sexta-feira, abril 14, 2006

A ressureição

À nossa volta um céu plúmbeo, uma névoa de chumbo que cobre a vista. Tempo fresco a combinar com os dias. Ali ao lado na ribeira, malmequeres, borragens, cardos ainda húmidos do orvalho da noite, à espera que o calor os torne em gás e a fotossíntese faça o que lhe compete. Olhando o sul, a mesma névoa da manhã de Abril paira sobre o mar. No norte, as serras não escondem o mesmo manto.
Mas algo perturba este universo idílico mas tão ‘real’. Sei que por trás de cada janela, nesta manhã que dizem ser santa, está um turista, zangado e triste à espera da ressureição solar. Esse deus que não chega, quando nele se apostou o fim-de-semana: roupa fresca, euros, hotéis a 90% da capacidade turística, lagosta no vapor. Se o deus não cumpre o seu papel, eles sabem como mistificá-lo: vestem os seus calçanitos e a curta tshirt, põem os chinelos e vão “para a praia da Quarteira”. Mesmo com a água fria e o vento agreste de nordeste, os acólitos ficam lá todo o fim-de-semana, a tiritar de frio, aguardando a rotina de segunda. E assim justificam a adesão do seu martírio em nome da apropriação de deus.

Do serviço

Muitas alterações na lista de blogues, ali ao lado.

Ronaldo

O pênalti perdido passa a representar ou confirmar um conceito muito aceito no futebol: o da fase ruim. Porque "quando a fase é ruim", nada dá certo. A bola bate na trave e sai, o zagueiro salva em cima da linha, o juiz anula gol legítimo. Tudo acontece, inclusive o craque perder um pênalti (muito mal batido, é evidente; não foi uma questão de azar). Mesmo um jogador "velho e gordo" é capaz de fazer melhor do que isso...
Última coluna da Soninha na Folha de S. Paulo.

Onde é que eu já ouvi isto?

Diz Vitalino Canas - vice-presidente da bancada parlamentar do PS - que os deputados são cidadãos como outros quaisquer. E que por isso também podem apresentar atestados médicos para justificar a sua ausência da sessão parlamentar de anteontem. No caso de Vitalino, vai ter de apreciar 55 atestados. Foi esse o número de deputados do partido do governo, ausente das votações parlamentares.

quinta-feira, abril 13, 2006

Reforma administrativa

A acompanhar, com atenção, o serviço público do Kontratempos. O meu contributo estará aqui em breve (sobre a Segurança Social).

Pecadilhos

Verdadeiro choque tecnológico são os pecados inventados nesta páscoa pela ICAR. Sócrates que aprenda!

Aristograças

«Sérgio Abrantes Mendes assumiu ontem que pode avançar com uma candidatura às eleições do Sporting, por considerar que "Filipe Soares Franco não faz fractura ...».
Sempre disse que o Sporting só vivia da aristocracia.

E eu, sou um carapau de corrida?

«Os homens da blogosfera, os que escrevem mais ou menos, embora pensem todos mal, sem excepção, mas, pronto, aqueles que conseguem, por via dos bons compadres políticos, umas colunas num pasquim qualquer que não interessa a ninguém... que trambolhos! Mas que grandes trambolhos! Feioooooooooooosss! Parecem uns peixes (...)»
Tudo na Sociedade Anónima.

quarta-feira, abril 12, 2006

O massacre do Rossio

Não percebo nada de halakah e as velas para mim servem para alumiar ou cheirar; antes, para dar sebo ao cautchout das bolas de futebol. Mas um etnocídio será sempre um massacre. E aqui estou eu bradando contra todos os pogroms de genocídio.

terça-feira, abril 11, 2006

Bons sinais para a Ria de Alvor

Depois da vergonha que foi o comportamento político da Câmara de Portimão (CMP) destaca-se, aqui, a posição da Assembleia Municipal de Portimão que aprovou, por unanimidade, uma moção – apresentada pelo Bloco de Esquerda - em defesa da reposição dos habitats destruídos na Ria de Alvor. Lembro que mais de 10 hectares de coberto vegetal do sapal da Ria foram destruídos pelo grupo Imoholding do presidente do Naval 1º de Maio, Aprígio dos Santos, com a conivência da CMP que antes visitara os terrenos da Quinta da Rocha em sinal de reconhecimento e legitimação do proprietário. Espera-se agora que as autoridades cumpram os devidos procedimentos administrativos referentes ao crime ambiental.

O silêncio é de ouro

É verdade que Cavaco Silva ganhou as presidenciais pelo silêncio. Também é verdade que preside, sem se ouvir a sua voz.

