terça-feira, março 20, 2018
A minha rua é de poeta
quarta-feira, março 25, 2015
Herberto Helder
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder, excerto de Cinco Canções Lunares
domingo, outubro 12, 2014
Ouro e Vinho de Adão Contreiras
sexta-feira, março 21, 2014
Primavera Pessoa
terça-feira, setembro 24, 2013
quarta-feira, março 21, 2012
Poesia junto ao mar
quarta-feira, junho 29, 2011
Rosa e as ciências
sexta-feira, junho 17, 2011
Amar a Vida Inteira
61
Amo-te. Basta-me um pássaro,
uma árvore
para me transportar ao jardim
de ti — um livro, uma palavra, o peso
do silêncio
para me levarem ao poço de ti,
aos teus olhos que ofuscam
o cristal da manhã; à tua boca
aproximando-se da minha pele
como se regressasse a casa.
Cantar-te é desfazer o nevoeiro da minha vida,
desfiar uma chama, ardendo lenta,
que não se via. E basta-me um vinho
ou a tua língua,
ou a memória dela
para que em mim disparem águas
trémulas — ainda são — por isso
quando te amo
sou um pouco essa montanha que tece com o vento
uma combustão muito lenta muito paciente
como se todo o fulgor da vida
se concentrasse nos vales e nos rios do teu corpo.
quinta-feira, abril 14, 2011
Ramos Rosa

Que importa que as vozes dos senhores continuem sempre soberanas, sempre fluentes, sempre totalitárias? A grande revolução não será feita pelas palavras deles mas quando o silêncio impregnar as palavras para que nelas transpareça o que está para além das palavras. Sim, nós não sabemos ainda, ainda não começámos sequer. Apenas sabemos que a metamorfose do silêncio mudará o mundo, porque o mundo deixar-se-á ver tal qual ele é, e nós seremos outros. (p. 10)
quarta-feira, dezembro 01, 2010
Cultura popular em Alte

Amigos e amigas:
A Câmara Municipal de Loulé e Adão Contreiras e Helder Raimundo convidam-te para estares presente na Sessão de Cultura Popular "Do Sol e da Terra", que irá decorrer em Alte, no próximo sábado, 4 de dezembro, a partir das 16.30h no Pólo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte.
A sessão inclui a apresentação, a cargo de Helder Raimundo, do segundo livro da poeta popular Albertina Coelho Rodrigues, de Paderne, que recitará poemas da obra e alguns inéditos e fará uma sessão de autógrafos.
Na segunda parte será apresentado, pela primeira vez ao público, o filme "Tudo Vai dar em Cantigas" (70'/cor), que aborda a vida, o canto e a dança dos Velhos da Torre, produzido e realizado por Adão Contreiras e Helder Raimundo, que falarão sobre a obra. No final, os presentes poderão conviver com os actores do filme, o casal Sofia Coelho da Silva e Francisco Cabrita Belchior, que estarão connosco.
No intervalo será proporcionada uma degustação de um lanche tradicional, tendo como base o figo, a amêndoa e as ervas campestres.
Contamos com a vossa presença, que muito nos honrará. Até lá!
Adão e Helder.
segunda-feira, abril 12, 2010
Artistas plásticos homenageiam as tílias da Praça
sábado, abril 10, 2010
Poema das árvores

Poema das Árvores
As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.
As árvores, não.
Solitárias, as árvores
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.
Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.
António Gedeão
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
Poema lá fora
Entrúdios
Os cogumelos já se foram,
Diz o senhor Fausto, olhando o renque de pinheiros húmidos.
Dois burros tristes olhando a praça do povo,
Água da natureza derramando folhas na rua 1º de Maio.
Viviane na rua da Saudade, na noite fria da Ursa Menor.
Carnaval confrangedor, de turistas encafuados,
Longe do Entrudo chocalheiro.
São Miguel, Baiona, Odeceixe…
Tempos modernos e românticos,
Lado a lado,
Disputando o futuro.
*
Alentejo, 16 Fevereiro 2010
segunda-feira, novembro 02, 2009
Jorge de Sena
por segurança do Estado
ou para melhor êxito
nas negociações internacionais,
é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.
Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.
Porque, se há algum segredo na vida pública
que todos não podem saber
é porque alguém, sem saber,
é o preço do negócio feito.
E se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou o fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros
e nem pagam decentemente
senão aos maus actores.
quarta-feira, junho 24, 2009
Novas do Casimiro
As minhas mãos vazias
Estão cheias de lixo:
As escamas da tribo / o palavreado
A frágil centopeia das cidades.
As mãos nuas e não sei
Que fazer delas: as águas
Uma só água: madeira depurada
Nos oboés do vento / metal nebuloso
Do meu coração. Escuto
As doenças do mundo a sua respiração
Na tarde que apodrece mas não cai
Pois não há lugar onde alguma coisa
Possa cair.
Casimiro de Brito, 22/6
quinta-feira, junho 18, 2009
Corações
Agora, algo completamente diferente:
4
O "bem feito" incomoda-me, o demasiado limpo. Sinto-me mais livre dentro das metáforas porosas. Mais nu. Mas nada de algodão, de areia.
O pó da morte, saltando de um lado para o outro como se fosse
um insecto louco, basta. Quero dizer, não se pode evitar, nem há que ser evitado. Olhá-lo, comê-lo, viajar nele.
5
Não se pode explicar o que nasce puro, num só traço,
saído do coração.
6
Vou na cidade e depois salto para dentro do texto.
Mas o texto expulsa-me e fico de novo perdido no ruído da rua.
quarta-feira, abril 01, 2009
Dia Mundial da Poesia
1
O avô dizia-me, tinha eu 8 anos: Não comas três figos se dois te bastam nem digas 10 palavras se com 5 podes dizer o mesmo e levar o outro a ler (a continuar) o que tu escreveste. Por isso Paul Éluard dizia que “A poesia é feita por todos”.
2
Diana (a filha, também com 8 anos), perguntou-me:
— Qual é o cúmulo da escrita? Que não sei, digo.
— É uma pessoa gostar tanto de escrever — respondeu — que enche todas as folhas do mundo e depois escreve nas folhas das árvores e nas ruas e nas praias e em toda a parte do mundo...
3
Soltar a canção, uma voz crepuscular habitada por mil primaveras.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Cinzento
depois da queda dos frutos.
Enterradas em soturnidade,
parecem despidas de tudo,
do sol do Algarve e do céu um pouco mais azul.
Só o convento de Santo António nos olha,
aguardando, na sua brancura, a chegada da primavera.
quinta-feira, janeiro 15, 2009
A Ilha Deserta
Se eu pudesse levar um livro para uma ilha deserta pedia um e-book: a Errata de George Steiner. Mas com links para os textos que ele cita. Podia lá ficar uma vida inteira. Se possível, com uma Sexta-Feira. Eu até podia fazer o mesmo aqui se não tivesse os olhos e os ouvidos cheios de pó.
Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, edições Quasi, 2007.



