O que é mais que certo é que o Henrique Raposo nunca comeu xarém. Se o tivesse feito, sobretudo se o tivesse comido com conquilhas, talvez falasse de Negri de outra maneira.
terça-feira, janeiro 24, 2006
Xarém com conquilhas
O que é mais que certo é que o Henrique Raposo nunca comeu xarém. Se o tivesse feito, sobretudo se o tivesse comido com conquilhas, talvez falasse de Negri de outra maneira.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Decamegalomania

O jornal Público traz, hoje, uma reportagem sobre os estádios do Euro 2004 [pp. 34-35]. O estádio do Algarve é um dos “elefantes brancos” do texto de Manuel Mendes: 320.000 € de receita anual contra 3.200.000 € de despesas anuais com encargos financeiros e de manutenção. Fazendo as contas, 10 vezes mais despesas do que receitas. Tudo a cargo da Associação de Municípios de Faro/Loulé. Explicando, tudo a cargo das Câmaras de Faro e de Loulé e portanto, do erário dos munícipes. Mas para o actual presidente da AMLF e recém eleito presidente da CMFaro nada disso é problema, porque a sua visão estratégica vai para além do estádio e suporta um projecto inexistente chamado Parque das Cidades. Entretanto, no estádio joga o Louletano da II Divisão B, de 15 em 15 dias e os fantasmas do Farense, nos outros dois domingos do mês. Quando este projecto foi acusado de megalómano foi o que se viu. Agora, só se pode acusá-lo de decamegalómano.
Presidenciais
O que é que há a dizer das eleições presidenciais?
1. Cavaco ganhou. O que prova que o populismo está cá para ficar ainda durante muitos anos.
2. Sócrates também ganhou. Não tinha interesse nenhum em ter Soares na presidência e por isso – depois dos tabus Guterres e Vitorino – o lançou às feras, usando como leit-motiv a vaidade do soarismo.
3. O PS perdeu as eleições e enterrou toda a esquerda, com a divisão que criou junto dos socialistas e do centro. Essa foi também a decisão de Sócrates. Vingar-se de Alegre e obrigá-lo a tomar um de dois caminhos: formar um novo partido ou ficar caladinho até ao próximo congresso, desbaratando a putativa democracia participativa.
4. Vitorino perdeu e ainda não percebeu que o povo não é estúpido. Não quis ser candidato, apoiou Soares e ontem dizia que afinal o seu candidato não foi derrotado. Nem como comentador terá qualquer audiência.
5. A propósito de audiências, a TVI deu cartas como a mais rápida nos directos dos candidatos e dos responsáveis políticos. Todas as televisões andaram em zapping permanente sobrepondo declarações umas em cima das outras. A mais vergonhosa foi terem cortado a palavra a Alegre (2º candidato mais votado) quando Sócrates começou a falar. O primeiro ministro foi descarado e mostrou o seu desprezo pelos socialistas que votaram maioritariamente em Alegre. Depois, o p-m veio dizer que não sabia e que não pretende ajustes de contas. Alguém acredita?
6. A Eurosondagem falhou em toda a linha: não só deu resultados muito acima do real para Cavaco como colocou sempre Alegre abaixo de Soares. Parece-me que Balsemão vai correr com Oliveira e Costa como fez há anos com a Euroexpansão. Pelo contrário, Pedro Magalhães mostrou o que são sondagens sérias e científicas.
7. Finalmente, como Louçã disse, amanhã estaremos cá!
*
Adenda às 15h.:
Ler com atenção (e sem qualquer sectarismo, porque bem escritos e inteligentes) os postes de JPP, FJV, JG, PQ e MVA, sobre as presidenciais.
1. Cavaco ganhou. O que prova que o populismo está cá para ficar ainda durante muitos anos.
2. Sócrates também ganhou. Não tinha interesse nenhum em ter Soares na presidência e por isso – depois dos tabus Guterres e Vitorino – o lançou às feras, usando como leit-motiv a vaidade do soarismo.
3. O PS perdeu as eleições e enterrou toda a esquerda, com a divisão que criou junto dos socialistas e do centro. Essa foi também a decisão de Sócrates. Vingar-se de Alegre e obrigá-lo a tomar um de dois caminhos: formar um novo partido ou ficar caladinho até ao próximo congresso, desbaratando a putativa democracia participativa.
