segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um conto de Natal

Em Dezembro de 1991 escrevi uma micro-história de Natal, para integrar a recensão de um excelente livro da amiga Glória Marreiros intitulado «Um Algarve Outro: contado de boca em boca». O texto destinava-se a ser publicado na antiga Agenda Cultural e Desportiva da Câmara Municipal de Loulé, de Janeiro de 1992. Este Dezembro, com vista a outro formato de divulgação de pequenas histórias, retoquei o conto, que vos deixo no dia de hoje, véspera de todas as esperanças:

UM CHALÉ NA PRAIA DA ROCHA

O campeonato do mundo de futebol, em Inglaterra, já lá ia há muito. Todos se lembravam do jogo contra a Coreia, que Portugal tinha ganho por cinco a três, depois de estar a perder por três bolas a zero. E do Eusébio, que marcava os golos e imediatamente retirava a bola do fundo das redes. A televisão era a preto e branco nessa altura. E o país também, muito mais preto do que branco. Para eles, que eram todos jovens, brancura, só mesmo no Natal: nas geadas da manhã, quando acordavam, nas neves de que ouviam falar aos seus amigos serrenhos de Monchique e nos algodões alvos, das decorações do presépio. Sim, neste tempo o Pai Natal não existia, ainda não tinha sido inventado pelo comércio das bugigangas dos centros comerciais. Só o Menino Jesus tinha o direito de vaguear pelos sonhos dos meninos e, esse, só descia pelas chaminés noite dentro, na madrugada de 25 de Dezembro. Era pouco o que deixava. Um copo de plástico e uma laranja foi o que o Zezé ganhou, nesse ano. Às vezes, lá deixava uns bombons da Regina, umas peúgas de lã ou um prato de filhós de batata-doce e chocolate.

Nessa noite, saíram em grupo, do bairro industrial sujo e frio, alagado em água salgada e marismas, onde viviam desde que nasceram, ali perto da fábrica de conservas. Em bando, e esfriados, percorreram os poucos quilómetros que os separavam da Praia da Rocha, paraíso da alta burguesia da cidade.

Estavam agasalhados com blusas de lã, refeitas de outras velhas blusas já usadas e casacos coçados dos pais, que lhes cobriam as pernas. Entre as poucas ruas da urbe, tentavam orientar-se timidamente, junto dos chalés de telha preta e janelas de veneziana. A algumas casas era difícil aceder, pois estavam rodeadas de gradeamentos de ferro encimados por espigões, ou guardadas por cães esquisitos, desenhados nas fronteiras das entradas.

Nunca nenhum deles tinha feito semelhante coisa. Não tinham experiência alguma, mas a leveza do prato de caldo verde no estômago, a curiosidade e o advento de uma adolescência presumivelmente escura e sinuosa, levou-os a decidir. Escolheram uma casa de dois andares e pátio de fácil acesso. A porta era de cor castanha e de aspecto pesado e tinha no centro um batente circular, de ferro. Olharam à volta, a noite de Janeiro estava escura, não se via vivalma e, sem barulho, avançaram todos para a porta. A calma era convidativa e o breu da noite ofuscava deliberadamente os seus rostos. De repente, no silêncio ressonante da noite, surge uma melopeia sentida e tristonha, como que vinda do além:

Esta noite é de Janeiras
É de grande merecimento
Por ser a noite primeira
É que Deus passou tormento.

Ensaiada e límpida, a voz do ponto viu-se acompanhada, de imediato, por todo o coro: putos de mãos nos bolsos e boinas de feltro na cabeça, que contavam a história de Cristo, menino como eles, e que rogavam pedidos complacentes aos donos da casa:

Senhora que estais lá dentro
Deixe-se estar que está bem
Mande-nos dar a esmola
Por essa filha que aí tem.

Janeiras cantadas, nervosismo aliviado, a resposta da casa, desta vez, tardou. De dentro do chalé fino não surgia qualquer indício de presença humana, nem luz nem vozes. Poderiam estar a dormir, mas era ainda cedo na noite de sono. Mas, se havia um batente de ferro, o melhor seria retinir um som suave na porta da casa. O barulho do ferro a malhar ecoou na noite escura e silenciosa. E ninguém respondeu. Tudo ficou na mesma e o desalento, pela experiência frustrada, começava a ensombrar os rostos dos putos. E foi nesse momento que um dos amigos reparou. Sobre o batente, bem ao meio da larga porta, estava pendurado um arranjo de azevinho e papel de lustro, em formato de coroa. Ausentes de casa, os donos não quiseram deixar de felicitar e de agradecer aos visitantes, em noite tão sagrada e solitária.

