sábado, novembro 19, 2005

Manifesto do silêncio

As Noites

As noites essas alimentam-se
pela excessiva luz do dia
Como se um raio de sol tivesse
ficado esquecido
na metálica planície do sul
*
[Algarve Lugar Onde, 1964-1969
in Ode & Ceia, 1985]
*
Este poeta não é candidato a nada!

A tese

não é tudo!
*
Agora que o trabalho de análise de conteúdo dos dados recolhidos está quase, quase no fim, e a escrita se aproxima fulgurante, é tempo de voltar aqui. Apenas e só de acordo com o ritmo do desejo de deixar palavras suspensas no ar. Para os muitos amigos que me falaram da ausência (neste blogue, porque outros, noblesse oblige, receberam muito trabalho meu) um abraço amigo. Em breve...

quarta-feira, novembro 16, 2005

Contrasenso convida

É meu convidado no "Contrasenso" desta quinzena em A Voz de Loulé, Luís Ene:
*
Brincar com a língua

Contar uma história é como jogar um jogo, um qualquer jogo, quer se pense no jogo do berlinde (às três covas, por exemplo) ou no jogo do xadrez. Existem regras, existem dificuldades e até existem adversários. Mas o essencial num jogo é que nos possamos divertir.
Este é o terceiro de três artigos (é portanto o último) em que vos falo aqui de contar histórias, e vou tentar mostrar-vos como tal actividade pode ser divertida, realçando um aspecto que nada mais é que a superação de várias dificuldades. Quando se conta uma história, quando se a escreve, temos de ter em conta todas as histórias que já foram contadas e, no entanto, contar a nossa história, contar uma nova história. E contamos e escrevemos contra a língua, a sua ambiguidade, a sua sonoridade, a sua gramática. A superação dessas dificuldades traz sem dúvida prazer a quem escreve e a quem lê. Do que vos quero falar é de como podemos brincar com a língua.
Tomemos por exemplos os lugares comuns, ou as frases feitas. Se por um lado é bom ter essas expressões sempre à mão, por outro lado é ainda melhor parodiá-las, subvertê-las, brincar com elas, como se de um jogo se tratasse. Conhecem a expressão “ir desta para melhor”? É curioso como diz tanto da nossa mentalidade e será sem dúvida divertido usá-la. Vejamos então uma pequena história, que é afinal delas que aqui temos tratado.
1. Quando a morte veio para o levar, ele recebeu-a com um sorriso aberto: finalmente ia desta para melhor.
Será que a morte nos leva desta para melhor? Tenho dúvidas, e mesmo que assim seja, não me parece que recebesse a morte com agrado. Mas isso é outra história.
E quanto a dizeres populares, sempre tão expressivos e vivos? É claro que também se pode brincar com eles. Vejam lá se conhecem os que empurrei para a seguinte história, todos eles com um denominador comum.
2. Par de botas
Era um borra-botas sem emenda e um incorrigível lambe botas. E, como se isso não bastasse, tinha uma mulher feia como uma bota da tropa. Mas não se preocupem com ele pois cedo bateu a bota.
Estão a ver como consegui em muito pouco espaço meter quase tudo e ainda um par de botas! Foi divertido para mim escrevê-lo e espero que o tenha sido para vocês lê-lo.
Mas se a ideia principal é brincar com a língua, cedo percebi que era fácil brincar mesmo com ela, a palavra língua e os seus diversos significados, usando sobretudo essa ambiguidade para criar efeitos divertidos. Pois bem, língua tem basicamente três significados: órgão principal da articulação da palavra, da deglutição e da gustação; linguagem e idioma. É com estes três significados que podemos jogar, bem como com as expressões populares que a eles se referem, como por exemplo “soltar a língua” ou “tropeçar na língua”.
3. Era um homem muito calado mas adorava trava-línguas. Este era na verdade o único tema que lhe soltava a língua e o fazia falar durante horas.
4. Tropeçava muitas vezes na língua, razão que o levou a deixar de falar enquanto andava.
E pode-se fazer mais, muito mais, sempre a brincar com a língua.
5. O gato comeu-lhe a língua, e não foi em sentido figurado. Felizmente, ele estava já estava morto e nada mais tinha para dizer.
6. Adorava tanto a língua materna que a conservou até ao fim da sua vida em formol.
7. Falava português fluentemente, com excepção das raras vezes em que mordia a língua.
8. Tantas vezes deitou a língua de fora que um dia ela não voltou para dentro.
9. Tinha uma língua porca. Um dia lavou-a e nunca mais conseguiu dizer um palavrão.
10. Estavam a falar quando ela lhe meteu a língua no ouvido com sofreguidão. Depois ela nada mais disse e ele nada mais ouviu.
Brincar com a língua, espero estar a convencê-los disso, é não só divertido mas também importante, porque nos dá a conhecer a língua que usamos e a tirar dela mais prazer e utilidade.
11. Lengalenga
O que é importante é distinguir o que é importante do que não é importante.
Perceberam alguma coisa? Perceberam pelo menos que me diverti a usar numa frase tão curta a palavra importante três vezes!
Para terminar, uma brincadeira com a língua que usa não só a nossa língua mas também a dos nossos vizinhos espanhóis, aqui tão perto. Sem dúvida que conhecem a palavra embaraçar, e já uma vez ou outra o ficaram. Agora se pensarmos em “embarazar”, que se pronuncia da mesma forma (pelo menos foi o que me garantiram) aí as probabilidades serão menores, pois embaraçar significa engravidar. E olhem que acontece aos melhores. Quando a Parker Pen começou a vender uma caneta esferográfica no México, os anúncios deveriam dizer "it won't leak in your pocket and embarrass you", ou seja, “não vazará no seu bolso e não o embaraçará”. No entanto, a empresa pensou que a palavra "embarazar" tivesse o mesmo significado que embaraçar, de modo que o anúncio acabou por dizer, depois de traduzido, qualquer coisa como: "Não vaza no bolso e você não engravida".
Então até qualquer dia. Deixo-vos com um abraço e a última brincadeira com a língua.
12. Conselho aos homens
Em Espanha, tenta nunca embaraçar uma mulher, a não ser que o desejes mesmo, e ela também.
*
Eu, vou socializando por aí...

