domingo, julho 24, 2005

Luiz Pacheco

Foi mau vê-los todos no consenso, ternurento e lamacento: Luiz Pacheco é o maior! Mas o homem que escreve isto,
Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé...
é um maldito, libertino, libertário, comunitário, isso, comunitário, de «Comunidade». Leia-a, caraças!

Millôr

Olha, olha, agora o Millôr vestiu-se de cor de laranja. Tudo por causa do branqueamento do Lula.

Profundidades

Pulo do Lobo= Alentejo profundo
Presidenciais= conversa profunda
[Cavaco dixit]

sábado, julho 23, 2005

«Algarve, sem o mar»

O Luís deu-me o grato prazer da ofertança de «Algarve, todo o Mar» uma colectânea de poemas e prosas sobre o Algarve, editada pela D. Quixote há um mês atrás. São 431 páginas de Ramos Rosa, Casimiro, Gastão, Júdice, Luiza Neto Jorge, Lídia Jorge, só para citar alguns algarvios entre muitos outros e ainda outros que escreveram sobre o Mar (algarvio?). Entre muitos nomes “poéticos” de escolha duvidosa, a divina Providência e colega esqueceram-se de um dos maiores poetas algarvios vivos [nasceu 1955]. Talvez por ele não frequentar o millieu das coutadas e preferir acompanhar o bas-fond dos artistas. Só por isso, todos os dias serão dias de poemas seus:

Quando em Circe

Quando em Circe de súbito encontraste
Essa baía meiga onde aportar
Tu, Ulisses, urdidor de ventos e caminhos,
Que ilha por ilha em vão buscaste
Ítaca, a misteriosa, sobre o mar,
Festejaste com mel, canções e vinhos
Essas luas altas que beijaram o teu navio;
E a brisa difluindo veio ver
A flor estranha dos deuses em cuja haste
Cresceste para o sol, por esse rio
Que navegaste ao doce anoitecer
Quando Circe de súbito encontraste.

Fernando Cabrita, O Sul, Poemas Algarvios.

sexta-feira, julho 22, 2005

Inquietude

Quietude, inquietação, quietude, inquietação...inquietação, inquietação...

O Tradutor

Francisco Louçã deu uma entrevista ao Público. Como pensa que nós não sabemos ler, Pacheco Pereira quer-nos ofertar a sua tradução...

Novas do jardim Charles Bonnet

A destruição do jardim Charles Bonnet, em Loulé, continua a suscitar o interesse da imprensa e da blogosfera. O problema já não está circunscrito a Loulé. Miguel Ramalho escreve crónica sobre o tema no jornal «Expresso». O "Dias com Árvores", um blogue sempre atento à respiração ecológica, divulga o assunto a nível nacional [Obrigado, pela informação, ao António].

Finalmente, notícias boas

Duas boas notícias para desanuviar as desgraças da gestão loulé concelho: o nº 10 da revista «al~uliã», com uma panóplia de bons artigos e ensaios sobre a arqueologia de sítios litorais e a biblioteca ao ar livre instalada na Praça do Mar, em Quarteira.

Sectarismo

Enquanto o consumo cultural se esvai nos corredores do Teatro Municipal de Faro, eu ando ostracizando selvaticamente a dita capital da cultura. Um sectário invejoso é o que sou!

quarta-feira, julho 20, 2005

Sobre o jardim Charles Bonnet

Ler o que se diz aqui e aqui.

barlavento

Uma boa notícia: o «barlavento», o melhor jornal do Algarve, está online.
Uma má notícia: a partir de Setembro muitos dos conteúdos serão pagos.

Marketing de grande superfície

Depois dos concertos da Fnac na Guia, os concertos do Forum Algarve, em Faro. Em pleno a Estratégia de Lisboa.

A ler, sem dúvida

«Haverá muitos outros mundos fechados na craveira lusitana, mas estes - uns francamente actuais, outros menos e outros ainda um tanto mitológicos (como os dois últimos exemplificados) - já constituem uma boa amostra de algumas das fixações que andam aí à deriva. Tudo isto, numa era em que todos apostamos na Estratégia de Lisboa.». Luis Carmelo no Miniscente.

terça-feira, julho 19, 2005

Destruído jardim de Charles Bonnet em Loulé [actualizado]

