quarta-feira, julho 13, 2011

Mais um bocado de conto


O E-SCRAVO SUBVERSIVO


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A jovem tinha o nome da sua mãe, chamava-se Maria Antónia. Na ordem escrita não constava mais nome nenhum. Talvez a polícia não os conhecesse, ou seria a rapariga que teria apenas dois nomes? Uma situação estranha nestes tempos de cidadania, em que o comum seria cada pessoa ter dois sobrenomes, apostos pela discriminação hierárquica de género: primeiro o da mãe e a seguir o do pai, deixando à paternidade a identidade perene.

Lembrava-se de ter confirmado que a sua mãe também tinha apenas aqueles dois nomes. Maria Antónia, estava escrito no bilhete de identidade que guardara na caixa dos sapatos pretos sem cordões, comprados para calçar no funeral dela. Recordava-se de o ter olhado algum tempo, aceitando, por fim, o que a sua mãe sempre lhe dissera, que aquele era o seu nome, e chegava para ela, não descendia da nobreza da terra, nem tinha famílias de brasão e anel.

Esqueceu aquela insistência sobre um nome vulgar, uma coincidência que também o chamava para a mesma família de palavras, através do nome que lhe deitaram ao nascer: António. Dobrou a folha amarelada e guardou-a no bolso interior do casaco cinzento, bem assertoado ao corpo esguio, decidido a resolver aquela tarefa de uma vez por todas. Era a sua primeira prova de fogo como polícia do trabalho. Sabia que lhe tinham atribuído aquela acção para o testar. Ou tinha tomates para ir buscar aquela mulher prevaricadora e subversiva e interrogá-la como nos velhos tempos, ou então seria corrido para a aldeia decrépita e miserável onde nascera e crescera, entre estrumeiras, barracas e peixe seco.

Indireitou o corpo ainda mais, como se quisesse ficar perto do céu, olhou e aspirou o perfume do mar naquela manhã luminosa e limpa, e entrou no carro eléctrico que havia comprado a crédito, caro, mas carregado de eficiência energética e limpo de combustíveis fósseis. Dirigiu-se para a fábrica que ficava do outro lado da cidade, na margem do rio que bem conhecia.

Fora nas suas águas que se tinha iniciado na vida adolescente do sexo e do roubo, primeiro com os jovens mais velhos das periferias operárias da cidade, depois, ele próprio se encarregou de chefiar o grupo. Foram os reis da praia, entre os primeiros turistas descidos no novo aeroporto, mulheres jovens, brancas como lulas frescas e camones chatos como a potassa, que não largavam o pé das miúdas. No rio, denunciava já as suas qualidades de coragem e temeridade, lançando-se, de braços abertos, de cima da ponte ferroviária para as águas lodosas e baixas do rio na baixa mar. O Zé Merra tinha partido o pescoço, num mergulho na praia, mas esse era estúpido e não calculava o risco, que ele aprendera a medir, cheio de calculismos e previsões lógicas. Só uma profissão de prestígio físico e moral, ao serviço da pátria, o poderia esperar nos anos activos e estatísticos da vida profissional.

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