domingo, outubro 30, 2005

Contrasenso convida

Apenas para vos deixar online o texto do meu convidado na coluna "Contrasenso" da Voz de Loulé de 1 de Novembro. Joaquim Mealha Costa fala sobre:
Tempo de angústia, tempo de esperança

A vida é assim. Um somatório de alegrias e tristezas. De momentos desagradáveis a que se sobrepõem outros de satisfação. Em cada tempo, podemos viver bons e maus momentos e uns compensam os outros. Afinal a vida é o equilíbrio de tudo isso, o que nos acontece de bom e de menos bom.
Também na nossa vida colectiva se aplica esse mesmo princípio.
Ouvindo e lendo o que a comunicação social nos vai fazendo chegar sobre a realidade do País, sobre as medidas do Governo, em curso, sobre o estado de espírito dos Portugueses, somos forçados a constatar que o momento é de depressão colectiva, de descrença em soluções de curto prazo, nem a chamada luz ao fundo do túnel se vislumbra.
Mas, após um acto eleitoral, em que apesar da significativa abstenção, muitos Portugueses foram votar, demonstrando que apesar de tudo, ainda acreditam um pouco que algo pode mudar, é também tempo de ter esperança.
Lendo os manifestos de campanha ou ouvindo os discursos de tomada de posse dos autarcas, mesmo os reconduzidos em novo mandato, contactamos que é seu propósito fazer mais e melhor do que até aqui. Afirmando mesmo que: é preciso adequar os serviços à sua função de servir com eficiência o cidadão, é preciso que as populações, os agentes económicos, sociais, culturais sejam chamados a participar e decidir sobre a sua terra, é preciso melhorar a qualidade de vida nas cidades e no campo…
A maior proximidade entre os autarcas e as populações ainda permitem que se estabeleça algum nível de confiança. Mas essa confiança também, rapidamente se perderá, se não houver efectiva correspondência entre o que se diz e o que o cidadão pode constatar no dia a dia, como efeitos da gestão autárquica.
Estamos pois num momento, em que perante a descrença nas soluções sistematicamente repetidas pela governação do País, se apresenta a esperança de um mandato autárquico que responderá de forma mais adequada às necessidades de desenvolvimento do município e de qualidade de vida da população.
Este será no entanto um tempo curto. Tal como o governo do Eng. Sócrates passou rapidamente de esperança a pesadelo, também no governo autárquico se exigem no curto prazo medidas que confirmem o sentido da esperança.
Hoje não é possível dar tempo ao tempo, deixar que o tempo resolva. Vivemos tempos de decisão.
Esse é o nosso grande problema, o de termos que tomar decisões sem esquecer no caso da governação, seja ela nacional ou autárquica, que os destinatários do seu trabalho são as pessoas, as de hoje e as de amanhã, que anseiam por uma vida melhor.
Esperemos que à angústia, à descrença, se sobreponha a esperança. Mas também, cabe a cada um de nós cultivar e contribuir para inverter este estado de espírito, esta realidade por vezes dolorosa.
*
[Amanhã nas bancas a edição em papel]

