segunda-feira, janeiro 16, 2006
Letras de chuva
Enquanto a chuva cai, transparente lá fora, as minhas mãos correm sobre a tinta negra. Velhos jornais e revistas que se guardam como tesouros, são esquartinhados de novo pelo pendor do dia: crónicas, livros, poesias, notas para aulas, recortam-se e arrumam-se, ainda lado a lado, nas velhas pastas de cartão, à espera de um novo tempo que os faça ter sentido. Os meus filhos dormem, há muito, depois do filme da tarde e do desassossego do fim do dia.
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Ponho na secretária, para o dia seguinte, o Le Monde diplomatique, retirado hoje do correio e o livro de poemas do amigo José Neves (AC) “Gorjeios”, que o Adão me trouxe.
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Ponho na secretária, para o dia seguinte, o Le Monde diplomatique, retirado hoje do correio e o livro de poemas do amigo José Neves (AC) “Gorjeios”, que o Adão me trouxe.
sábado, janeiro 14, 2006
Outro Zeca

TOADA DOS AGUACEIROS
Caem aguaceiros
Deste céu pesado
Que são mensageiros
Dum vento salgado
Oh meu bem adeus
Que eu estou de partida
Levo a despedida
Nestes olhos meus
No voo de uma garça
Viajam sinais
Da saudade imensa
Que habita este cais
Oh meu bem adeus
Que eu parto tão triste
Do pranto que existe
Nesses olhos teus
Quando o dia morre
Nasce uma toada
Queixa que percorre
Minha voz magoada
Oh meu bem adeus
Que eu estou de partida
Levo a despedida
Nestes olhos meus
*
Poema de José Medeiros, cantado esta noite pela Viviane, no Auditório Municipal de Lagoa. A música também é dele.
sexta-feira, janeiro 13, 2006
A inocência e a culpa

Pouco importa agora saber se Isaltino é culpado ou inocente. O tempo o dirá. Ou melhor, o tribunal o julgará. Mas a falsa “inocência” que as suas palavras transportam quando fala de contas bancárias e empresas de Oeiras, da rede familiar e das secretárias e assessores é tão grande, quanto a culpa que as autarquias carregam às costas, elas que são sempre apresentadas como um dos pilares do nosso poder local e a base da democracia. Desconfiemos irmãos!
Short Story

Uma excelente notícia para Portugal. A 9ª Conferência Internacional do Conto vai realizar-se em Lisboa. Ler o texto de Valter Hugo-Mãe sobre esta iniciativa, aqui.
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Crónica no jornal "barlavento"

