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segunda-feira, fevereiro 04, 2019

A teoria das classes sociais e Olin Wright

O João Martins deu conta da morte do sociólogo Erik Olin Wright. Nas leituras para a minha tese de doutoramento lá andei à volta dos textos deste autor, quase sempre sobre a teoria das classes sociais. Considerava ele que o marxismo deveria repensar-se a partir do descalabro dos regimes ditos comunistas, e essa reflexão deveria ser feita dentro de uma nova perspetiva de análise das classes sociais. Em 1983 escreveu mesmo um texto que intitulou de "O que é neo e o que é marxista na análise neo-marxista das classes?" para explicar o seu ponto de vista. Em 1997 publicou uma importante pesquisa empírica «Class counts: comparative studies in class analysis», pela Cambridge University Press. O sociólogo português João Ferreira de Almeida escreveu um texto (1981) onde ajuda a perceber a teoria das classes sociais, citando também Olin Wright, sobretudo o seu livro anterior «Class, crisis and the State» (1978).

quinta-feira, novembro 15, 2018

Henrique Raposo e a Web Summitt

Henrique Raposo, cronista do Expresso, ali ao lado do contraditório de Daniel Oliveira, todos os sábados em papel, tem sido por mim desprezado na maior parte das leituras, desde sempre. Acontece que, por estes tempos, com as leituras do expresso diário, tenho vindo a aproximar-me das suas crónicas curtas, incisivas e sempre diversificadas. Esta característica permite-me ler umas e ignorar outras. Das que li recentemente, as que versaram a Web Summitt, tocaram na 'mouche', mostrando como o novo capitalismo se transmuta e usa como veículo fundamental as redes tecnológicas. Não só como produto, mas acima de tudo como aparelho ideológico do capital, parafraseando o velho conceito de Althusser. Enquanto quase toda a gente se baba com a cimeira do novo capital, que agora se instalou em Lisboa, por uns anos (e entre eles muitos socialistas e prosélitos), Raposo consegue uma análise sociológica acertada, mesmo que do ponto de vista conservador, direi eu. Talvez a nossa origem operária e do sul, nos torne ainda mais próximos...

terça-feira, setembro 01, 2015

A crise da crítica

Se há uma crise que me preocupa deveras, ela é sobretudo a crise da crítica. Provavelmente, é a capacidade e competência em exercer uma crítica inteligente aquela que mais sofre com o mundo arrasador da crise ideológica e política. Sem ela podemos assistir à agitprop perigosa do primeiro ministro, às manifestações imberbes da discriminação e xenofobia social sobre os processos migratórios, à devastadora mobilização do pão e circo das festas de verão pagas com as 'dívidas soberanas'. Restam, no pensamento crítico, os cidadãos que se recusam a deixar de ler, pensar e fazer umas simples contas, ou os sociólogos ou cientistas sociais, que remam contra a corrente e que muitas vezes sem remos são acusados de malucos e radicais.
A propósito do que nos entra pelos olhos dentro, ou que buscamos entender do que se esconde nos bastidores da administração política, quer seja no governo da direita austeritária, ou na Câmara socialista de Loulé obriga-nos, com toda a sinceridade, a afirmar a total concordância com o João Martins. É esse caminho, da resistência inteligente, que temos que prosseguir e perguntar-mo-nos: não há ninguém que se revolte pelo facto de a tribuna do salão nobre da Câmara de Loulé ter servido de discoteca ambulante na Noite Branca? Não há ninguém que se pergunte para que serve um IKEA a devastar a  reserva agrícola em terrenos próximos da via das portagens? Se não há ninguém, bardamerda! Então, temos que voltar à revolução.

quinta-feira, julho 24, 2014

Evitar hoje os amanhãs que cantam

A propósito do meu post abaixo, e na convergência de pensamentos à esquerda, cito um extrato da 2ª parte de um texto de Rui Bebiano. É bom perceber que existem muitas similitudes de ideias por este país fora, o que nos dará esperanças. Assim vamos lá.

