sexta-feira, julho 04, 2008

Treinador de bancada

MULTICULTURAL, SÓ QUANDO INTERESSA

Tinha prometido, nesta crónica, abordar a tão propalada questão do “multiculturalismo” da selecção de futebol de Portugal. E fá-lo-ei, apesar de me apetecer, confesso, ablar un ratito sobre el fútbol castellano.

A questão da multiculturalidade merece umas linhas, já que parece ir conquistando, aos poucos, uma certa intelectualidade bem pensante dos jornais e da televisão. A ideia central deste princípio é que o nosso país dá excelentes exemplos de integração de pessoas de outras etnias e culturas, promovendo uma inclusão de imigrantes oriundos de países externos.

Há dias, um dos habituais comentadores de futebol da RTP Norte, Rui Moreira (conhecido como adepto do FC Porto e presidente da Associação Comercial do Porto), referia que a selecção de futebol, no Euro 2008, era um bom exemplo de multiculturalidade, pois integrava jogadores oriundos do Brasil e de outros países lusófonos.

A questão parece simples, mas não é. Parece simples porque, por estes dias, o futebol foi mostrando, no Euro, como as selecções se constroem a partir da entrega da nacionalidade a jogadores de outros países que trabalham (praticam futebol) nos seus clubes. Alemanha, Espanha, França, Portugal, Turquia, entre outros, são exemplos do que digo. Teríamos assim equipas nacionais multiculturais. Ora bem, não seriam nem uma coisa nem outra. Aliás, como sabemos, esse mecanismo é uma forma estratégica de reforçar as selecções de vários países no quadro competitivo mundial, ou de permitir a determinados jogadores ascender a selecções externas, quando nunca teriam hipóteses nas suas. Na verdade isto não parece uma coisa má. Mas então, se é assim, há que repensar o conceito de “nacional”. Por isso é que, por detrás desta aparente simplicidade, se esconde algo mais complexo.

Exemplifiquemos, de duas formas.

Primeira: a defesa da multiculturalidade só se acentua quando se fala de futebol. Pouca gente sabe mas, por exemplo, a selecção nacional de andebol feminino não pôde contar com a presença, na sua equipa, de jogadoras exímias dos clubes de bairro da periferia de Lisboa. Razões? Só porque não detinham a nacionalidade portuguesa, apesar de terem nascido em países africanos de língua oficial portuguesa ou, tendo nascido cá, não a tinham ainda obtido. Como se sabe, o futebol de Scolari, com a conivência da Federação e do governo, foi mais lesto e expedito.

Segunda: a bandeira nacional multicultural só se alvoroça quando se trata dos ícones de topo do orgulho nacional. Muitos anos de salazarismo deram nisto. O que nos leva a sustentar, que somos um povo exemplar na multiculturalidade espelhada no brilho da selecção, mas esquecendo a exclusão que fazemos, todos os dias, a pessoas imigrantes dos antigos países da Europa de Leste, do Brasil, da China, ou mais próximos de nós, ali das antigas colónias de Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Guiné.

Não sendo de nenhuma destas nacionalidades, mas apesar de tudo oriundo de uma certa cultura africana, Francis Obikwelo é um paradigma do que acabo de dizer. Porquê? A resposta é simples. Enquanto imigrante nigeriano, Francis era apenas mais um negro a trabalhar nas obras de algumas empreitadas do Algarve. Depois, foi o que sabemos: enquanto velocista de mérito, Francis seria um digno representante da bandeira multicultural de Portugal nos Jogos Olímpicos.

Pergunta-se: então, afinal, quem é que é multicultural? Resposta: o melhor é não abrir a boca, porque pode entrar mosca ou sair asneira.

(A Voz de Loulé, 1 Julho 2008)

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