade democrática do futsal? Bem, reparem que nada há de maior igualdade e cidadania. No terreno de jogo (melhor, no salão) os praticantes são quase sempre mais do que os espectadores, e isso é uma lição da democracia desportiva. Coisa de que o futebol não se pode orgulhar, mais elitista do que os sacrossantos golfe e ténis, pois é nele que a diferença entre praticantes e público é maior.

E não pensem que o futsal é a ovelha ranhosa da futebolada. Estratégia, técnica e táctica são conceitos tu cá tu lá nos jogos de futsal. Num dos últimos jogos do Louletano, a certa altura os espectadores debruçaram-se ostensivamente sobre a equipa adversária que, à volta do seu treinador, ouviam atentamente as indicações no pequeno quadro magnético. Do outro lado, a equipa do Louletano ouvia classicamente a sinfonia de palavras do seu treinador, argumentando com inflexões de voz, dicção elaborada, voz tonitruante. Na verdade, ele não precisava daquela modernidade, naquele momento. O quadro estava lá e seria usado quando necessário. E o que os espectadores locais queriam não era a absorção do conhecimento de um instrumento moderno e desconhecido, mas simplesmente conhecer as indicações de jogo do adversário, para o perceberem melhor. Que lição de aprendizagem desportiva, hem?

(A Voz de Loulé, 15 Março 08)

Agora que leio o jornal em papel, posso ler nas curtas do António Montes que o treinador de futsal do Louletano, que é referido nesta crónica (Rui Morais), foi substituído pelo seu adjunto (Paulo Cavaco) e antigo jogador. Não sei se por isso, se por aquilo que digo, o que é certo é que o Louletano ganhou, na penúltima jornada, aos Torpedos por grossos 5-1.

sexta-feira, março 14, 2008

Elos, elos

O Luís entrega-me um dos testemunhos. Devo dar continuidade à prova atlética. Aí vai, portanto: ao Almeida, ao Adão, ao Zé Neves, ao Gregório e ao Zé Carlos.

terça-feira, março 11, 2008

Info

Muito trabalho com os meus alunos não me tem deixado escrever por aqui. Conto, em breve, voltar com alguns posts que se vão atrasando, compostos na memória curta mas ainda não editados.

quarta-feira, março 05, 2008

Leituras

Calçada à portuguesa

No dia em que fez 100 anos, Oscar Niemeyer acabou de ler pela centésima vez o romance “Os Maias”. Depois de pousar cuidadosamente o livro sobre a maquete do novo aeroporto de Lisboa, desceu do seu ateliê na cobertura do prédio da Avenida Atlântico, no Rio.

Ler o meu microconto completo na "minguante" nº 9 (link)

domingo, março 02, 2008

Treinador de Bancada 3#

A minha coluna no jornal:

A JANGADA DE RELVA

Bom, eu não queria falar de literatura mas a proposta de Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, obriga-me a isso. Então não é que o homem propõe a organização do campeonato do mundo de futebol de 2018, em conjunto por Portugal e Espanha?

Depois de, no ano passado, ter dito que essa era uma “ideia peregrina”, Madaíl colocou agora o país em alvoroço. O Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, veio rapidamente afirmar que não se deve “vaguear sobre ideias”. Claro que, como se sabe, o governo o que gosta menos é de vaguear sobre ideias. E no futebol, quem já viu alguma ideia a vaguear por aí? Cuidado, pois. É que está muito fresca, nas retinas portuguesas, a imagem dos dez estádios do euro-2004 que trouxeram a glória a Portugal, como nos velhos tempos da expansão, lembram-se? Eu lembro-me bem, nem que seja pelas bandeiras esfarrapadas que esvoaçam nalgumas janelas, ainda recordando as “boutades” de Scolari.

O Presidente da República também não ficou lá muito contente. Ou esperavam que em tempo de vacas magras ele viesse dizer que sim senhor, nós não temos mais nenhuma prioridade, e não são o novo aeroporto ou o TGV que nos vão tirar o sono ou o ordenado ao fim do mês.