4. Vitorino perdeu e ainda não percebeu que o povo não é estúpido. Não quis ser candidato, apoiou Soares e ontem dizia que afinal o seu candidato não foi derrotado. Nem como comentador terá qualquer audiência.
5. A propósito de audiências, a TVI deu cartas como a mais rápida nos directos dos candidatos e dos responsáveis políticos. Todas as televisões andaram em zapping permanente sobrepondo declarações umas em cima das outras. A mais vergonhosa foi terem cortado a palavra a Alegre (2º candidato mais votado) quando Sócrates começou a falar. O primeiro ministro foi descarado e mostrou o seu desprezo pelos socialistas que votaram maioritariamente em Alegre. Depois, o p-m veio dizer que não sabia e que não pretende ajustes de contas. Alguém acredita?
6. A Eurosondagem falhou em toda a linha: não só deu resultados muito acima do real para Cavaco como colocou sempre Alegre abaixo de Soares. Parece-me que Balsemão vai correr com Oliveira e Costa como fez há anos com a Euroexpansão. Pelo contrário, Pedro Magalhães mostrou o que são sondagens sérias e científicas.
7. Finalmente, como Louçã disse, amanhã estaremos cá!
*
Adenda às 15h.:
Ler com atenção (e sem qualquer sectarismo, porque bem escritos e inteligentes) os postes de JPP, FJV, JG, PQ e MVA, sobre as presidenciais.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Crónica no jornal "barlavento"
A Capital, resgata ou afunda?
(publicada em 19 de Janeiro de 2006)
Sim, a Capital da Cultura acabou em Faro. E eu que estou tão farto de bater no céguinho, ganho um apetite voraz pela coisa.O pão e o circo levantaram alas, e agora muita gente faz balanços e contas: quantos espectáculos e espectadores, qual a média por concerto, quais os perfis e as motivações. Já agora, quantos almoços servidos, quantas senhas de gasolina pagas, quantos sacos de cimento gastos no Teatro Municipal, quantas horas de espera, quantos programas impressos?
Tudo isto serviu para resgatar o Algarve da marginalidade cultural, comissário dixit. Eu rio-me! Eu prefiro continuar marginal. Digam lá se não é melhor ser marginal, em Alcoutim, em Loulé, em Cachopo, em Pechão, vivendo o quotidiano entre quadros de Miró, palavras de Pessoa, músicas de Vivaldi?
Pois, pois, os algarvios são agora a fina flor dos novos públicos da cultura, uma espécie de consumidores culturais de élite, aqueles que enchem teatros e cinemas, bibliotecas e conservatórios. Uma espécie de arruaceiros da bola (mas bem comportados) que se sentam a ver e ouvir os produtores de cultura e no fim da festa descortinam prazeres e consequências estéticas. Mas, trôpegos e falhos regressam logo ao ramerrão da sua vivência: novelas, concursos e futebol, à espera do próximo evento de resgate.
Para seu bem têm, a bater-lhes à porta, os velhos amigos (os agentes culturais esquecidos) que dia-a-dia vão construindo peças de teatro, fazendo o ensino da música, lendo e editando poesia, contando histórias e contos, ensaiando músicas e cantos, discutindo filmes. Esses amigos estão cá sempre, presentes em vãos de escada, em casas caídas, em praças e jardins, todo o ano, todos os anos. Em 2005, estiveram cá, apesar de se ter falado pouco deles, na Capital. E depois dela, eles vão continuar a fazer os seus trabalhos de Hércules: levar a palavra ao Algarve. Esses, os amigos, resgatam verdadeiramente. A Capital afunda!
*
Para ler online clicar na imagem acima!
quarta-feira, janeiro 18, 2006
Louçã
Frio. Mesmo com frio, há uma palavra a dizer. Uma decisão a tomar. Uma decisão ao lado da coerência, da luta, da solidariedade. Já sabem, quem me conhece e quem me lê, que não será preciso dizer muito mais: esta noite estarei com Francisco Louçã, no Conservatório, em Faro. Sérgio Godinho, esse, ouve-se a toda a hora: Espalhem a notícia! Machado de Assis
Pelo correio chegou-me, hoje, as «Memórias póstumas de Brás Cubas» do Machado de Assis, o maior escritor da língua portuguesa. Tenho prazer para muitos dias, meses talvez, enquanto os livros de cabeceira lá se mantêm e a tese anda, anda... Mas o leitor pode acompanhar-me na leitura do livro, online, por aqui.
terça-feira, janeiro 17, 2006
O monstro