segunda-feira, outubro 24, 2005

Contagem decrescente,

no caminho ascendente da tese: zero horas. aqui voltarei só quando o chão parar de tremer. e o relógio reiniciar a marcha.
Nota: excepção à publicação online das colunas "Contrasenso" dos meus convidados-dias 1 e 15 de cada mês.

domingo, outubro 23, 2005

Puro prazer,

a compra do Mutts III, Mais Coijas, de Patrick McDonnell.

Ler:

«Quantas mulheres, mesmo aquelas que conhecem perfeitamente o seu corpo e todos os botões e reostatos, que exploram e deixam explorar todos os milímetros de pele que estão disponíveis e mais alguns que ficam menos à mão, são capazes (sem sentir qualquer desconforto) de dizer ao parceiro agora vou aqui bater uma e tu ficas a ver?». No Sociedade Anónima.

Similitudes

«Existe um blogue “não oficial de apoio à candidatura de Mário Soares à Presidência da República” chamado Super Mário. A coisa não deixa de ter graça e ser …infinitamente reveladora. É uma tentativa de reeditar o “Soares é fixe” de 1985...».
Pacheco Pereira (PP) no Abrupto.
«E qualquer governo, mesmo o de Sócrates, sabe que terá mais hipóteses de prolongar a sua vida útil com um Cavaco que resistiu a "presidências abertas" do que com a "magistratura de influência" de Soares.».
Francisco José Viegas (FJV) no JN .
*
O que diz PP, acima, já eu tinha dito aqui.
O que diz FJV, acima, já eu tinha dito aqui.
Ou estes homens andam a ler-me às escondidas, ou é melhor eu fechar o blogue...

Antologia de José Carlos Fernandes no "Correio da Manhã"

Como não tenho o reles hábito de guardar as pérolas só para mim, deixo-vos esta, oferecida a todos nós pelo nosso amigo Zé Carlos Fernandes. Não vá a correr às bancas sem eu ter comprado o meu exemplar. Se assim for, escondo já a preciosidade!:

«No próximo domingo, dia 23 de Outubro, vou aparecer no "Correio da Manhã" sem q para tal tenha que atacar uma velhinha com um taco de baseball ou roubar o carro do padre de Querença e ir conduzir em contramão para a Via do Infante, após assaltar uma bomba de gasolina famosa na Fonte de Boliqueime.
Por outras palavras, nesse dia, o infame pasquim "Correio da Manhã" vai "oferecer" (no esquema jornal + livro: x euros) aos seus leitores a possibilidade de adquirirem uma não menos infame antologia de 200 pg deste vosso rastejante criado, incluída numa colecção de "Clássicos da BD: Série Ouro" (não sei bem o q quer isto dizer: julgava q para se ser clássico era rigorosamente indispensável estar-se morto, mas parece que agora basta ter o cabelo a rarear; quanto ao ouro é mais fácil de explicar, pois está visto q este golpe me vai deixar podre de rico). (...)». Zé Carlos.

sábado, outubro 22, 2005

estórias do cavaquismo futuro

A apresentação da candidatura de Cavaco Silva, também foi fértil em fait-divers:
1. Anabela Neves, da Sic, a chamar Maria Aníbal Cavaco Silva à mulher do candidato;
2. No final do discurso do candidato independente e profissionalmente apolítico, a JSD a gritar: "Cavaco amigo, a Jota está contigo!";
3. Na apreciação do PS ao discurso de Cavaco, Vitalino Canas - tal como Valentim Loureiro nos tempos de Guterres: "... não ficou claro o que o Pres ....ââ ... Professor Cavaco...".

quinta-feira, outubro 20, 2005

Atenção:

Hora de parar tudo: a tese, as aulas e mais prosaicamente, o almoço. É que Cavaco Silva chegou mesmo agora para almoçar no Grémio Literário. E pediu espargos, sargo e vinho da herdade do seu director de campanha. O mundo parou e até a gripe das aves congela até às 20 horas, em Belém. Só não gostei de ver a minha fadista preferida na mesa do almoço. Do resto gostei tudo, como se percebe.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Olhó Jardel!