[Actualizo este post para deixar referências a Charles Bonnet como engenheiro de minas, bem como ligar as notícias do Jornal do Algarve e da RTP sobre a nota da Almargem]
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NOTA DE IMPRENSA
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Destruído jardim de Charles Bonnet em Loulé
Aquilo que já se anunciava há muitos anos, acabou por concretizar-se. O popularmente chamado Jardim do Boné, situado na zona baixa da cidade de Loulé, foi arrasado para vir a dar lugar a um parque de estacionamento e mais uns quantos lotes de apartamentos. A obra resulta de um protocolo entre a Câmara Municipal de Loulé e os actuais proprietários do terreno. O Jardim do Boné ganhou esse nome devido a ter sido local de residência de Charles Bonnet, responsável pelos primeiros trabalhos consistentes de investigação sobre a geologia, a geografia e a história natural do Algarve. Os estudos deste engenheiro francês foram condensados no livro "Memórias sobre o Reino do Algarve", publicado em 1850 pela Academia Real das Ciências de Lisboa e que mereceu uma reedição em 1990 por parte da Delegação Regional da Secretaria de Estado da Cultura. Charles Bonnet viveu durante cerca de uma década em Loulé e aqui acabaria por falecer em 1867. A sua modesta casa da antiga Rua Nova de Quarteira estava rodeada de uma ampla quinta com cerca de 1,5 hectares, onde plantou espécies da flora algarvia e muitas outras espécies agrícolas e ornamentais. Apesar da degradação a que o local havia sido votado nos últimos anos, ele constituía efectivamente um dos poucos espaços verdes da cidade. Dezenas de árvores e outras espécies arbustivas foram já arrancadas nos últimos dias, pondo em risco o desejo de muitos louletanos que era ver este local transformado num verdadeiro Jardim Público. Em 1986, durante o 4º Congresso do Algarve, o Prof. Vilhena Mesquita propôs mesmo que no Jardim do Boné fosse implantado um laboratório de investigação botânica, capaz de atrair e motivar a juventude para o estudo da flora algarvia. Numa cidade, como tantas outras, sem vontade ou capacidade de investirem novos jardins e zonas verdes, é de lamentar que um projecto como este se venha a perder, tanto mais que, em Loulé, este era efectivamente o único espaço do interior da malha urbana da cidade onde ainda se poderia compensar de forma significativa o continuado avanço do betão e do asfalto. Desconhecem-se, neste momento, os contornos exactos do projecto de urbanização em marcha. Mas não serão certamente alguns canteiros plantados de mélias e palmeiras e rodeados de apartamentos de arquitectura duvidosa, que constituirão um bom contributo para a urgente criação de espaços verdes na cidade e, muito menos, uma forma digna de homenagear a memória de Charles Bonnet. Por estas razões, a Associação Almargem exige que, no mínimo, seja preservada a casa de Charles Bonnet, se proceda à sua recuperação e transformação em espaço público dedicado à divulgação da obra deste insigne investigador a quem o Algarve muito deve. E também que uma parte do terreno agora devassado seja reservado para instalar um pequeno Jardim Botânico com espécies da flora algarvia.
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Loulé, 12 de Julho de 2005
Contacto: João Santos (289412959)
Almargem
Nota pessoal: ainda ontem, conversava com um amigo sobre a destruição deste jardim e falávamos da possibilidade de, urgentemente, escrever sobre o tema, já que parece que a actual Câmara adora derrubar património vegetal. Hoje, ao abrir a caixa de correio deparo com este lamento da Associação Almargem que aqui edito como forma de solidariedade e de protesto.

segunda-feira, julho 18, 2005

A dicção dos media

A jornalista da Sic, referindo-se ao grave incêndio de Guadalajara, em Espanha, dá a notícia com ligeira displicência: "As chamas mataram 11 bombeiros...". Se noticiasse um atentado terrorista ou um suicídio militante, como o pronunciaria?

Timbuktu

«Tudo o que tinha a fazer era dar um passo em frente e num instante estaria em Timbuktu. Estaria na terra das palavras e das torradeiras transparentes, no país das rodas de bicicleta e dos desertos escaldantes, onde os cães falavam como iguais com os homens. Willy reprovaria de início, mas só porque pensaria que Mr. Bones chegara a Timbuktu à boleia do suicídio. Porém, aquilo que Mr. Bones tinha em mente estava longe, muito longe, da baixeza do suicídio». Paul Auster em «Timbuktu».
Aqui está a prova de que Mr. Bones deveria governar este país.

sábado, julho 16, 2005

"Contrasenso" convida

A coluna “Contrasenso” da Voz de Loulé de ontem, é da autoria da minha convidada Maria Amália Cabrita. Aconselho vivamente a sua leitura, dado tratar-se de uma análise extremamente interessante sobre a problemática do capitalismo na sua versão consumista. A sua retórica, mostra ainda um cariz neo-marxista bem patente na linguagem, na desmontagem e no título. É uma boa leitura para o fim de semana que se segue. Disponibilizo, aqui, o texto na íntegra:
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Um espectro sobre a Europa