O que se prevê para um futuro próximo é a apresentação ao eleitorado de diversas propostas no campo da esquerda. Propostas sem qualquer intenção de unir, mas sim de aproximar no que é essencial. Plurais como nunca, e abertas à mobilização e ao debate dos programas e dos compromissos que envolvem o jogo eleitoral. O surgimento no terreno de forças como o Fórum Manifesto, o que resta do Manifesto 3D e do Congresso Democrático das Alternativas, o Livre ou o PAN só é mau se não for possível um entendimento na diversidade. Mas neste jogo o Bloco de Esquerda terá um papel a desempenhar. Resta saber se alinhado no lado dos que se centram no diagnóstico, ou na imaginação de uma terapia, mas ignoram a cura, diferida para uns quaisquer «amanhãs que cantam». Ou no daqueles que procurarão sempre, independentemente das suas convicções – levadas quando necessário também para a rua e para o protesto –, encontrar em comum um compromisso imediato para minimizar a desgraça e retomar a expectativa de uma vida melhor.
Ler o texto integral aqui.

sexta-feira, janeiro 10, 2014

Êxtase coletivo

Também eu, que joguei futebol no Silves Futebol Clube,  que me habituei a admirar o Eusébio desde 1966 (quando tinha 10 anos), me aflijo quando vejo um êxtase coletivo que sublima as suas desgraças e passividades com lágrimas e apelos excessivos num funeral de um homem. E não me importo de desalinhar do coro de uma sociedade, de povo, autarcas e políticos, que levam ao colo Eusébio para o panteão nacional (túmulos que pouco me importam), como se eles próprios se 'libertassem assim da lei da morte'. Tem razão Pacheco Pereira. O próximo choradinho será com Cristiano Ronaldo, e viva o futebol!

sábado, novembro 23, 2013

O Estado e a Esquerda

Mas há uma cultura instalada de dependência do Estado que não autoriza, sequer, que se raciocine. Vem de muito longe, mas foi cimentada com o salazarismo, o gonçalvismo e o Portugal dos dinheiros europeus.
Esta citação, retirada da crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso de 9 de novembro, a propósito da análise ao ataque ao funcionalismo público no quadro do pagamento da crise, pode parecer uma marca de direita, mas não é. De facto, num contexto de crise estrutural do segundo pós-guerra, depois de ter sido inventado o estado providência e da social-democracia ter desenvolvido um estado social forte, não mais se deixou de pensar no estado como a última fortaleza dos direitos sociais dos trabalhadores. Agora que a classe operária desapareceu, no seu formato clássico, e quase todos nós somos assalariados do estado, o nosso pensamento molda-se a partir de uma visão estadocêntrica, como refere Rui Canário. Esta visão, muito longínqua das velhas ideologias anarquistas e anarco-sindicalistas (que afirmavam "Nem patrões, nem Estado"), tem marcado toda a análise de esquerda sobre as sociedades e, provavelmente, tem contribuído para uma incapacidade crítica de pensamento e de transformação social.

domingo, novembro 10, 2013

100 anos de Cunhal

Devo dizer que Cunhal e o PCP nunca me atraíram por aí além. Aliás, a maior parte das vezes encontrei o PCP na barricada contrária. O facto de ter nascido numa cidade operária, onde o peso histórico dos anarquistas era tão ou mais forte do que o do PCP, levou-me para caminhos juvenis de militância mais radical. De Cunhal li com interesse o Rumo à Vitória, para conhecer as suas ideias sobre a 'revolução democrático-nacional' (tenho uma edição de junho de 1974). E mais tarde, em 1978, li com muito gosto o Até Amanhã Camaradas, de Manuel Tiago, que toda a gente desconfiava ser de um Cunhal mais jovem e romântico, como todos e todas pensávamos poder vir a ser. Mas a única maneira mesmo de combatermos as suas ideias é conhecê-las. Por isso vou ali ver a entrevista de Pacheco Pereira sobre o tema e já volto.

domingo, novembro 03, 2013

Os outros dentro de nós

A fobia antiterrorista dos EUA, sobretudo após o 11 de setembro, mostra como muitas vezes procuramos nos outros a responsabilidade dos nossos males. Este país, que se construiu como um melting pot de diversidade cultural e sociológica, só pode dar nisto. Tem dentro de si raízes de mal e de bem e, por essa razão, não vale a pena procurar nos outros, na alteridade, aquilo que é elemento comum da sua identidade.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Grupo Folclórico da Casa do Povo de Alte

