sexta-feira, dezembro 21, 2007

Girando o dedinho

As crónicas de Luís Fernando Veríssimo, no Expresso, são obrigatórias. Para além de um humor inteligente o cronista é um excelente contador de histórias, quer sejam de ficção quer sejam de realidades bem presentes. Da última – que aborda os gestos relacionados com o acto de telefonar – respigo este excerto:

Outro gesto datado é girar o dedo no ar. Do tempo em que os telefones tinham discos, lembra? Você introduzia o dedo no buraco correspondente ao número desejado e rodava o disco. Fazer isso em forma de mímica deixava claro para a pessoa distante que você se referia ao telefone (…) a não ser que você a estivesse convidando para dançar. (…) Já existe toda uma geração que nasceu, cresceu e se tornou adulta na era pós-disco e para a qual o dedo girando no ar também perdeu qualquer sentido.

Lendo isto, veio-me à cabeça que o telefone do meu gabinete na Escola Superior de Educação, em Faro, é um telefone de disco. Seja por falta de dinheiro ou por qualquer outro motivo trivial, o que é certo é que ele respeita a minha geração: a que usava o dedo girando no ar para convidar a moça para dançar.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Em dia de chuva,

a praia do Amado/Aljezur.
[foto de Deanna Raimundo]

Minguante em crescendo

Há tempos que queria falar da revista minguante. Pequena, como convém, a albergar pequenos contos (microcontos) de várias paragens, já do Brasil e de Espanha, alfobres das pequenas histórias e de famosos cultores do género. Lembram-se de Cortázar?
Entre outros, por detrás do trabalho da Minguante, está o meu amigo Luís Ene, incansável a respirar texto por todos os poros. Gosto sempre de o ler e sei o trabalho que dá manter uma revista on-line com uma qualidade mínima, aberta a participações várias.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Acuerdo

O acordo ortográfico entre Portugal e Brasil volta a atacar. E bem. Depois das palhaçadas com a língua que muitos dos nossos escritores fizeram (lembro textos de Baptista Bastos) agora, Graça Moura mantém a defesa da honra, explicando que quem ganha com isso é a indústria do livro brasileiro. And so what? Não estamos todos fartos de desperdiçar letrinhas que bem poderiam ir parar a uma bela sopa? Ação pois, na direção de um acordo moderno.
Entretanto, enquanto alguns portugueses defenderem Eça como o maior escritor da língua portuguesa e “Os Maias” como a melhor obra da língua, estaremos mal. Peguem lá n’ “As Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis e vejam se aprendem.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Máquina de desenhar a lápis

No último Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), a Fábrica de Lápis Viarco apresentou uma magnífica exposição sobre a história, o processo de fabrico e o uso do lápis produzido em Portugal. Pascal Nordmann, a convite da empresa, concebeu uma instalação curiosa, "Uma máquina de desenhar a lápis". Veja o clip:


[vídeo de Deanna Raimundo]

Fundo negro

Para quem estranha os fundos negros dos blogs, ou de outros sítios na net, convém ler este artigo no Observatório do Algarve.

Leitura de imprensa

O texto que publiquei na Voz de Loulé de 15 de Dezembro,
na rubrica Prática Social, pode ser lido aqui.

Ler também a crónica de João Miguel Tavares, no Diário de Notícias, sobre "a criança" como centro do mundo nas histórias infantis da modernidade.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Imigrantes no Algarve

Junto à Ilha da Culatra, ali mesmo frente a Olhão, 23 marroquinos foram retirados de um pequeno bote depois de quatro dias à deriva nas correntes de levante. Têm entre 25 e 30 anos e são dos dois géneros, mais homens que mulheres, claro. Os responsáveis do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, apressaram-se a declarar o carácter excepcional do facto, bem como a acentuar que o Algarve não é uma "zona de risco". Alguns imigrantes entrevistados referiram o seu desejo de rumar a Espanha, mas outros mostraram que ficar cá não os desagradaria. Não vai ser a última vez. Preparemo-nos para isso, alertando para os perigos da imigração clandestina, mas lembremo-nos de que fomos emigrantes, de "salto", em toda a Europa e deixemo-nos de xenofobias.

Ainda sobre a Cimeira UE-África

Parece que houve uma cimeira UE-África lá em cima em Lisboa. Kadhafy apascentou camelos e o camelo do Mugabe apascentou-se a ele próprio. Mas, na verdade, quem fez figura de bom pastor foi a presidência portuguesa.