Peço desculpa, mas eu desta vez apoio o presidente da Federação. Devo dizer que ele pensa com estratégia. Vê longe e sabe o que diz. Reflictam comigo: então não vamos ter em Portugal um novo aeroporto, que intensificará a vinda de espanhóis ao território português? O comboio de alta velocidade não pretende ligar-nos a Madrid, com maior rapidez? Não temos já um movimento pendular, para aquisição de bens (sobretudo combustível), para lá das fronteiras, de Vilar Formoso a Ayamonte? Então? Qual o problema de organizarmos um campeonato em conjunto com Espanha, digam? E reparem: são as federações que organizam, mas os governos que pagam. E só irão nisso depois de a ideia ter sido “pensada, projectada, estudada e calculada” (Laurentino Dias, dixit). Ou pensam que o governo se mete assim à toa num evento com a projecção patriótica desta envergadura?

Por falar em patriotismo, eu não sei porque é que tanta gente ainda anda a falar das velhas sagas com Castela, dos Filipes que nos governaram e de outros nacionalismos bem mais serôdios. Já perceberam em que mundo vivem, ou não? Pois é, vamos lá então dar lustro aos estádios, que nessa altura bem precisarão, sobretudo o do Algarve, gasto de tanto ser usado por futebolistas, músicos, gaivotas e cegonhas. Portanto, meus amigos, vamos lá pensar, projectar, estudar e calcular, que é o que os portugueses mais gostam de fazer. E os espanhóis também.

A propósito disto, já perceberam que a parte da literatura, que abordo no princípio da crónica, respeita a outra proposta, tão mal recebida por alguns sectores, os mesmos que também não perceberam o alcance geoestratégico de Madaíl. No verão de 2007, em entrevista ao “Diário de Notícias”, Saramago propõe uma União Ibérica entre os dois países da península. A concretização da tese iberista de «A Jangada de Pedra», o romance que abriu o caminho ao exorcismo de Portugal na ilha de Lanzarote. Madaíl leu a obra e, passadas duas décadas, percebeu claramente a forma de a concretizar no mundo do futebol. Pena é que os dirigentes desportivos de Espanha, e o governo de Zapatero, ainda tenham lido pouco do autor, premiado com o Nobel, que vive no seu país. Porque se o tivessem feito, agora estariam na primeira linha da defesa do mundial de futebol de 2018, nos estádios ibéricos de Portugal e de Espanha. E daqui a uns anos, quem sabe, talvez eu escrevesse uma crónica neste jornal, não sobre os estádios, mas sobre os estados. Os estados actuais de Portugal e de Espanha que, para afirmar a sua identidade comum perante a União Europeia, teriam dado o nó numa nova União Ibérica. E assim, eu já não precisaria de ir a Sevilha, para ver a peça de Saramago “In Nomine Dei” representada em castelhano, ou esperar que, só depois de Lanzarote e antes de Madrid e de Nova Iorque, Lisboa pudesse acolher a exposição sobre os 10 anos de Nobel e os 85 do autor.

Mas enfim, como sabem, estas são palavras para amantes de literatura e detractores de futebol.

(1 Março 2008)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Investigando

Quase 40 anos antes de cair da cadeira e prenunciar a sua morte, este estafermo já andava a dar quedas desastrosas [fonte: Folha de Alte, 1 Junho 1929].

sábado, fevereiro 23, 2008

Arbeit


Trabalho, muito trabalho, por estes dias de sol, de vento sueste, de chuva e de cheias. Os resultados do trabalho com os meus alunos vão deixando sinais nas páginas da Voz de Loulé (link), na Rádio Universitária do Algarve (link) e nos caminhos da Tôr: fotos e vídeos.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Sismo no Algarve?

Segundo o Observatório do Algarve, de hoje (link), um sismo no Algarve com a magnitude do de 1755, causaria cerca de 3000 mortos. No Correio da Manhã de ontem, falava-se em 12.000 mortos potenciais. Dia após dia as contas descem. Não é bom, nem é mau sinal. Mas devíamos entender-nos, não?

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Eclipse da lua


Eclipse da lua, em Loulé, na madrugada de hoje
(fotos Deanna Raimundo)

Manifesto Comunista

Sim, também eu o li e aprendi por ele, as explicações do mundo. Faz, hoje, 160 anos, que foi publicado pela primeira vez, da autoria de Marx e Engels, o «Manifesto do Partido Comunista» (link).

