quinta-feira, junho 18, 2009

Corações

No outro dia em Lisboa, no trânsito entre estações do metro, livros à solta, sujos do pó das carruagens. Entre eles um Casimiro de Brito, do ano de 2001, «Na barca do Coração» de que o António gosta muito. Só o sopesei, mas tive de comprar outros. Doutoramento oblige. Lá veio o Strindberg (falar-vos-ei dele em breve) e uma colectânea do O'Neill.
Agora, algo completamente diferente:

4

O "bem feito" incomoda-me, o demasiado limpo. Sinto-me mais livre dentro das metáforas porosas. Mais nu. Mas nada de algodão, de areia.

O pó da morte, saltando de um lado para o outro como se fosse

um insecto louco, basta. Quero dizer, não se pode evitar, nem há que ser evitado. Olhá-lo, comê-lo, viajar nele.

5

Não se pode explicar o que nasce puro, num só traço,

saído do coração.

6

Vou na cidade e depois salto para dentro do texto.

Mas o texto expulsa-me e fico de novo perdido no ruído da rua.


Casimiro de Brito, Fragmentos para o Dia Mundial da Poesia, 2009


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