A ÉTICA DOS JORNALISTAS E A DEMOCRACIA
(publicada em 12 de Janeiro de 2006)
Anda uma pessoa a ensinar aos alunos que qualquer trabalho de investigação, de cariz académico, deve respeitar as suas fontes de forma ética e depois dá com isto: um tribunal condena um jornalista de investigação a 11 meses de prisão por se recusar a revelar uma das suas fontes (só porque a investigação respeita a drogas e os responsáveis policiais nada investigaram).
A ética, na investigação, manda aceitar um informante (prefiro esta expressão ao invés de informador que me lembra os esbirros bufos da Pide, no tempo do fascismo) com respeito sobre a salvaguarda da sua identidade, da ressalva da sua idoneidade social, com a confidencialidade relativa às suas informações e narrativas, e com o anonimato de protecção que se lhe reconhece. Só isso permite a um informante, em contrapartida, aceitar ser um sujeito pertinente em qualquer investigação, que sem ele não se fará.
Pelos vistos o tribunal nada entende disto e apenas olha o lado jurídico do problema. A partir daqui não há qualquer investigação que este jornalista possa fazer, sujeito a qualquer denúncia das do tipo que enviavam inocentes e cidadãos responsáveis para os calabouços da polícia fascista do estado novo. Talvez se pudesse propor uma cadeira de ética de investigação para os nossos futuros juízes. Os que oficiam, esses, poderiam fazer um curso de reciclagem, com os nossos jovens alunos que sabem muito do dever de respeitar as suas fontes.
Mas o que se disse atrás -- lembrando o caso do jornalista do Expresso Manso Preto, que viria mais tarde a ser absolvido -- seria apenas uma história passada se o mesmo não se tivesse a passar de novo. Desta vez perante os nossos olhos de algarvios embevecidos com a Capital da Cultura. É que a jornalista do Diário de Notícias no Algarve, Paula Martinheira, foi constituída arguida de um processo por desobediência ao tribunal, após se ter recusado a revelar as fontes de informação de uma notícia publicada em Abril de 2003.
No barlavento, de 5 de Janeiro, Elisabete Rodrigues apela ao “Direito de saber”, um direito de informação de que todos os cidadãos usufruem de acordo com a Constituição. E esse direito de saber é quase sempre edificado e suportado pelas informações anónimas, graciosas e responsáveis de muitas fontes confidenciais, que o jornalista tem o dever de respeitar no seu processo de construção da notícia. Trata-se de um dever ético e deontológico de qualquer jornalista. Um dever que os tribunais têm que começar a perceber. Um dever que também preserva e consolida a democracia.
Pelos vistos o tribunal nada entende disto e apenas olha o lado jurídico do problema. A partir daqui não há qualquer investigação que este jornalista possa fazer, sujeito a qualquer denúncia das do tipo que enviavam inocentes e cidadãos responsáveis para os calabouços da polícia fascista do estado novo. Talvez se pudesse propor uma cadeira de ética de investigação para os nossos futuros juízes. Os que oficiam, esses, poderiam fazer um curso de reciclagem, com os nossos jovens alunos que sabem muito do dever de respeitar as suas fontes.
Mas o que se disse atrás -- lembrando o caso do jornalista do Expresso Manso Preto, que viria mais tarde a ser absolvido -- seria apenas uma história passada se o mesmo não se tivesse a passar de novo. Desta vez perante os nossos olhos de algarvios embevecidos com a Capital da Cultura. É que a jornalista do Diário de Notícias no Algarve, Paula Martinheira, foi constituída arguida de um processo por desobediência ao tribunal, após se ter recusado a revelar as fontes de informação de uma notícia publicada em Abril de 2003.
No barlavento, de 5 de Janeiro, Elisabete Rodrigues apela ao “Direito de saber”, um direito de informação de que todos os cidadãos usufruem de acordo com a Constituição. E esse direito de saber é quase sempre edificado e suportado pelas informações anónimas, graciosas e responsáveis de muitas fontes confidenciais, que o jornalista tem o dever de respeitar no seu processo de construção da notícia. Trata-se de um dever ético e deontológico de qualquer jornalista. Um dever que os tribunais têm que começar a perceber. Um dever que também preserva e consolida a democracia.
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A crónica pode ser lida também no barlavento online clicando na imagem acima.
O hino da PT

A propósito da polémica, sobre o uso adaptado do hino português na publicidade da PT na televisão, Rui Pena Pires diz que se levanta cada vez que houve o hino nacional, mais por respeito do que por sacralização. Convém dizer que, na verdade, quando alguém se levanta para ouvir tocar o hino lembra-me sempre o ditadura do estado novo no meu tempo de primária. O que é que cada um faz quando o ouve? Faz o quê? Ouve apenas em pé, o que é desagradável? Põe a mão no peito? Faz ambas as coisas e chora emocionado? O hino é um símbolo da I República e por isso nada tem a ver com a democracia! A não ser que nos achemos sacralizados por esse capital simbólico dos poderosos da pátria de 1910?!
quarta-feira, janeiro 11, 2006
Big Brother no Algarve
«O sistema de videovigilância que será instalado em zonas públicas do Algarve servirá apenas para “interesse público” e terá de ter parecer positivo da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD).
A ideia é reforçar a segurança dos cidadãos”, assegurou o Governador Civil de Faro. Segundo explicou António Pina, que garante ter discutido o assunto com o ministro da Administração Interna, a instalação das primeiras câmaras deverá acontecer a título experimental já em Maio, em zonas comerciais de algumas cidades algarvias. Só depois o projecto será alargado a outras zonas públicas (...)».
A ideia é reforçar a segurança dos cidadãos”, assegurou o Governador Civil de Faro. Segundo explicou António Pina, que garante ter discutido o assunto com o ministro da Administração Interna, a instalação das primeiras câmaras deverá acontecer a título experimental já em Maio, em zonas comerciais de algumas cidades algarvias. Só depois o projecto será alargado a outras zonas públicas (...)».
Acho que a blogosfera deve começar a discutir este tema.
Machado de Assis