O cartoonista Luís Afonso, no Público, propõe um olhar pós-colonial sobre o tema:


domingo, dezembro 16, 2007

E viva a série B

Bee Movie (pode traduzir-se como uma homenagem a filmes da série B) nasce de uma ideia de Jerry Seinfeld. Pois é, o cómico da televisão que transformou uma série sobre coisas banais da vida, numa série de culto. Agora, por ter escrito o argumento do filme da abelha, é levado muito pouco em conta pela crítica, o que é estúpido (ver o “Actual” do Expresso de hoje, ou a Time Out).
O filme assenta na ideia de uma abelha reformadora que coloca os humanos em tribunal, para contestar a roubalheira do mel que produzem há milénios. Apesar de pequenos momentos mais lamechas, o filme é inteligente e vive muito mais do humor verbal do que dos gags da própria animação. A comissão de espectáculos não sabe como classificá-lo e com razão. Os diálogos são muito adultos, apesar de serem perceptíveis por crianças a partir dos 6 anos, se acompanhados como deve ser pelos pais, claro. E a animação ajuda. As vozes de Barry B. Benson (a abelha protagonista), quer na versão original, com Seinfeld, quer na versão portuguesa, com Nuno Markl, dão um toque maduro q.b. e retiram a infantilidade que se espera, sempre, das vozinhas dos desenhos animados destas histórias.
No fim, podemos confirmar o génio de Seinfeld, na fala do mosquito Black, que aparece de pasta na mão, como advogado substituto de Barry e que responde à vaca malhada que protestava contra a roubalheira do seu leite pelos humanos: “Bom, eu sempre fui um parasita, só me faltava mesmo uma pasta para também ser um advogado”. Genial, não vos parece?

sábado, dezembro 15, 2007

Pop retro

Ouviu-os há uns dias, de manhã, no programa do João Adelino Faria no Rádio Clube Português. Deram uma entrevista a defender a música portuguesa de antanho: Max, Amália, etc. Os Donna Maria são três: Miguel Majer e Ricardo Santos, nos instrumentos; e Marisa Pinto, uma voz feminina a lembrar alguns efeitos vocais dos primeiros temas dos Entre Aspas. O grupo respira muita fusão por ali, cheio das boas influências da pop portuguesa dos anos 90. Hoje ouviu-os, de novo, no programa Nuno & Nando (Nuno Markl e Fernando Alvim) nas manhãs de sábado, na Antena 3 e tanto que me soou a Amélia Muge. Mas é bom, bastante bom. Um dos clips do álbum de estreia, “Música para ser Humano”, tem realmente um design cinematográfico retro, que se elogia. Vamos vê-lo e comprovar o que digo:




[Há Amores Assim]

Lets look at a trailer

Hoje fui com a família ver o Bee Movie (História de uma Abelha). Já aqui tinha postado um trailer do filme, de qualidade muito próxima do último que vi, Ratatui. Amanhã falo-vos dele.

Créditos

Deixem-me dizer-vos que o desenho, ali à direita, é da autoria de Adão Contreiras. Ele fê-lo na tasca Molhó Bico em Serpa, em 1993. Há que tempos hem?

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A negro

Hoje, este blogue aderiu à ideia da redução de energia, na luminosidade do écrã dos monitores que o lêem e na redução progressiva da emissão de CO2, por via da sua navegação. Como já tinha feito em tempos com outro blogue, este passa a ter fundo negro. A alteração de template obrigou-me a actualizar na nova versão, o que provocou algumas decàlages no side bar. Em breve actualizarei os elementos que já tinha alterado em tempos.

Entretanto aproveite para responder à sondagem, ali ao lado, sobre a Emissão de Co2 para a atmosfera.

Aniversários


Dois amigos fizeram um ano de actividades na blogosfera, este mês. É bom lê-los, e vê-los. Parabéns.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Gente verdadeiramente singular

Um amigo - grande amigo - e alguns conhecidos lançaram a editora Gente Singular. Paradoxo da história, pronunciei-me eu, em tempos aqui no blogue, sobre o autor da minha terra, Teixeira Gomes e a sua ausência nas missões da Faro, Capital da Cultura (FCNC). Tudo isto a propósito do facto do antigo chefe de missão da FCNC, Rosa Mendes, meu colega na Universidade do Algarve, ser agora editor e autor da/na Gente Singular.

sábado, dezembro 08, 2007

Safei-me de boa

Relação do abastecimento que transportei de Ayamonte, no passado dia 1 de Dezembro:
Peixe: camarão, biqueirão, conservas, patés, lulas;
Carne: vaca, porco;
Bebidas: sumo, águas, refrigerantes, leite, iogurtes, vinho, cervejas muitas;
Pequeno-almoço: flocos, pão, queijo, fiambre, capuccino;
Diversos: chocolates, papel higiénico, etc.
Não me lembro de muito mais e não me apetece ir buscar a factura.
Bom, atestei o depósito de gasolina e comprei umas roupas baratas, nas lojas.
Tive pena de não precisar, ainda, de botijas de gás.
Não me cruzei com a ASAE, a governadora civil de Faro ou a polícia. Talvez um dia.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Apontar, apontar...