Nunca a direita esteve tanto à procura de uma salvação como agora. Uma salvação simbólica, plasmada num pequeno cavaco que arde sem se ver. Se alguém pensava que a alma portuguesa não existia e que o sebastianismo fora uma invenção dos integralistas, enganou-se. Vejam como o populismo corre o país, organizado e mediático, com a ajuda da televisão e dos marketeers de serviço. Na blogosfera também. E são os mais avisados e cultos que agora cuidam de ilustrar o papão da esquerda que inventa monstros para abater. Nós não precisamos de o fazer, pois não? Ele está aí em todo o lado, pronto a servir-se da paróquia espojada a seus pés!
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Letras de chuva
Enquanto a chuva cai, transparente lá fora, as minhas mãos correm sobre a tinta negra. Velhos jornais e revistas que se guardam como tesouros, são esquartinhados de novo pelo pendor do dia: crónicas, livros, poesias, notas para aulas, recortam-se e arrumam-se, ainda lado a lado, nas velhas pastas de cartão, à espera de um novo tempo que os faça ter sentido. Os meus filhos dormem, há muito, depois do filme da tarde e do desassossego do fim do dia.
*
Ponho na secretária, para o dia seguinte, o Le Monde diplomatique, retirado hoje do correio e o livro de poemas do amigo José Neves (AC) “Gorjeios”, que o Adão me trouxe.
*
Ponho na secretária, para o dia seguinte, o Le Monde diplomatique, retirado hoje do correio e o livro de poemas do amigo José Neves (AC) “Gorjeios”, que o Adão me trouxe.
sábado, janeiro 14, 2006
Outro Zeca

TOADA DOS AGUACEIROS
Caem aguaceiros
Deste céu pesado
Que são mensageiros
Dum vento salgado
Oh meu bem adeus
Que eu estou de partida
Levo a despedida
Nestes olhos meus
No voo de uma garça
Viajam sinais
Da saudade imensa
Que habita este cais
Oh meu bem adeus
Que eu parto tão triste
Do pranto que existe
Nesses olhos teus
Quando o dia morre
Nasce uma toada
Queixa que percorre
Minha voz magoada
Oh meu bem adeus
Que eu estou de partida
Levo a despedida
Nestes olhos meus
*
Poema de José Medeiros, cantado esta noite pela Viviane, no Auditório Municipal de Lagoa. A música também é dele.
sexta-feira, janeiro 13, 2006
A inocência e a culpa

Pouco importa agora saber se Isaltino é culpado ou inocente. O tempo o dirá. Ou melhor, o tribunal o julgará. Mas a falsa “inocência” que as suas palavras transportam quando fala de contas bancárias e empresas de Oeiras, da rede familiar e das secretárias e assessores é tão grande, quanto a culpa que as autarquias carregam às costas, elas que são sempre apresentadas como um dos pilares do nosso poder local e a base da democracia. Desconfiemos irmãos!
Short Story

Uma excelente notícia para Portugal. A 9ª Conferência Internacional do Conto vai realizar-se em Lisboa. Ler o texto de Valter Hugo-Mãe sobre esta iniciativa, aqui.
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Crónica no jornal "barlavento"