Quem me visita aqui, tem encontrado algum vazio. Na verdade tenho andado a escrever (e a ler muito) noutros lugares e suportes. De um deles dá-se aqui registo, o livro sobre a história do Grupo Folclórico de Alte (GFA), que terminei recentemente após cerca de 8 anos de investigação e que foi apresentado no dia 4 de outubro passado em Alte, no dia do 75º aniversário do GFA. O livro, cartonado, de 144 páginas e cerca de 100 imagens de fotos e documentos, pode ser adquirido na Casa do Povo de Alte que o editou.
Agora vou partir para outra: o meu doutoramento em educação popular vai sendo atrasado mas está sempre em andamento, como as velhas automotoras.

sábado, março 23, 2013

1900

1900 é um dos filmes mais emblemáticos de Rossellini. Filmado em 1976, reproduz a primeira centúria do século XX, contrabalançando a ascensão do fascismo mussoliniano com a organização sistemática das ligas camponesas e operárias da Itália e da Europa. Vi-o em Portimão, no Cine Teatro, em 1977, provavelmente, pois no ano seguinte já estava a viver em Faro. Recordava-me de muitas das cenas marcantes do romantismo (mais do que do neorealismo) do realizador, sobretudo das paixões, dos conflitos e das festas camponesas, entre o bucolismo dos campos e a paleta multicromática dos cenários reais. Mas, ao tempo, uma das marcas identitárias da luta antifascista, a morte do gato preto e branco - perpetrado pelo camisa azul representado pelo ainda jovem ator Donald Sutherland - foi uma das representações simbólicas mais evidentes.
No passado sábado a RTP apresenta a primeira parte do filme (que tem cerca de seis horas) a altas horas da noite. Dou por ele por acaso, no zapping à espera do Eixo do Mal, e vejo-o a partir do momento em que o descobri, anunciando-se a segunda parte para hoje. Uma busca incessante encontra a 2ª parte do filme prevista a partir das 01:30 da madrugada, a desoras portanto. Um mau serviço público é o que cabe dizer.

sexta-feira, outubro 19, 2012

Robert Kurz

A vida é assim, surpreendente, e a morte prosaica, às vezes. Hoje, ao arrumar os favoritos (já extensos) na barra do portátil, descubro a morte de Robert Kurz, um pensador anticapitalista dos mais interessantes que me habituei a acompanhar na revista EXIT, que fundou e na qual criticou capitalismo e iluminismo, teorias economicistas e o trabalho como escravidão. Influenciador do Grupo Krisis, a equipa do célebre «Manifesto Contra o Trabalho» que a editora Antígona publicou em Portugal, deve ser lido quanto antes.

quarta-feira, março 28, 2012

O logro das estatísticas

Arrepia-me a diarreia estatística, sobretudo a dos arenguistas da bola. Mesmo há pouco, lá estava o papagaio de serviço ao jogo Benfica-Chelsea a dar mais uma: "O Chelsea sofre o maior número de golos, nos 15 minutos finais". Bem dito, mal feito! Logo de seguida o Salomão fez justiça às estatísticas.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Catálogo da criatividade anti-austera

[foto João Martins]

O João Martins está a construir um catálogo iconográfico de uma das mais importantes manifestações anti-austeridade em Portugal, que lembram a utopia das manifestações anti-capitalistas no pós Abril de 74. Para quem viveu esse período é fácil constatar como os ciclos de imaginação e de criatividade se repetem e sucedem, como tem sido ao longo da história da luta de classes no mundo. Vão lá ver a beleza que está por detrás daquelas imagens (link).

domingo, julho 31, 2011

Leitura obrigatória de fim de semana

Ainda vou a tempo de aconselhar uma leitura excelente, para ler pausadamente - pensando na nossa rua, na nossa cidade e nos nossos filhos - da autoria do João Martins (link).

terça-feira, abril 26, 2011

O uno e o múltiplo de Rosa

Voltando à excelente obra de Ramos Rosa, «Prosas seguidas de Diálogos», de que li mais alguns diálogos para-socráticos, em que o autor dialoga com o seu espelho "Mário", encontro a veia sempre anarquista, mas fundamentada em muitas leituras e escritas marxistas. Aí, Rosa apresenta-se com propostas sincréticas, ao estabelecer uma relação de aproximação entre o indivíduo e o colectivo, entre a unidade e a liberdade, que muito tem dividido os mais recentes pensadores contemporâneos. Oiçamo-lo:
Se as civilizações primitivas conheceram a unidade sociocósmica que poderíamos considerar perfeita, porque não hão-de os homens um dia criar uma sociedade una e livre, sem que um trabalho penoso e alienatório os impeça de realizar as suas potencialidades humanas? A aliança da unidade e da liberdade parece-me o ideal histórico mais adequado à humanização social do homem.