E eu pensava que esta gente tinha o sentido da decência. Ou um maior "sentido de estado". Primeiro foi o Soares é fixe! Agora é o Super-Mário.

Desorientação

Afinal o sono levou-me a outras paragens. E o melhor é falar de sociedades anónimas, aquelas em que não se conhecem os ricos que são sete vezes mais ricos que os pobres, isto no dizer de gente rica insuspeita. Ricos como aqueles que agora andam tão assustados com os seus escritórios e bancos vasculhados pela devassa da polícia, os homens que são tão importantes para a sobrevivência económica do país, Salgado dixit. Mas a sociedade anónima de que eu quero falar é outra: jovem, irreverente, femina sapiens, ai as mulheres quando se juntam, Francisco. Beleza pura! Vão mas é ler aqui.

Pré-post

Não sei se escreva sobre a comoção de Dias da Cunha, entre os seus dois despedidos, sobre o plano radical do governo para a erradicação das aves infectadas, sobre o minuto 29 do Vilarreal-Benfica, sobre a OTA e o TGV no OE de 2006, sobre os scones da reunião da comissão política de Mário Soares, sobre... Desculpem lá, vou dormir e amanhã decido.

terça-feira, outubro 18, 2005

Ataíde Oliveira

O texto de Luís Guerreiro, na coluna "Contrasenso" da Voz de Loulé, vertido mesmo num post aqui por baixo, - sobre o monografista Ataíde Oliveira - suscitou uma réplica do António Baeta Oliveira, do mesmo nível de qualidade que aconselho vivamente a lerem. É só clicar no nome sublinhado.

segunda-feira, outubro 17, 2005

A ler

«Aves: truz truz
Erguem-se barreiras nos céus às aladas arribações. Por causa da gripe. Dizem. Sabemos de ciência escrita que se não puserem cá os ovos os filhos morrem à nascença. As que não dão sinais de fome e pobreza seguem pela via verde.»

Paciência de Job

Em final de trabalho, a edição do 3º CD do catálogo "Tradição Musical de Loulé", desta feita sobre Outras Músicas: paciência, muita paciência para ouvir e seleccionar as nossas gravações de há mais de 20 anos no barrocal do concelho. Agora é ouvir com muita atenção, rever o estudo para o booklet e esperar, para todos ouvirmos.

Co

Adrianse só viu lenços brancos nas mãos de benfiquistas. Mentiu. Mas os adeptos do Benfica também podem dizer adeus a um treinador que também disse que quando os visse iria embora. Não foi e depois diz que nunca o disse. O FCP merece-o.