Os miúdos desconheciam a mensagem do arranjo de Natal na porta. No seu bairro, nunca tal tinham visto. Até que um deles chamou a atenção para uma eventual morte. E pensando que tinha morrido alguém em noite tão adventícia, fugiram amedrontados, para bem longe da casa assombrada. Refugiaram-se o resto da noite no seu bairro. Até um dia, em que um lençol de areia cobriu o antigo espaço das casas, transformando o bairro em porto comercial da cidade.

Hoje, esta história deve ser uma das suas boas memórias desses tempos de infância.

Loulé/Algarve
Dezembro 1991/Dezembro 2007
Helder F. Raimundo.


José Carlos Fernandes no Expresso

O Expresso tem, desde há umas semanas, dois desenhadores de peso. Filipe Abranches ilustra a página de opinião do caderno principal. José Carlos Fernandes ilustra o destaque do caderno de economia. É bom ter o Zé Carlos, de novo, na imprensa escrita. Depois de a nova direcção do Diário de Notícias (com o inigualável Marcelino, vindo do Record, à cabeça) o ter ignorado, após muitos anos de colaboração na página da “Geração de 70” (Pedro Lomba e João Miguel Tavares), olhar os seus desenhos de sépia, ali naquelas páginas tamanho broadsheet, é muito agradável.

domingo, dezembro 23, 2007

Best of 2007

Até ao final do ano irei destacar aqui algumas escolhas do ano de 2007: blogues, músicas/cantores, revistas, media, tecnologia, literatura, etc, que marcaram o ano com o seu rasgo, aparecendo ou desaparecendo ao meu olhar. Quem quiser contribuir com novidades pode escrever para: comunitario arroba sapo ponto pt

Bela série

Há cerca de duas semanas, o meu filho mais novo fracturou um cotovelo e foi operado nessa mesma noite. De volta em volta, no Hospital de Faro, utilizou o sistema de cirurgia ambulatória, com recobro e restabelecimento em casa junto de quem o ama, e portanto, longe da bacteriologia infecciosa dos corredores hospitalares. Uma medida que se elogia, uma ideia do médico Castro Alves (Entidade Reguladora da Saúde) que a bebeu no Cook County Chicago. Esse mesmo, aquele no qual se filma ER (“Serviço de Urgência”). Quem havia de dizer.

Que fado!

Depois de muitas hesitações – começa a ser uma atitude intrínseca – o Ministério da Cultura de Portugal adquiriu a colecção fabulosa de gravações de fado, ao coleccionador inglês Bruce Bastin. Uma vergonha se tal não acontecesse, pois são mais de oito mil fonogramas. O facto de o advogado do coleccionador ser José Alberto Sardinha (um amigo e colega das recolhas etnomusicológicas) deve ter pesado na decisão da ministra. Para bem do espólio musical, espero bem que sim, pois sempre são 1,1 milhões de euros.

sábado, dezembro 22, 2007

Inquisição

Também refiro o "Index da ASAE" postado pelo Daniel Oliveira no Arrastão (belo nome hem?). Castanhas assadas em papel reutilizado das páginas amarelas? Esqueçam. Tal como muitas outras coisas. A estupidez da ASAE pode ser contrariada através da subscrição de uma petição. Eu já o fiz.

Contra o fumo, marchar, marchar

Parece que mais de 80% dos restaurantes e cafés – para além dos hotéis – vão proibir o fumo no seu território. Está na altura de respirar um ar menos poluído quando comemos ou simplesmente bebemos um café. A partir de 1 de Janeiro começa a denúncia popular da patrulha ecológica. Eu alinho. Detesto fumar os cigarros dos outros. Ali à direita já está o meu manifesto.