segunda-feira, novembro 02, 2009

As arengas da bola

Costumo lembrar-me do Zeca Afonso quando os acontecimentos do futebol obrigam a disparos para o ar, escarretas de ofensa e muitas batatadas nos esconsos do túnel. Aliás, o túnel começa a ser a palavra-chave da bola nacional. Dizia o Zeca, que estava farto das arengas da bola e justificava-o pelas discussões alienadas da plebe, nos tempos da trilogia Fado/Futebol/Fátima da ditadura salazarista. Vem esta memória a propósito dos acontecimentos dos jogos em que participaram o Sporting (em que os seus adeptos se revoltaram contra os resultados da equipa) e o Benfica (mau perder contra o Braga, sinónimo de sobranceria). O que é que o Zeca diria? Simples. Que o melhor seria o povoléu se revoltar contra o fecho de fábricas e contra o crescente desemprego. O capitalismo vai-nos dando a alienação da bola e ainda há por aí uns sociólogos convertidos que nos vão ensinando o que é a coesão e o escape social da mesma.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Treinador de Bancada #16

Como ser patriota hoje em dia

Ser patriota tem muito que se lhe diga. Ninguém já acredita (ou acredita?) que se trata de uma identidade nacional que nasce connosco e se inscreve na pele para toda a vida, (como aqueles números de prisioneiro nos campos de concentração nazis). Se eu me lembrar de que, no tempo da escola fascista, os manuais inculcavam essa ideia – que depois os professores as faziam cumprir a cantar o hino e de braço esticado conforme a cartilha nazi – então a repugnância ainda é maior. Felizmente os meus filhos não estudam por essa ideologia. Mas se há campo social onde esta questão do patriotismo se coloca com maior intensidade é no futebol, esse jogo epidérmico e emotivo que nos sai dos poros das pernas. Se olharmos para a selecção da “pátria”, a coisa torna-se mais aguda ainda. Toda a gente se lembra do Euro 2004 e não é só pelo descalabro financeiro da construção dos estádios, ou do 2º lugar que muita gente comemorou mas que foi a vergonha perante os discípulos de Sócrates (o filósofo grego, claro). Para esses ser patriota era isso mesmo: cantar o hino, encher-se de pinturas ameríndias ou carnavalescas, suar as estopinhas aos gritos ao árbitro e, sobretudo, andar de bandeirinha nacional em tudo o que é sítio: no assento do carro, no pescoço e nas costas, à janela; e até em locais mais prosaicos, como pô-la debaixo do rabo, ou a atapetar o chão da casa. Felizmente, para outros patriotas, as bandeiras não eram portuguesas nem tinham sido feitas em Portugal, mas num país distante e comunista (oh diabo!) como a China. Em vez de castelos tinham pagodes (lembram-se?) e as mãos que as coseram eram de meninos pobres ou mulheres pagas com uma tigela de arroz. Mas que importa isso, pá? Deixem-me mas é honrar a bandeira e a pátria.

O nosso vizinho escritor Javier Marías afirmava, numa crónica em 1994, que não estaria nesse ano com a sua selecção, a espanhola. A razão era que não queria ser patriota e apoiá-la só porque sim. E manifestava-se contra o treinador desse tempo e desfavorável às suas escolhas técnico-tácticas (como se verifica aqui, todos nós sabemos muito de futebol e aprendemos imenso com os comentadores encartados). Não sei se neste ano o escritor apoiou a sua selecção. Como ele acerta sempre, presumo que sim, pois a Espanha ganhou o Euro 2008; e não precisou de jogá-lo no seu país.

