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terça-feira, março 20, 2018

A minha rua é de poeta


Natália Correia é nome de rua. De muitas ruas em Portugal. O jornal Público dá conta de que é a 5ª personalidade feminina com mais nomes de ruas em Portugal. Também é nome da minha rua, entre dois nomes masculinos, claro: Fernando Namora e Miguel Torga. Assim, cumpre a quota de 33%, apesar de em Portugal a diferença ser muito maior. Diz o artigo referido que "Só 15% das ruas com nomes próprios são de mulheres" (8 março 2018).
No meu bairro não cumprimos ainda a paridade, mas apenas a lei!

quarta-feira, março 25, 2015

Herberto Helder

BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Helder, excerto de Cinco Canções Lunares

domingo, outubro 12, 2014

Ouro e Vinho de Adão Contreiras




Ontem, Adão Contreiras apresentou o seu mais recente livro de poemas, Ouro e Vinho, editado pela 4Águas Editora. O comentário de Tiago Nené sobre o livro conteve aspetos que me interessam abordar, já que conheço o Adão.
1. “O voyuerismo do olhar”: Adão é um observador nato e consegue estar dentro e fora da realidade. Se há algo de curiosidade no olhar do que se escreve, o que conta aqui é mais o resultado desse desenlace. Trata-se de um olhar para ver e interpretar, talvez na senda atual de um Baudelaire. Adão entra e sai de cada poema com facilidade.
2. “O poema em direto”: A escrita poética momentânea, não é direta. Adão carrega atrás de si muitos anos de leitura, escrita, anotações. Quando escreve traduz um tempo passado, mesmo que o ato seja presente, que já não o é. Hoje sabemos que a nossa escrita é sempre a reinterpretação de algo, mesmo que seja apenas a interpretação do que vemos. Também se trata de uma interação, pois o autor não está isolado numa redoma, mas presente e em ato,com o que se passa, ou com o momento sobre o qual reflete, escrevendo mais tarde.
3. É comum, entre as várias expressões artísticas atuais, chamar a atenção para o vazio do futuro ato criativo. Por exemplo os fotógrafos fotografam cada vez menos. Isto decorre da visão futura do artista, como se já conhecesse o resultado final. Adão confessa já quase não ouvir música, mas ela estará presente no ritmo da escrita poética. Os poemas do autor são também eles uma construção artística, pictórica ou escultórica. Adaõ escreve como pinta e esculpe e ele já sabe o resultado final da obra.

Helder Raimundo, 12 out. 2014

sexta-feira, março 21, 2014

Primavera Pessoa

O início da primavera é marcado por nuvens pouco sombrias sobre o monte da mãe soberana, arroteado para as canas dos foguetes da próxima páscoa. Os tomilhos, esses foram ceifados pelas máquinas, e os abelharucos migraram para outros ninhos, noutras barreiras mais calmas.
Dia de Pessoa, também, em Lisboa sua terra de poesia.

terça-feira, setembro 24, 2013

"Estou vivo. E escrevo só!"

António Ramos Rosa, poeta e desenhador de Faro, morreu hoje [23 de setembro] em Lisboa.

quarta-feira, março 21, 2012

Poesia junto ao mar

Catita e Companhia é nome de bar, na baixa de Olhão. Antes foi nome da cadela e filhos/as respetivas, animais do Fernando Cabrita, amigo e excelente poeta da cidade. Esta noite, no tal bar, em Olhão, lá vão estar amigos e outros poetas no Dia Mundial da Poesia: Fernando Cabrita, Viviane, Luis Ene (há que tempos!), Raquel Ponte...

apoesiaéparasecomer

quarta-feira, junho 29, 2011

Rosa e as ciências

Ramos Rosa continua a deleitar-nos com o seu charme poético. Pela mão da sensível sobrinha Gisela, ele lá esteve na apresentação da obra Prosas Seguidas de Diálogos (obrigatório ler), no Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa. Um pequeno filme de Adão Contreiras pode ser visto aqui.

sexta-feira, junho 17, 2011

Amar a Vida Inteira

O nosso amigo e poeta Casimiro de Brito apresenta, no próximo dia 21, a sua obra Amar a Vida Inteira, 3º volume da trilogia Livro das Quedas. Na Casa Fernando Pessoa, apresentado por João Barrento e poemas lidos por Sílvia Brito. Um deles será (oferecido pelo poeta aos amigos):