Recortes de imprensa

J.L. Saldanha Sanches, no caderno de economia do Expresso, 15 Dezembro 2007:

As aparências iludem: as máfias a trovejarem violência e morte são plantas muito delicadas; só conseguem crescer em certos climas. Depois de crescerem ganham raízes e tornam-se mais fortes. Mas serão sempre plantas de estufa que não suportam o frio ou os ventos fortes (...)

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A carta da Farinha Amparo

Em viagem até à fronteira espanhola, hoje, devo ter visto cerca de uma dezena de carros parados na berma da Via do Infante. Pelo menos três estavam acidentados. Mesmo assim, e apesar da chuva intensa e neblina cerrada, muitos condutores circulavam a mais de 120 à hora, alguns deles de luzes apagadas, com medo de gastar energia, certo? Bem dizia José Megre há vários anos: o problema da sinistralidade rodoviária não é causado pelo mau estado das estradas ou pela ausência de sinalização. Nem nessa altura nem muito menos agora. O problema, qual é então? A azelhice dos condutores. Essa é a verdade. Grande parte das cartas de condução saíram na farinha Amparo como sabemos e, por isso, se saúdam as novas medidas a implementar no próximo ano. Entre outras coisas, uma carta com pontos, que se retiram à medida que se multiplicam infracções, até à derrota final. E era bom que, no vidro dianteiro, as asneiras destes condutores estivessem bem assinaladas, através de cores apropriadas. Com a vida dos outros não se brinca.

Girando o dedinho

As crónicas de Luís Fernando Veríssimo, no Expresso, são obrigatórias. Para além de um humor inteligente o cronista é um excelente contador de histórias, quer sejam de ficção quer sejam de realidades bem presentes. Da última – que aborda os gestos relacionados com o acto de telefonar – respigo este excerto:

Outro gesto datado é girar o dedo no ar. Do tempo em que os telefones tinham discos, lembra? Você introduzia o dedo no buraco correspondente ao número desejado e rodava o disco. Fazer isso em forma de mímica deixava claro para a pessoa distante que você se referia ao telefone (…) a não ser que você a estivesse convidando para dançar. (…) Já existe toda uma geração que nasceu, cresceu e se tornou adulta na era pós-disco e para a qual o dedo girando no ar também perdeu qualquer sentido.

Lendo isto, veio-me à cabeça que o telefone do meu gabinete na Escola Superior de Educação, em Faro, é um telefone de disco. Seja por falta de dinheiro ou por qualquer outro motivo trivial, o que é certo é que ele respeita a minha geração: a que usava o dedo girando no ar para convidar a moça para dançar.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Em dia de chuva,

a praia do Amado/Aljezur.
[foto de Deanna Raimundo]

Minguante em crescendo

Há tempos que queria falar da revista minguante. Pequena, como convém, a albergar pequenos contos (microcontos) de várias paragens, já do Brasil e de Espanha, alfobres das pequenas histórias e de famosos cultores do género. Lembram-se de Cortázar?
Entre outros, por detrás do trabalho da Minguante, está o meu amigo Luís Ene, incansável a respirar texto por todos os poros. Gosto sempre de o ler e sei o trabalho que dá manter uma revista on-line com uma qualidade mínima, aberta a participações várias.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Acuerdo

O acordo ortográfico entre Portugal e Brasil volta a atacar. E bem. Depois das palhaçadas com a língua que muitos dos nossos escritores fizeram (lembro textos de Baptista Bastos) agora, Graça Moura mantém a defesa da honra, explicando que quem ganha com isso é a indústria do livro brasileiro. And so what? Não estamos todos fartos de desperdiçar letrinhas que bem poderiam ir parar a uma bela sopa? Ação pois, na direção de um acordo moderno.
Entretanto, enquanto alguns portugueses defenderem Eça como o maior escritor da língua portuguesa e “Os Maias” como a melhor obra da língua, estaremos mal. Peguem lá n’ “As Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis e vejam se aprendem.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Máquina de desenhar a lápis

No último Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), a Fábrica de Lápis Viarco apresentou uma magnífica exposição sobre a história, o processo de fabrico e o uso do lápis produzido em Portugal. Pascal Nordmann, a convite da empresa, concebeu uma instalação curiosa, "Uma máquina de desenhar a lápis". Veja o clip:


[vídeo de Deanna Raimundo]

Fundo negro

Para quem estranha os fundos negros dos blogs, ou de outros sítios na net, convém ler este artigo no Observatório do Algarve.

