quarta-feira, julho 06, 2011

Um conto de Verão, por causa de Camilo

Não sei se são tempos de contar contos. Pensando em Camilo, e na evidência da sua retirada dos manuais do ensino secundário - assunto a que gostaria de voltar - inicio hoje a publicação de um conto que escrevi para o concurso de Novos Talentos da FNAC. Com a regularidade possível irei deixando aqui os seus retalhos:
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O E-SCRAVO SUBVERSIVO

Anda um barquinho no mar! Foi a primeira frase que ouviu, quando retirou os olhos da folha oficial timbrada que o chefe lhe tinha entregue, com uma ordem precisa e imperativa: António, este assunto é para resolver de imediato!

Olhou para o mar, ainda absorto no que acabara de ler, definindo mentalmente como iria proceder para não levantar melindres. De facto, perto da praia, onde tinha acabado de beber um café com um pouco de açúcar refinado, cerca de quatro gramas do pacote por causa das ameaças de saúde, uma embarcação de pesca navegava às voltas, arrastando a ganchorra de ferro e rede da apanha de conquilhas. O casal, na mesa ao seu lado, confirmava o que já sabia. Que os pescadores da terra não apanhariam nada naquele mar revolto, de vaga alta e permeado de algas e plâncton, águas boas para a captura de robalo e peixe-aranha, mas incapazes para desenterrar os bivalves saborosos, como os que a sua mãe abria nas papas de farinha de milho que costumava comer em dias de inverno. Quando era criança, lembrava-se bem, só comia aquela papa amarela se a mãe lhe derramasse leite alvo trazido à aldeia pelo leiteiro, acrescentado de açúcar amarelo, que cristalizava no frio à volta do prato. Era assim que confortava um estômago arrepiado e farto da única comida acessível de todos os dias.

Voltou às suas preocupações de serviço. Quando terminou o curso e se candidatou à polícia, sempre pensara que ficaria o tempo de trabalho na sua secretária de mogno velho, arrumando papéis, lendo as ordens de serviço e as leis do governo, mas nunca que viria a receber ordens do chefe para ir prender uma mulher. Pegou de novo na folha amarelada, com os cuidados extremos de um polícia desconfiado, para ler a ordem expressa, assinada pelo director da capital e que o chefe do seu posto tinha despachado para ele. A mulher era uma jovem, podia ler-se a idade na folha, e trabalhava numa fábrica de conservas de peixe. E ele, que julgava que há muito tempo o cheiro a peixe cozido e as sirenes das fábricas se tinham extinguido. Na verdade, nunca mais vira aqueles ranchos apressados, vestidos de bibes de chita aos quadriculados e de fatos de ganga azul, tecidos comprados na Casa Verde para costurar por medida, ajustados aos corpos ondulados e fartos das mulheres e aos físicos tesos e esguios dos homens.

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