61

Amo-te. Basta-me um pássaro,
uma árvore
para me transportar ao jardim
de ti — um livro, uma palavra, o peso
do silêncio
para me levarem ao poço de ti,
aos teus olhos que ofuscam
o cristal da manhã; à tua boca
aproximando-se da minha pele
como se regressasse a casa.
Cantar-te é desfazer o nevoeiro da minha vida,
desfiar uma chama, ardendo lenta,
que não se via. E basta-me um vinho
ou a tua língua,
ou a memória dela
para que em mim disparem águas
trémulas — ainda são — por isso
quando te amo
sou um pouco essa montanha que tece com o vento
uma combustão muito lenta muito paciente
como se todo o fulgor da vida
se concentrasse nos vales e nos rios do teu corpo.

quinta-feira, abril 14, 2011

Ramos Rosa


Um dos nossos grandes poetas, marcado sempre pela solaridade do sul e pela cintilação das estrelas que flamejam nas açoteias foi, esta tarde, mais uma vez partilhado connosco na apresentação do seu último livro, na reitoria da Universidade do Algarve. A obra chama-se Prosas seguidas de Diálogos, publicada pela 4Águas, editora algarvia da responsabilidade do poeta Esteves Pinto, que referiu o trabalho de edição. A minha colega Adriana Nogueira deu uma magnífica aula aos seus alunos, através das referências greco-latinas do poeta, lendo e animando alguns dos excelentes excertos do livro. Indispensável o complemento da curta metragem de Adão Contreiras, numa visão directa, presente e crua do poeta desnudado em sua casa.
Que importa que as vozes dos senhores continuem sempre soberanas, sempre fluentes, sempre totalitárias? A grande revolução não será feita pelas palavras deles mas quando o silêncio impregnar as palavras para que nelas transpareça o que está para além das palavras. Sim, nós não sabemos ainda, ainda não começámos sequer. Apenas sabemos que a metamorfose do silêncio mudará o mundo, porque o mundo deixar-se-á ver tal qual ele é, e nós seremos outros. (p. 10)

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Cultura popular em Alte

Amigos e amigas:

A Câmara Municipal de Loulé e Adão Contreiras e Helder Raimundo convidam-te para estares presente na Sessão de Cultura Popular "Do Sol e da Terra", que irá decorrer em Alte, no próximo sábado, 4 de dezembro, a partir das 16.30h no Pólo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte.
A sessão inclui a apresentação, a cargo de Helder Raimundo, do segundo livro da poeta popular Albertina Coelho Rodrigues, de Paderne, que recitará poemas da obra e alguns inéditos e fará uma sessão de autógrafos.
Na segunda parte será apresentado, pela primeira vez ao público, o filme "Tudo Vai dar em Cantigas" (70'/cor), que aborda a vida, o canto e a dança dos Velhos da Torre, produzido e realizado por Adão Contreiras e Helder Raimundo, que falarão sobre a obra. No final, os presentes poderão conviver com os actores do filme, o casal Sofia Coelho da Silva e Francisco Cabrita Belchior, que estarão connosco.
No intervalo será proporcionada uma degustação de um lanche tradicional, tendo como base o figo, a amêndoa e as ervas campestres.

Contamos com a vossa presença, que muito nos honrará. Até lá!
Adão e Helder.

segunda-feira, abril 12, 2010

Artistas plásticos homenageiam as tílias da Praça

Duas semanas após a acção dos cidadãos de Loulé em defesa das árvores urbanas do concelho, outro conjunto de cidadãos - entre os quais estavam alguns artistas plásticos do concelho - organizaram uma homenagem às árvores abatidas na Praça da República. Os munícipes e visitantes, que no passado sábado passeavam frente à Câmara Municipal ou faziam compras no mercado, ouviram as explicações dos organizadores da iniciativa simbólica em defesa das 16 tílias abatidas. Sobre os cepos das árvores elementos iconográficos como fotos, poemas ou flores, criavam uma ambiente afectivo de respeito pela natureza e pela vegetação arbórea, tão importante para os ambientes urbanos excessivamente poluídos e impermeabilizados e fornecedora de abrigo da avifanua e de sombreamento do espaço público. Alguns cidadãos leram poemas alusivos às árvores (foto de cima) e outros acabaram por se nos juntar, na educação ambiental e cívica tão necessária (foto de baixo).

O livro de condolências da iniciativa assinalou um conjunto de contributos que iremos divulgar, no seguimento da mensagem da pequena Sofia que aqui já se publicou.

sábado, abril 10, 2010

Poema das árvores


Poema das Árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.

Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fosse.

As árvores, não.

Solitárias, as árvores

exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós

E entretanto dar flores.

António Gedeão

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Poema lá fora

Entrúdios

Os cogumelos já se foram,

Diz o senhor Fausto, olhando o renque de pinheiros húmidos.

Dois burros tristes olhando a praça do povo,

Água da natureza derramando folhas na rua 1º de Maio.