Depois de muitos blogues no éter, depois de muitas dinâmicas na poesia, nos microcontos, na edição e em tantas coisas mais, Luís Ene está, de novo, em força no seu blog d'apontamentos. Queria destacá-lo esta semana.

Livros de Casimiro de Brito

Casimiro de Brito, poeta louletano, apresenta na Casa Fernando Pessoa, no próximo dia 12 de Dezembro, pelas 18h, quatro dos nove livros que publicou este ano: Arte de Bem Morrer, Fragmentos de Babel (também apresentado em Loulé), Música Mundi e Através do Ar. Os livros serão apresentados por Fernando J. B. Martinho, Álvaro Manuel Machado, Maria João Cantinho e pelo próprio autor, que nos envia o seguinte poema:

de canto em canto
vou caindo
no charco do silêncio



terça-feira, dezembro 04, 2007

Crónica em «A Voz de Loulé»


A Voz de Loulé entre o papel e a rede

A Voz de Loulé faz hoje 55 anos. O que dizer de um jornal que atravessa a 2ª metade do século XX e já se espraia por um novo? Bom, em primeiro lugar reconhecer que é muito tempo e motivo de satisfação. Devo reconhecer que, ao escrever estas linhas, eu também estou a escrever sobre mim, sobre o meu tempo, pois as nossas idades andam bem mais próximas do que se pensa. É o momento de endereçar os parabéns, a altura em que toda a gente diz que a Voz de Loulé é um marco da terra, um emblema do concelho. Pois é. Mas o jornal é também um daqueles produtos do século passado, uma construção cultural da escrita e da produção de conhecimento literário. Uma tribuna para dar a conhecer a política do estado novo, os melhoramentos da terra, as novas estradas e avenidas, o carnaval, o ciclismo, as remessas de emigrantes, a necrologia dos parentes, os anúncios e editais. Mas, também já o disse aqui, a poesia, a história, o conto. Mais tarde o futebol, a popularização das arengas da bola e dos novos estádios. A Voz de Loulé é isso tudo e, como todas as construções culturais, um produto em trânsito e dilema. Hoje, é um jornal que se constrói a si próprio, com a participação de amigos e colaboradores, página a página. Se carece de reportagem e de notícias, ele enche-se de crónicas e de comentários, colunas sociais, políticas e fiscais. Se necessita de tratamento de notícia, ele permeia-se de opinião e de entrevista. É o resultado do seu tempo e do seu lugar.

Passaram 55 anos. E, na verdade, se exceptuarmos a cor e uma maior parafernália fotográfica, ou mesmo as máquinas de processamento e de impressão, pouco mudou. Meio século é pouco, convenhamos. Mas é verdade que a imprensa escrita está, cada vez mais, numa encruzilhada. Grande parte dos seus leitores está, hoje, sentado em frente ao monitor e a ler as notícias em linha, de forma mais rápida e eficaz; e económica, talvez. A possibilidade de participação, dos leitores, nos sítios on-line dos jornais é notória, através de comentários e fóruns de interactividade, à medida de um simples clic. Uma participação cidadã, mais activa e mobilizadora dos leitores, é procurada, cada vez mais, pelos gestores dos media actuais. Os exemplos do canal televisivo de Al Gore e do jornal “Público”, de Espanha, são casos paradigmáticos do que afirmo. Também a vulgarização do filme digital e do vídeo, e a sua concomitante divulgação na rede, permitem possibilidades jornalísticas incomensuráveis, como sabemos.

O que fazer, então? Dizem-me que ninguém, nem nada, pode retirar o prazer da leitura de um jornal sopesado entre as mãos. É verdade. Nós próprios, mesmo lendo (ou ouvindo) em linha diversas publicações, entre revistas, jornais, blogues, podcasts, vídeos e o demais que a Web proporciona, também compramos e lemos jornais e revistas, portugueses ou espanhóis, às vezes brasileiros ou americanos. Então, onde está o problema? Bom, o problema é que os jornais, como qualquer produto cultural, estão sujeitos a mudanças, a reposicionamentos enquanto objectos de consumo cultural. E precisam de encontrar novos caminhos. Se olharmos para o Algarve isso é notório, com a procura de novos formatos para a imprensa escrita. No concelho de Loulé, pelo menos três jornais têm sítios on-line e que conste, o facto não lhes retirou leitores para o formato papel. Quando isso acontece, é claro que a contrapartida é sempre mais vantajosa, através da presença dos leitores nos espaços participados da rede. E já agora poderia falar da publicidade, mas isso é outra história.

Pois bem, os novos caminhos da imprensa já estão escritos, e trilhados, por agora e por muita gente. Pois, no futuro, também já o sabemos: a imprensa escrita tal como a conhecemos hoje desaparecerá, envolta num misto de rede conexa de vários formatos tecnológicos. Para bem do leitor, claro.

A Voz de Loulé, 1 Dezembro 07