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Auto-retrato

Há precisamente 4 anos iniciava uma nova forma de escrita. Tinha lido alguns blogs, que me interessaram enquanto veículo de expressão. Na altura, escrevia a crónica "Contrasenso", no jornal A Voz de Loulé, e este factor fez-me avançar para a criação de um blogue com o mesmo nome. Aliás, a primeira postagem, de 19 de Fevereiro de 2004, foi uma nota sobre as crónicas que estava publicando no jornal. Abri o blogue no servidor do Sapo, pois desconhecia ainda a plataforma Blogger, para a qual vim a mudar por ineficácia daquele, e na qual ainda me mantenho hoje em dia, inclusive com os meus restantes blogues.
Inicio, assim, o 5º ano na blogosfera. Por isso, substituo a minha caricatura feita pelo amigo Adão Contreiras, por outra desenhada pelo Vicente de Brito, médico e pintor, na altura da iniciativa de homenagem a Timor, realizada em Loulé, em 1992. Vicente de Brito que, por estes dias, mostra uma exposição na Galeria de Arte da cidade.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Chuva, mais

Quando escrevi o post abaixo, estava apenas a construir memória social. Depois dos acontecimentos da madrugada e manhã do dia de hoje, no distrito de Lisboa sobretudo, verificámos que a história se repete sempre, de forma circular. E, provavelmente, de forma catastrófica também.

Chuva

Na RTP1 discutem-se as cheias de 1967, nas quais morreram milhares de pessoas, nos concelhos à volta de Lisboa. Tinha 10 anos na altura, mas lembro-me dos comentários sobre as desgraças, muito próximas das nossas, ali junto do leito argiloso e arenoso do Rio Arade. Se foi um motivo para os estudantes de Lisboa iniciarem um caminho de busca ideológica, pela prática da vida, para mim serviu-me, sempre, para amar a chuva, a água derramada fresca dos céus. País pobre, onde as pessoas morriam nas cheias, país de fé, que armava romarias a pedir água de Deus, país triste que censurava os números da catástrofe. Ontem, de madrugada, choveu. Agora, madrugada de segunda, chove ainda.

domingo, fevereiro 17, 2008

Visto da minha janela

[Pinheiros bravos numa manhã de São Miguel/Odemira]

sábado, fevereiro 16, 2008

Visto da minha janela

[Molas coloridas na transversalidade dos pinheiros, em São Miguel/Odemira]

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Treinador de Bancada #2

A minha coluna no jornal:

O RALI LISBOA-ALCOCHETE

Confesso que nunca fui muito de me deslumbrar por desportos motorizados. Tirando, claro, a curiosidade adolescente das primeiras mostras de carros, em que íamos mais para ver as miúdas do que para olhar as viaturas pintalgadas de cores berrantes e estampadas de reclamos baratos de marcas de tintas e bebidas. Apesar de ter licenças para conduzir automóveis, velocípedes com motor e até embarcações de 12 metros, recuso a velocidade gratuita e sobranceira dos automóveis nas estradas. Dos camiões e das motas, também.

Vem isto a propósito do cancelamento do rali Lisboa-Dakar, 2008, de que quero falar. Como se sabe, foi uma ameaça das células argelinas da Al-Qaeda que desencadeou o cancelamento da prova pela Amaury Sports Organisation, e que pôs a chorar organizadores e patrocinadores da prova. Os autarcas de Portimão e de Alcochete exigiram recompensas monetárias pelos prejuízos e João Lagos prometeu fazer a prova sozinho, montado num camelo (como aparece na capa da revista Única, do Expresso, de 26 de Janeiro passado).

Ao contrário dos choros, eu ri-me à gargalhada. Não porque achasse que o governo francês, que ordenou o cancelamento, se estivesse a submeter ao fundamentalismo de grupos terroristas. Ou porque ficasse com muita pena da “Total”, patrocinadora estatal do combustível, agora desarredada da exploração do petróleo da Mauritânia. Antes, porque seria uma oportunidade para criar uma alternativa: a do rali Lisboa-Alcochete (sabem, um deserto ali na margem sul do Tejo). Bom, é claro que me ri por outras razões: por exemplo, por ver a partida de dois motociclistas, com bandeirinha e tudo. Ou por ver, na televisão, aquela comitiva bucólica de jipes de Portimão que foram em romaria pelo percurso do Dakar.