Viviane na rua da Saudade, na noite fria da Ursa Menor.

Carnaval confrangedor, de turistas encafuados,

Longe do Entrudo chocalheiro.

São Miguel, Baiona, Odeceixe…

Tempos modernos e românticos,

Lado a lado,

Disputando o futuro.

*

Alentejo, 16 Fevereiro 2010

segunda-feira, novembro 02, 2009

Jorge de Sena

Cruzar a homenagem a Jorge de Sena, feita ontem pelo Câmara Clara, com o programa do governo PS entregue hoje na AR dá nisto (poema de Jorge de Sena):


De cada vez que um governo necessita de segredos,
por segurança do Estado
ou para melhor êxito
nas negociações internacionais,
é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.

Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.

Porque, se há algum segredo na vida pública
que todos não podem saber
é porque alguém, sem saber,
é o preço do negócio feito.
E se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou o fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros
e nem pagam decentemente
senão aos maus actores.

quarta-feira, junho 24, 2009

Novas do Casimiro

22 de Na Via do Mestre

As minhas mãos vazias
Estão cheias de lixo:
As escamas da tribo / o palavreado
A frágil centopeia das cidades.
As mãos nuas e não sei
Que fazer delas: as águas
Uma só água: madeira depurada
Nos oboés do vento / metal nebuloso
Do meu coração. Escuto
As doenças do mundo a sua respiração
Na tarde que apodrece mas não cai
Pois não há lugar onde alguma coisa
Possa cair.

Casimiro de Brito, 22/6

quinta-feira, junho 18, 2009

Corações

No outro dia em Lisboa, no trânsito entre estações do metro, livros à solta, sujos do pó das carruagens. Entre eles um Casimiro de Brito, do ano de 2001, «Na barca do Coração» de que o António gosta muito. Só o sopesei, mas tive de comprar outros. Doutoramento oblige. Lá veio o Strindberg (falar-vos-ei dele em breve) e uma colectânea do O'Neill.
Agora, algo completamente diferente:

4

O "bem feito" incomoda-me, o demasiado limpo. Sinto-me mais livre dentro das metáforas porosas. Mais nu. Mas nada de algodão, de areia.

O pó da morte, saltando de um lado para o outro como se fosse

um insecto louco, basta. Quero dizer, não se pode evitar, nem há que ser evitado. Olhá-lo, comê-lo, viajar nele.

5

Não se pode explicar o que nasce puro, num só traço,

saído do coração.

6

Vou na cidade e depois salto para dentro do texto.

Mas o texto expulsa-me e fico de novo perdido no ruído da rua.


Casimiro de Brito, Fragmentos para o Dia Mundial da Poesia, 2009


quarta-feira, abril 01, 2009

Dia Mundial da Poesia

Eu sei que já vai tarde, mas, mais vale tarde do que nunca. É que o poeta amigo Casimiro de Brito enviou-nos 18 "Fragmentos para o Dia Mundial da Poesia" e eu não poderia deixar de os partilhar aqui:

1
O avô dizia-me, tinha eu 8 anos: Não comas três figos se dois te bastam nem digas 10 palavras se com 5 podes dizer o mesmo e levar o outro a ler (a continuar) o que tu escreveste. Por isso Paul Éluard dizia que “A poesia é feita por todos”.

2
Diana (a filha, também com 8 anos), perguntou-me:
— Qual é o cúmulo da escrita? Que não sei, digo.
— É uma pessoa gostar tanto de escrever — respondeu — que enche todas as folhas do mundo e depois escreve nas folhas das árvores e nas ruas e nas praias e em toda a parte do mundo...

3
Soltar a canção, uma voz crepuscular habitada por mil primaveras.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Cinzento

Olho em frente, as oliveiras sombrias
depois da queda dos frutos.
Enterradas em soturnidade,
parecem despidas de tudo,
do sol do Algarve e do céu um pouco mais azul.
Só o convento de Santo António nos olha,
aguardando, na sua brancura, a chegada da primavera.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

A Ilha Deserta

229.
Se eu pudesse levar um livro para uma ilha deserta pedia um e-book: a Errata de George Steiner. Mas com links para os textos que ele cita. Podia lá ficar uma vida inteira. Se possível, com uma Sexta-Feira. Eu até podia fazer o mesmo aqui se não tivesse os olhos e os ouvidos cheios de pó.

Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, edições Quasi, 2007.

sábado, janeiro 03, 2009

Ecos da poesia

O Jornal de Paderne A Avezinha publica uma reportagem sobre o lançamento do livro de Albertina Coelho Rodrigues, poeta popular de Paderne, obra que prefaciei e apresentei no passado 21 de Dezembro (link).