Sim,

reparei no sotaque italiano do cardeal Saraiva, ainda há pouco no programa Prós e Contras. Na verdade é aquele linguajar que atribui a legitimação da verdade religiosa ao Vaticano. Desta vez sobre a "crise" da Europa.

segunda-feira, abril 10, 2006

Comentários

Há meses atrás resolvi fechar a caixa de comentários deste blogue. Tal como na minha casa não entra gente que não seja convidada também aqui se evita a boçalidade que por aí vegeta, rasteira e ignorante.

Adeus CPE

O governo francês cedeu na tentativa de impor a CPE (Contrato de Primeiro Emprego), que defendia a precaridade contratual e profissional dos jovens empregados franceses. O argumento é de que não se encontram reunidas as condições para a lei. Nada mais certo. E agora digam que os protestos massives em França não dariam qualquer resultado.

O Principezinho

Entre outras lembranças clássicas cognitivas, recordo o desenho da gibóia que tinha comido um elefante, mas que poderia ser um simples chapéu. Entre a abstracção de um adulto e o raciocínio operativo simples de uma criança, está todo o campo de análise do «Principezinho» de Antoine de Saint-Exupéry, que por estes dias faz 60 anos. Eu por mim tenho duas edições diferentes e li-o noutras tantas que não estão em casa.

domingo, abril 09, 2006

Um referendo

Na selecção alemã de futebol, o mesmo dilema das balizas portuguesas. O seleccionador Jurgen Klinsman acabou por escolher Lehman em detrimento de Oliver Kahn depois de 22 meses de experiências e hesitações. Os fãs de Khan – muitos artistas entre eles – chegaram a representá-lo como o destinário da evolução dos primatas. Belo trabalho! Em Portugal, há muito, o ditador Scolari optou por Ricardo (que também tem camiões de fãs) em desfavor de Baía. Como Scolari não é democrata e se arma em militarista aconselho um referendo para escolher o guarda-redes das camisolas de Portugal.

quinta-feira, abril 06, 2006

Microtextos [3]

Berardo. Finalmente, a colecção Berardo fica em Portugal, no Centro Cultural de Belém. Berardo diz que tem 2000 peças, Mega Ferreira (presidente do CCB) diz que só interessam 850; e destas expor talvez 200. A colecção está avaliada em 34 milhões de euros; mas há também quem a avalie em 100 milhões. Berardo quer fazer da colecção um trampolim para que o CCB seja o museu mais visitado do mundo. Mega Ferreira diz que tá bem tá, belo objectivo (deve estar a pensar que Berardo não conhece o Guggenheim ou o MoMA). E Sócrates? Bom, Sócrates – como um adolescente que descobre o poder – lá vai dizendo: quando vi pela primeira vez a colecção pensei logo que o lugar dela seria em Portugal.

Microtextos [2]

Mário Viegas. O Beckett português – porque “não há nada mais cómico do que a desgraça” – morreu há 10 anos. Um diseur de poesia que afirmava que “os poemas não se explicam, ouvem-se”. Viveu sempre no gume da navalha: no teatro como na vida, a assunção de um espírito tão livre quanto libertário. Lembro-me sempre de quando, ainda adolescente, ouvi o «Poema do Ódio» de Almada Negreiros dito por ele. Estava junto da Ria Formosa e foi como se uma luz marítima entrasse adentro de mim. Apetece-me relembrar, como Almada sobre Júlio: morra o Dantas, pim!

Microtextos [1]

ETA e Zapatero. Os protestos do Partido Popular espanhol (PP), sobre as negociações do governo espanhol com a ETA para uma declaração de paz, não se remetem à aludida negociação sem entrega de armas e assunção de arrependimento. O que o PP não esperaria é que o governo espanhol conseguisse um cessar-fogo sem mortes, que prossegue a ausência de mortandade que dura há três anos. E que é o primeiro passo para uma negociação concertada sobre a presença identitária das muitas nações de Espanha, em regime de reciprocidade. Talvez o PP quisesse desenvolver uma política à administração americana: primeiro faz-se a guerra preenptiva; porque com os terroristas não se negoceia.

quarta-feira, abril 05, 2006

O Arade ali em Silves

A ler, com muita atenção, o texto do António Baeta Oliveira sobre o rio Arade. Para perceber para que é que o rio tem servido nos últimos cinco anos. E para assinar a petição online que se divulga aqui (não esqueça de, em vez de País/Cidade, escrever BI, data e arquivo).