O canal de cabo GNT está a passar, toda a semana a partir das 22.30h., um Festival de Cinema Brasileiro. Ontem vi (avisadamente) o excelente Memórias Póstumas de Brás Cubas de André Klotzel, baseado no livro homónimo de Machado de Assis. O filme não é nenhuma obra-prima mas os diálogos, fiéis ao texto de Machado, são simplesmente divinais. Há meses atrás este livro foi editado pela Cotovia, inaugurando a colecção "Curso Breve de Literatura Brasileira", com estudo de Abel Barros Baptista que considera o seu autor o maior romancista de língua portuguesa.
Leiam só como é que o livro termina:
«...um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria».
«...um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria».
segunda-feira, janeiro 09, 2006
O porquinho cor de rosa
O seu a seu dono
O DN de hoje traz uma reportagem de Paula Martinheira sobre a Escola EB2/3 Dr. António Agostinho Baptista, em Almancil. O interesse reporta-se ao facto de a dita estar povoada de alunos de 21 países, sendo provavelmente um dos estabelecimentos de maior cariz multicultural. Na página 31, uma das caixas contem declarações do presidente da Junta de Freguesia João Martins que, a certa altura, diz: “Almancil não soube responder ao crescimento populacional registado nos últimos anos, por culpa da Câmara Municipal de Loulé e da Administração Central que votaram a freguesia ao abandono...”. Eu só queria lembrar que JoãoMartins é presidente da Junta há pelo menos três mandatos, por inerência membro da Assembleia Municipal de Loulé e que o partido de que é membro, o PS, dirigiu a Câmara entre 1989 e 2001. Que eu saiba é o PS que está no governo e, antes do PSD de Barroso, também lá esteve. Numa freguesia que é exímia na “arrecadação de receitas, por via sobretudo dos estabelecimentos turísticos que alberga” talvez se pudesse aproveitar as taxas de estacionamento que a Quinta do Lago cobra no estacionamento da praia com o mesmo nome, para criar transportes públicos para os alunos da Escola nas suas idas às praias.
As colunas dos jornais
A minha compulsão para ler jornais obrigou-me a comprar o Expresso do último sábado e o DN de hoje. Para não falar de outras coisas mais ou menos evidentes, despachei todos os colunistas do primeiro (mentira, não li a Pedrosa que muitas vezes me aborrece). Parti lançado para a crónica do Miguel Esteves Cardoso (que saudades) ainda perro, mas a prometer. O principal prazer deu-me a revista “Única”: a Bomba Inteligente já lá não mora, que alívio!
Quanto ao DN, remoçado hoje na linha gráfica (Cayatte, outra vez), uma desgraça infinda: vamos ter de gramar o Luís Delgado todas as segunda feiras. Nesse dia vão ao cinema que é mais barato!
Quanto ao DN, remoçado hoje na linha gráfica (Cayatte, outra vez), uma desgraça infinda: vamos ter de gramar o Luís Delgado todas as segunda feiras. Nesse dia vão ao cinema que é mais barato!
Mentirinhas alegrotas
A campanha de Alegre, depois dos ataques a Soares em tons aristocráticos, começa agora a tentar arregimentar os eleitores de esquerda. Ontem, a sua charge – muito longe da poética da pré-campanha – virou-se para os potenciais eleitores de Jerónimo, convencido de uma 2ª volta. Só que para isso começa a contar estórias como se estivesse a escrever os seus versos numa ficção virtual, da qual se espera o convencimento terreno. E aí engana-se, numa construção metafórica de um mundo que não viveu, mas que quer vender aos eleitores. Nuno Ramos de Almeida desmonta-lhe as mentirinhas. O melhor é dar a Alegre uma Aspirina B.
Reinaldo Arenas
E ia com a minha mãe por um rio abaixo
quando ela viu um homem, bonito, de chapéu.
Logo o apedrejou e gritou nomes como filho da puta!
Mas o homem, mesmo assim, se aproximou de mim
e deu-me dois pesos o que na altura,
para um "guaníjaro" como eu,
era uma fortuna. Vi logo que era o meu pai.
A minha liberdade perante o ser livre de Reinaldo Arenas
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