Certo, certo é que, a minha opinião, não andará muito longe do que irá suceder em 2009. Primeiro, a organização apostou na ideia Lisboa-qualquer coisa na Polónia (o país mais importante dos novos membros europeus de Leste) e, por estes dias, fala-se da América Latina, Brasil, Chile, Argentina, por aí. Como já se percebeu, os motoristas de carros, motas e camiões gostam mesmo é de desertos, quer sejam os do Kahalaari ou da Patagónia. O que não deixa de ser sintomático, para perceber o carácter neo-colonialista da prova.

Porque se insiste tanto em África? Simples. Porque a melhor forma de desenvolver a solidariedade com os países africanos, é fazer roncar os motores por aquelas aldeias pobres e por terras tão rústicas, derramando milhares de litros de combustível, entre os olhos esbugalhados de meia dúzia de tuareges, convidados à publicidade do ocidente europeu.

Lembram-se de Rommel, o marechal nazi dos panzers alemães? À sua maneira, ele também queria pacificar aquelas terras. Se muitos países europeus colonizaram África, porque não voltar lá a toda a hora, mostrando a habitual sobranceria europeia dum rali cor-de-rosa. É que, na verdade, eu nunca percebi para que é que aquilo serve. Que raio de desporto é aquele? Talvez o leitor me possa elucidar e explicar que a estética está no romantismo das casas de adobe e das palmeiras verdejantes. Ou que a ética está no consumo do petróleo e nos inolvidáveis percursos nas dunas gigantes. Como se sabe, a comitiva do Dakar estabelece imensos laços de afecto e grandiosos momentos de convívio fraterno entre os povos, sobretudo com as crianças.

Coloquemo-nos, então, do lado de lá. Do lado daqueles imigrantes marroquinos, ansiosos por experimentar esse paraíso terreal do ocidente, que a publicidade do Dakar vende nos media globalizados. Sim, esses, por exemplo aqueles que navegaram à bolina no “cayuco” de 25 cavalos e aportaram ali na Ilha da Culatra, estão, hoje, quase todos nas choldras de Casablanca, entre criminosos comuns. E que conste, eles talvez viessem apenas ver a partida do rali Lisboa-Dakar, em Portimão. Mas se o Dakar teve honras de noticiário a toda a hora, os imigrantes marroquinos viajaram com toda a discrição, a pedido do seu governo e com a mãozinha do nosso.

Enfim, acho que, por agora, nos deveríamos contentar com umas fotos registadas ali no Terreiro do Paço, junto de um monte de areia e de um camelo trazidos de Alcochete. E, se possível, com os pés numa bacia de água morna. E se um banco, uma seguradora, ou uma operadora telefónica nos pagasse, seria a cereja em cima do bolo.

(15 Fevereiro 2008)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Socializar por aí

Foi com entusiasmo que ouvi a 1ª emissão do programa Socializar por aí, que produzi, com a colaboração de uma equipa de docentes e alunos, para a Rádio Universitária do Algarve (Rua Fm). Engraçado que o nome do programa, que foi escolhido pela equipa, repesca o nome do blogue que mantenho desde há quase 4 anos para o meu trabalho académico. A edição vai para o ar todas as 5ªs, das 19 às 20h em 102.7 Mhz: entrevistas, música, crónicas, testemunhos, agendas e outras novidades. A ouvir, meus amigos (link).

Apanhar o que cai

Um texto portentoso do João Ventura:
Eis onde Flaubert não acertou. É que, se bem antecipou o triunfo do aborrecimento no apogeu da primeira modernidade, não poderia imaginar que o hedonismo indiferente que se vai espalhando por aí é determinado pela natureza pulverizadora do nihilismo pós-moderno, incoincidente com a noção de tédio geradora de opções transgressoras de vida ou de revolta social que marcou a experiência de vida no século passado.
A ler com devoção -->