Paira um novo espectro sobre a Europa mas para já não é o do comunismo. É o do algarismo. Podia-se dizer de forma mais elegante e apontá-lo como o fantasma do número mas talvez ele não mereça tanto.
O número é um conceito intelectual, com uma longa tradição platónica e aristotélica atrás de si, ao passo que este espectro é uma criação de merceeiros. O algarismo domina agora do Atlântico aos Urais. Perante ele caíram para sempre todas as fronteiras europeias, de tal modo que não há no momento ministério do interior que as possa repor, nem que seja por meia dúzia de dias de futebol.
Os europeus tinham começado a sucumbir perante o espectro já há muito tempo. Por exemplo, aquele que foi provavelmente a grande criação estética da modernidade, o Romantismo, já se definia pela exaltação da qualidade e pela recusa da quantidade. Simplesmente, enquanto o capitalismo tinha uma missão criativa e prosseguia na sua obra de desencantamento do mundo, a sua sombra não cobria tudo. Na altura dos românticos parecia ainda possível comparar qualidades (a natureza independente, os lugares não europeizados, o passado pré-capitalista mitificado, etc.) contra quantidades (o dinheiro, a mercadoria, o preço). Fazia-se a exaltação do valor de uso contra o valor de troca e essa operação era possível porque as duas realidades coexistiam, embora conflituosamente, para as “almas sensíveis”.
Deixou de haver “almas sensíveis” dessas, quando deixou de haver alguma coisa para comparar. Com a potência de uma bomba de neutrões sobre todos os modos de produção anteriores, o capitalismo varreu-os e decretou que passava a haver apenas quantidades, sob a forma de unidades contabilísticas. Como permaneceram algumas palavras consagradas e o materialismo filosófico continua a ter muito má reputação, continuou a dizer-se que o mundo tem uma alma, mas agora pouca gente não saberá que ela de facto é numérica. Sendo assim, as palavras tinham de ser recicladas. Se tudo o que muda é uma alteração quantitativa, o fundo lexical deverá ser retirado da ciência do nosso tempo, a contabilidade. A iniciativa chama-se agora “empresa”, a introspecção é um “balanço”, as vitórias são “benefícios” e as derrotas, “perdas”. Agir no quotidiano é “gerir” e quando se deve arriscar ou ceder, evidentemente, que se“investe”. Como a palavra “valor” – aparentemente impoluta perante o novo Código da Substância – ainda estava, vendo melhor, demasiado associada ao mundo da qualidade, considerou-se mais livre de efeitos secundários trocá-la por miúdos e falar em “mais-valia” e “lucro” sempre que alguma coisa corre bem. É claro que gente pouco recomendável como os metafísicos, os ricardianos e – horresco referens – os marxistas as tinham consagrado noutro contexto mas quem “investe” hoje em dia nessas leituras? O verbo socialmente certo é, evidentemente, “valorizar” que, como é obvio, não significa agora dar valor mas reproduzir com valor acrescentado.
O hábito de pensar com palavras talvez seja um dos próximos a desaparecer. De facto, o totem do capitalismo tardio obriga-o a fazer economias em tudo, o que significa que há palavras a mais. A sociedade não precisa apenas de reciclar as antigas, pode passar sem muitas delas. Bom, o que o capitalismo precisava era de facto de uma nova linguagem, formada por zeros e uns, como os circuitos electrónicos. Ah, mas isso custa demasiado para já, é coisa para o futuro próximo. Vale uma “aposta”?
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[Maria Amália Cabrita]

sexta-feira, julho 15, 2005

35 horas

Segundo o governo, o horário semanal dos professores passará a ser de 35 horas na escola, portanto, sete horas por dia. Acrescente-se, o trabalho do professor fora da escola, na preparação de aulas, avaliações, pesquisas, etc. Das duas uma: ou o dia do professor tem mais de 24 horas; ou o professor vai ter de reduzir, ou mesmo eliminar, o trabalho pedagógico e didáctico fora da escola. Aposto na segunda, com as consequências que esta medida parece querer eliminar. Serão os alunos, mais uma vez, que irão perder. Quem não trabalha, não devia legislar!

Lucky Luke

Estes homens escrevem mais rápido que as suas próprias sombras. E já agora leiam, lá, este post com a rítmica e gozada letra de Tom Zé, "Jimi renda-se", em «Jogos de Armar».

Liberdade, igualdade, fraternidade

O mundo faz-se, quase, só destas três palavras. Ou das suas antíteses!