domingo, outubro 16, 2005

CONTRASENSO convida

Amanhã deve estar nas bancas A Voz de Loulé de 15 de Outubro. Neste número, a coluna "Contrasenso" conta com a participação de Luís Guerreiro, com um trabalho sobre Ataíde Oliveira, que pode ler aqui:
*
Ataíde de Oliveira, Benemérito do Algarve
Quem o assim apelidou, entre outros encómios, foi o grande Mestre e sábio Leite de Vasconcelos nos primeiros anos do séc. XX. Francisco Xavier de Ataíde Oliveira morreu em Loulé, em 20 de Novembro de 1915, portanto, há exactamente noventa anos. Foi um notável investigador, escritor, jornalista e sobretudo um grande monografista. Pode-se discutir o estilo, se era ou não um bom prosador, se as suas obras têm muitos ou poucos erros, mas ninguém pode pôr em causa a valia do seu trabalho, a dimensão do seu legado e o pioneirismo no Algarve de muitas áreas que aflorou. É evidente que as Monografias posteriores passaram a ser mais perfeitas, tendo presente que quem cultivou o género tinha outra preparação, outros domínios do saber e outras facilidades de investigação. Por exemplo Estanco Louro que escreveu uma excelente Monografia de S. Brás de Alportel tinha formação académica adequada com conhecimentos de arqueologia, etnografia e epigrafia. Ataíde Oliveira era Bacharel, formado em Teologia e Direito pela Universidade de Coimbra. Julgo que depois de receber as Ordens de Diácono e Presbítero, nunca exerceu o sacerdócio, embora fosse carinhosamente tratado por muitos louletanos por Padre Ataíde ou simplesmente por Padre pelos adversários políticos. Ataíde de Oliveira era do Partido Regenerador e um grande amigo e correligionário do grande Louletano Dr. Marçal Pacheco, político de grande prestígio, Deputado e Par do Reino . Aliás, diz-se que foi graças a esta amizade que Ataíde Oliveira ficou devendo a sua nomeação para Conservador do Registo Predial de Loulé, porque como era padre estavam-lhe interditos a ocupação de certos cargos públicos.
Ataíde Oliveira fundou o primeiro jornal que Loulé teve, em 31 de Março de 1889, “O Algarvio” e colaborou com dezenas de periódicos.
Da sua obra publicada em livro deixou-nos os Contos Infantis, Mouras Encantadas, Contos Tradicionais, Romanceiro do Algarve, Biografia de D. Francisco Gomes de Avelar e Memória do Bispado do Algarve e Monografias de Loulé, Algoz, Olhão, Alvor, Vila Real de Santo António, S. Bartolomeu de Messines, Paderne, Estombar, Porches, Luz de Tavira e Estói. Temos que admitir que perante uma tão vasta bibliografia, aliada à permanente actividade jornalística, numa época em que o Algarve estava praticamente isolado do resto do País, com dificuldades de acesso à Torre do Tombo, aos Arquivos Públicos e à inexistência de boas Bibliotecas, o seu labor deve ter sido extremamente difícil e extenuante. O que lhe valeu foi uma boa rede de conhecimentos pessoais, em particular os Padres das freguesias e muito especialmente o povo, guardião de tradições e saberes que não estão escritos em nenhum lado. Conta o Dr. Guerreiro Murta, que o conheceu pessoalmente, que Ataíde Oliveira convidava as pessoas mais idosas das freguesias a virem ao seu gabinete de Conservador do Registo Predial, onde mercê da sua simpatia e trato fácil, registava estórias, contos e velhas recordações, pagando aos mais pobres um pataco (40 réis) por cada lenda e conto ou por cada feixe de quadras. Foram estas pessoas a principal fonte do seu trabalho. Quando Ataíde Oliveira morreu em 1915, na terra que ele escolheu para viver ( ele era natural de Algoz- Concelho de Silves), Manuel Viegas d´Olival escreveu num jornal de Loulé, “O Primeiro de Maio”: “ O que o Algarve lhe deve, desculpai-me a franqueza é quase ignorado no Algarve. As suas obras literárias sobre o Passado e os encantos do Algarve elevaram-no à categoria mais alta dos homens de Letras do nosso País. Ataíde Oliveira trabalhou pela sua Província e por esta terra como um fanático trabalha pelo seu ideal”.
Quando em 2005, se assinalam noventa anos sobre a sua morte e no Algarve se comemora uma Capital da Cultura, com um Programa diversificado em vários domínios, entre os quais um conjunto de conferências sobre Ilustres Personalidades das Letras do Algarve, é pena que ninguém se tenha lembrado do maior Monografista do Algarve e um dos maiores regionalistas de sempre, com todo o significado que isso possa ter. É certo que uma Editora privada nos últimos anos tem vindo a reeditar a sua obra, que o Dr. Mário Lyster Franco tenha proposto em 1930 uma grande homenagem ao insigne investigador com a colocação do seu busto no Largo de S. Francisco em Loulé, mas neste ano especial nem uma palavra sobre Ataíde Oliveira, nem um Colóquio, um folhetozinho, um Workshop, uma medalha evocativa. Tenho esperança que ainda se faça qualquer coisa.

[Luís Guerreiro]
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nota: a coluna em papel é acompanhada de uma foto de Ataíde Oliveira.

Benfica

O erro de Baía - ao contrário de Koeman - foi ter convidado Nuno Gomes para o seu aniversário.