Leitura de imprensa

O texto que publiquei na Voz de Loulé de 15 de Dezembro,
na rubrica Prática Social, pode ser lido aqui.

Ler também a crónica de João Miguel Tavares, no Diário de Notícias, sobre "a criança" como centro do mundo nas histórias infantis da modernidade.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Imigrantes no Algarve

Junto à Ilha da Culatra, ali mesmo frente a Olhão, 23 marroquinos foram retirados de um pequeno bote depois de quatro dias à deriva nas correntes de levante. Têm entre 25 e 30 anos e são dos dois géneros, mais homens que mulheres, claro. Os responsáveis do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, apressaram-se a declarar o carácter excepcional do facto, bem como a acentuar que o Algarve não é uma "zona de risco". Alguns imigrantes entrevistados referiram o seu desejo de rumar a Espanha, mas outros mostraram que ficar cá não os desagradaria. Não vai ser a última vez. Preparemo-nos para isso, alertando para os perigos da imigração clandestina, mas lembremo-nos de que fomos emigrantes, de "salto", em toda a Europa e deixemo-nos de xenofobias.

Ainda sobre a Cimeira UE-África

Parece que houve uma cimeira UE-África lá em cima em Lisboa. Kadhafy apascentou camelos e o camelo do Mugabe apascentou-se a ele próprio. Mas, na verdade, quem fez figura de bom pastor foi a presidência portuguesa.

O cartoonista Luís Afonso, no Público, propõe um olhar pós-colonial sobre o tema:


domingo, dezembro 16, 2007

E viva a série B

Bee Movie (pode traduzir-se como uma homenagem a filmes da série B) nasce de uma ideia de Jerry Seinfeld. Pois é, o cómico da televisão que transformou uma série sobre coisas banais da vida, numa série de culto. Agora, por ter escrito o argumento do filme da abelha, é levado muito pouco em conta pela crítica, o que é estúpido (ver o “Actual” do Expresso de hoje, ou a Time Out).
O filme assenta na ideia de uma abelha reformadora que coloca os humanos em tribunal, para contestar a roubalheira do mel que produzem há milénios. Apesar de pequenos momentos mais lamechas, o filme é inteligente e vive muito mais do humor verbal do que dos gags da própria animação. A comissão de espectáculos não sabe como classificá-lo e com razão. Os diálogos são muito adultos, apesar de serem perceptíveis por crianças a partir dos 6 anos, se acompanhados como deve ser pelos pais, claro. E a animação ajuda. As vozes de Barry B. Benson (a abelha protagonista), quer na versão original, com Seinfeld, quer na versão portuguesa, com Nuno Markl, dão um toque maduro q.b. e retiram a infantilidade que se espera, sempre, das vozinhas dos desenhos animados destas histórias.
No fim, podemos confirmar o génio de Seinfeld, na fala do mosquito Black, que aparece de pasta na mão, como advogado substituto de Barry e que responde à vaca malhada que protestava contra a roubalheira do seu leite pelos humanos: “Bom, eu sempre fui um parasita, só me faltava mesmo uma pasta para também ser um advogado”. Genial, não vos parece?

sábado, dezembro 15, 2007

Pop retro

Ouviu-os há uns dias, de manhã, no programa do João Adelino Faria no Rádio Clube Português. Deram uma entrevista a defender a música portuguesa de antanho: Max, Amália, etc. Os Donna Maria são três: Miguel Majer e Ricardo Santos, nos instrumentos; e Marisa Pinto, uma voz feminina a lembrar alguns efeitos vocais dos primeiros temas dos Entre Aspas. O grupo respira muita fusão por ali, cheio das boas influências da pop portuguesa dos anos 90. Hoje ouviu-os, de novo, no programa Nuno & Nando (Nuno Markl e Fernando Alvim) nas manhãs de sábado, na Antena 3 e tanto que me soou a Amélia Muge. Mas é bom, bastante bom. Um dos clips do álbum de estreia, “Música para ser Humano”, tem realmente um design cinematográfico retro, que se elogia. Vamos vê-lo e comprovar o que digo:




[Há Amores Assim]