A ÉTICA DOS JORNALISTAS E A DEMOCRACIA
(publicada em 12 de Janeiro de 2006)
Anda uma pessoa a ensinar aos alunos que qualquer trabalho de investigação, de cariz académico, deve respeitar as suas fontes de forma ética e depois dá com isto: um tribunal condena um jornalista de investigação a 11 meses de prisão por se recusar a revelar uma das suas fontes (só porque a investigação respeita a drogas e os responsáveis policiais nada investigaram).
A ética, na investigação, manda aceitar um informante (prefiro esta expressão ao invés de informador que me lembra os esbirros bufos da Pide, no tempo do fascismo) com respeito sobre a salvaguarda da sua identidade, da ressalva da sua idoneidade social, com a confidencialidade relativa às suas informações e narrativas, e com o anonimato de protecção que se lhe reconhece. Só isso permite a um informante, em contrapartida, aceitar ser um sujeito pertinente em qualquer investigação, que sem ele não se fará.
Pelos vistos o tribunal nada entende disto e apenas olha o lado jurídico do problema. A partir daqui não há qualquer investigação que este jornalista possa fazer, sujeito a qualquer denúncia das do tipo que enviavam inocentes e cidadãos responsáveis para os calabouços da polícia fascista do estado novo. Talvez se pudesse propor uma cadeira de ética de investigação para os nossos futuros juízes. Os que oficiam, esses, poderiam fazer um curso de reciclagem, com os nossos jovens alunos que sabem muito do dever de respeitar as suas fontes.
Mas o que se disse atrás -- lembrando o caso do jornalista do Expresso Manso Preto, que viria mais tarde a ser absolvido -- seria apenas uma história passada se o mesmo não se tivesse a passar de novo. Desta vez perante os nossos olhos de algarvios embevecidos com a Capital da Cultura. É que a jornalista do Diário de Notícias no Algarve, Paula Martinheira, foi constituída arguida de um processo por desobediência ao tribunal, após se ter recusado a revelar as fontes de informação de uma notícia publicada em Abril de 2003.
No barlavento, de 5 de Janeiro, Elisabete Rodrigues apela ao “Direito de saber”, um direito de informação de que todos os cidadãos usufruem de acordo com a Constituição. E esse direito de saber é quase sempre edificado e suportado pelas informações anónimas, graciosas e responsáveis de muitas fontes confidenciais, que o jornalista tem o dever de respeitar no seu processo de construção da notícia. Trata-se de um dever ético e deontológico de qualquer jornalista. Um dever que os tribunais têm que começar a perceber. Um dever que também preserva e consolida a democracia.
Pelos vistos o tribunal nada entende disto e apenas olha o lado jurídico do problema. A partir daqui não há qualquer investigação que este jornalista possa fazer, sujeito a qualquer denúncia das do tipo que enviavam inocentes e cidadãos responsáveis para os calabouços da polícia fascista do estado novo. Talvez se pudesse propor uma cadeira de ética de investigação para os nossos futuros juízes. Os que oficiam, esses, poderiam fazer um curso de reciclagem, com os nossos jovens alunos que sabem muito do dever de respeitar as suas fontes.
Mas o que se disse atrás -- lembrando o caso do jornalista do Expresso Manso Preto, que viria mais tarde a ser absolvido -- seria apenas uma história passada se o mesmo não se tivesse a passar de novo. Desta vez perante os nossos olhos de algarvios embevecidos com a Capital da Cultura. É que a jornalista do Diário de Notícias no Algarve, Paula Martinheira, foi constituída arguida de um processo por desobediência ao tribunal, após se ter recusado a revelar as fontes de informação de uma notícia publicada em Abril de 2003.
No barlavento, de 5 de Janeiro, Elisabete Rodrigues apela ao “Direito de saber”, um direito de informação de que todos os cidadãos usufruem de acordo com a Constituição. E esse direito de saber é quase sempre edificado e suportado pelas informações anónimas, graciosas e responsáveis de muitas fontes confidenciais, que o jornalista tem o dever de respeitar no seu processo de construção da notícia. Trata-se de um dever ético e deontológico de qualquer jornalista. Um dever que os tribunais têm que começar a perceber. Um dever que também preserva e consolida a democracia.
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A crónica pode ser lida também no barlavento online clicando na imagem acima.
O hino da PT

A propósito da polémica, sobre o uso adaptado do hino português na publicidade da PT na televisão, Rui Pena Pires diz que se levanta cada vez que houve o hino nacional, mais por respeito do que por sacralização. Convém dizer que, na verdade, quando alguém se levanta para ouvir tocar o hino lembra-me sempre o ditadura do estado novo no meu tempo de primária. O que é que cada um faz quando o ouve? Faz o quê? Ouve apenas em pé, o que é desagradável? Põe a mão no peito? Faz ambas as coisas e chora emocionado? O hino é um símbolo da I República e por isso nada tem a ver com a democracia! A não ser que nos achemos sacralizados por esse capital simbólico dos poderosos da pátria de 1910?!
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