É claro que o primeiro tipo de patriotas apoia a sua selecção sem pensar naquilo que ela significa. Não lhes interessa o treinador, os jogadores, ou o que quer que seja, mas apenas aquele corpus verde-rubro, com uma manchinha amarela. Depois é só pontapé prá frente. Pois a mim, que não sou patriota, o que interessa é que a selecção seja dirigida, treinada e jogada por gente séria, inteligente e afável. Aceito que ainda existe por aí muita gente que dá excelentes pontapés na bola, e também excelentes pontapés na gramática. Ou noutras coisas, como a educação, a honestidade e por aí adiante. Mas não esperem que eu agora fale disso. Por todas as razões que venho enunciando nunca aceitei o bronco do Scolari como treinador “excelentíssimo”. E enquanto ele esteve por cá, fui farpando o homem onde podia. Sei bem que o que a malta patriota gosta é disso mesmo: um homem que vai pedir as vitórias a uma santa italiana no Brasil, que trata a equipa como uma tropa fandanga dirigida por um sargento, que gosta de mandar os jornalistas à merda. E que no final de tudo isto ainda pergunta: “e o burro sou eu?”. Como diria Grissom (da série CSI Las Vegas), a propósito dos porcos, não confundam o Scolari com os burros, animais inteligentes, educados e dóceis.

Compreende-se que os patriotas de que falo – os que amaram Scolari e agora vêem todos os jogos do Chelsea na liga inglesa – detestem Carlos Queiroz, o actual treinador. Percebe-se facilmente que Queiroz está nos antípodas do anterior seleccionador. Não sou eu que lhe vou apontar qualidades, mas apesar disso concedo e diria uma: Queiroz é educado, mesmo quando fala da confusão com o Sporting. E, sobretudo, sabe que foi ele que trouxe a geração anterior de jogadores até ao cume do futebol internacional. Coisa que Scolari deitou para o lixo (sei que alguns patriotas estão já a dizer que sou ingrato, pois o nosso melhor de sempre foi o 2º lugar europeu, mas não ligo à provocação). Estes patriotas nunca poderão gostar de um homem que se senta calmo num banco, que pensa o jogo entre os manuais e o campo, que responde aos jornalistas de forma contida e pedagógica. Mais: nunca perdoarão o facto de Queiroz ter destruído o séquito do clã scolariano, que tinha Ricardo como ponta de lança, ou de ter mudado os hábitos desleixados e individualistas da equipa.

Eu, como bom não-patriota, o que espero é que Queiroz tenha sorte e faça um bom trabalho, para bem de todos nós, patriotas ou não. Sei que isso é muito difícil, pelo simples facto de os oito anos de Scolari por terras lusas terem deixado a selecção na lama. Não estranhem o peso da expressão, que eu explico: não são os resultados que ficam; o que resta é um conjunto de comportamentos e atitudes (aquilo a que os patriotas chamam mentalidade) erróneas sobre o jogo e a competição. Querem um exemplo? Dou-lho já: Quim, o guarda-redes do Benfica e da selecção – o tal que veio do Europeu lesionado para não ter que aturar o banco eterno – já anda a imitar o Ricardo, nas saídas a bolas cruzadas; e nos frangos também. Vejam como tenho razão. Estes vícios pegam-se. Por isso sempre disse que Queiroz devia era ter ficado junto do seu mentor Ferguson, no United. Mas ele é muito mais patriota do que eu alguma vez serei. Boa sorte, então.

(A Voz de Loulé, 1 Outubro 2008)

quinta-feira, junho 26, 2008

Final

Confesso que uma final Alemanha-Espanha agrada-me. Quer ganhe uma ou outra equipa provar-se-á que a patridiotice*, enquanto nacionalismo saloio criado por Scolari em Portugal, não vinga em países desenvolvidos e modernos. A selecção de futebol do país vai pagar, por muitos e bons anos, este populismo castrista/caravaggiano.

[* termo devido a Vale de Almeida]

quarta-feira, outubro 31, 2007

Destaque

Bruno Sena Martins escreve com um pensamento tanto independente quanto crítico. Uma escrita antropológica arejada que dá sempre prazer ler, quer seja sobre futebol ou discriminação positiva. Avatares de um desejo é o nosso destaque da semana.

quarta-feira, junho 13, 2007

Que raio de tradições

Também os candidatos à Câmara de Lisboa desfilaram nas marchas populares, por enquanto, ainda só na de Santo António, "um senhor careca, de bata castanha, com um filho ao colo e um livro...", como disseram as criancinhas entrevistadas. Todos eles manifestaram a certeza de que com eles, a tradição mais genuína de Lisboa não acaba. É verdade que estes homens não são obrigados a saber um pouquinho de antropologia. Mas ficava-lhes bem, uma vez por outra, não se armarem em popularuchos de bairro, a falar a "voz do povo".