sexta-feira, outubro 06, 2017
Edital
Houve um tempo em que, durante o sono, os posts sucediam-se como gotas de chuva na corrente. Nos tempos de seca que correm, as páginas do blog teem estado em branco como o céu visto de dentro da água salgada. Ao procurar alguns blogs de eleição, vejo-os na mesma. A porra do facebook, ainda por cima com minúsculas rasteiras, anda a dar cabo das boas prosas...
Já agora, acabo de ler uma boa dose delas: aqui e aqui.
domingo, maio 29, 2016
Miniconto publicado no Brasil
Quando o pai dele morreu, levei-o silencioso. Andamos sem destino, mas a estranheza da morte levou-me a caminhar para a mata, uma pequena floresta de eucaliptos, onde lembro de ter disposto alguns sacos pretos com sementes.
Ali, sentia-me protegido das desgraças inapercebidas do mundo. Parando junto a um eucalipto, já muito alto e magro, o meu amigo chorou. Teríamos nove, dez anos? Não me lembro bem.
Mas sei que depois de termos olhado o rio, ali mesmo à nossa frente, ele voltou a lembrar-se de como era a vida. Só muito mais tarde compreenderia o seu regresso. A noite passada tinha dormido debaixo do mesmo teto, perto de um pai morto. A mãe mantivera-se acordada ao lado do pai morto, sem apelar aos vizinhos a dor da alma; e ele cumprira o prometido: só chorar no dia seguinte.
sexta-feira, julho 24, 2015
quarta-feira, janeiro 21, 2015
Mais um de literatura camiliana
terça-feira, dezembro 30, 2014
Todos temos a nossa Lolita, diria Nabokov
(...) A minha Lolita tinha uma maneira muito sua de levantar o joelho esquerdo dobrado, no amplo e elástico início do ciclo do servir, criando, e deixando pairar ao sol durante um segundo, uma teia vital de equilíbrio entre as pontas dos pés, a prístina axila, o braço bronzeado e a raqueta lançada muito para trás, um segundo em que sorria, de dentes cintilantes, ao globo suspenso tão alto, no zénite do potente e gracioso cosmos que ela criara com o objetivo expresso de lhe cair em cima com o estalido vibrante do seu chicote dourado. (...)
quarta-feira, julho 30, 2014
Mexilhões com alecrim e pimentos
segunda-feira, julho 21, 2014
E agora, algo completamente diferente!
segunda-feira, fevereiro 24, 2014
10 anos de blogagem
domingo, novembro 10, 2013
Edital à direita
quarta-feira, novembro 06, 2013
Edital da casa
terça-feira, novembro 05, 2013
domingo, março 24, 2013
domingo, outubro 21, 2012
Platão e a atualidade
terça-feira, junho 12, 2012
Ovos escalfados
segunda-feira, março 26, 2012
sábado, março 17, 2012
Edital
segunda-feira, fevereiro 06, 2012
Ser campeão distrital
sexta-feira, dezembro 16, 2011
Edital da casa
quarta-feira, julho 06, 2011
Um conto de Verão, por causa de Camilo
O E-SCRAVO SUBVERSIVO
Anda um barquinho no mar! Foi a primeira frase que ouviu, quando retirou os olhos da folha oficial timbrada que o chefe lhe tinha entregue, com uma ordem precisa e imperativa: António, este assunto é para resolver de imediato!
Olhou para o mar, ainda absorto no que acabara de ler, definindo mentalmente como iria proceder para não levantar melindres. De facto, perto da praia, onde tinha acabado de beber um café com um pouco de açúcar refinado, cerca de quatro gramas do pacote por causa das ameaças de saúde, uma embarcação de pesca navegava às voltas, arrastando a ganchorra de ferro e rede da apanha de conquilhas. O casal, na mesa ao seu lado, confirmava o que já sabia. Que os pescadores da terra não apanhariam nada naquele mar revolto, de vaga alta e permeado de algas e plâncton, águas boas para a captura de robalo e peixe-aranha, mas incapazes para desenterrar os bivalves saborosos, como os que a sua mãe abria nas papas de farinha de milho que costumava comer em dias de inverno. Quando era criança, lembrava-se bem, só comia aquela papa amarela se a mãe lhe derramasse leite alvo trazido à aldeia pelo leiteiro, acrescentado de açúcar amarelo, que cristalizava no frio à volta do prato. Era assim que confortava um estômago arrepiado e farto da única comida acessível de todos os dias.
Voltou às suas preocupações de serviço. Quando terminou o curso e se candidatou à polícia, sempre pensara que ficaria o tempo de trabalho na sua secretária de mogno velho, arrumando papéis, lendo as ordens de serviço e as leis do governo, mas nunca que viria a receber ordens do chefe para ir prender uma mulher. Pegou de novo na folha amarelada, com os cuidados extremos de um polícia desconfiado, para ler a ordem expressa, assinada pelo director da capital e que o chefe do seu posto tinha despachado para ele. A mulher era uma jovem, podia ler-se a idade na folha, e trabalhava numa fábrica de conservas de peixe. E ele, que julgava que há muito tempo o cheiro a peixe cozido e as sirenes das fábricas se tinham extinguido. Na verdade, nunca mais vira aqueles ranchos apressados, vestidos de bibes de chita aos quadriculados e de fatos de ganga azul, tecidos comprados na Casa Verde para costurar por medida, ajustados aos corpos ondulados e fartos das mulheres e aos físicos tesos e esguios dos homens.


