terça-feira, março 18, 2008

Treinador de Bancada

FUTSAL:

um explicável jogo de futuro


Fiquem descansados que não vou falar do Camacho (todos sabemos quem é este antigo jogador do Real Madrid; ah, e também o mais recente ex-treinador do Benfica). A verdade é que, nos últimos dias, este eclipse mediático pareceu obscurecer a marcha de indignação dos professores e a visita do Presidente da República ao Brasil. E tudo por causa da saída de um treinador de uma equipa de futebol, ou da “mea culpa” de um dos capitães da equipa.

Hoje prefiro falar de futsal, essa modalidade híbrida que nos últimos tempos me tem levado ao Pavilhão Desportivo de Loulé, de jornais e moleskine na mão.

O futsal, como o nome indica, é uma modalidade “dois em um”: conjuga o futebol ao mais alto nível e as danças de salão. No meu tempo chamava-se futebol de cinco. Sim, porque se jogava com cinco jogadores a partir pernas uns aos outros nas tabelas de alvenaria que emolduravam o campo, mas que serviam também para executar algumas tabelas do mais digno bilhar de competição. Agora não, o jogo desenrola-se num tapete encerado onde é possível treinar uns carrinhos contra as pernas do adversário. O facto é que as manhas, os truques, as técnicas e outras filosofias do futebol, vêm todas parar ao campo do futsal. Por um lado, é essa a dinâmica e o estilo inato dos jogadores; por outro, os manuais de treinamento são ainda dos craques das Faculdades de Motricidade Humana, viciados em futebol e pouco entendidos em danças de salão. Bem, talvez não seja tanto assim e, convenhamos, os pequenos passes, os corrupios, o picadinho rápido do pé sobre a bola, é muito semelhante ao fox-trot e ao corridinho.

Olhando o jogo de futsal, reconhecemos a dinâmica, a rapidez e o tempo real de jogo, do velho futebol inventado pela burguesia inglesa nos tempos do romantismo. Quando o povo se apropriou da bola e o levou para as ruas, desencadeou um desporto ontológico, de postura e estilo corporal complexos. Sim, porque não me venham dizer que a modernidade é que o desenvolveu. O que a modernidade fez foi matá-lo. Como? Deixou a economia gerir a bola e a sociologia ter de explicar o hooliganismo.

Mas, e o futsal? Ah, esse devolveu-nos a proximidade e a democracia. A proximidade, porque nós estamos ali a ouvir as indicações do treinador e os célebres gritos de guerra dos jogadores (hey) a aplaudir todas as jogadas. Quando o barulho é muito, ou a Sic transmite os jogos de futsal do Benfica, não há nada que nos afaste. Coloca-se um micro na lapela do treinador e ouve-se tudo. Daqui a uns anos, um microprocessador embutido na fronte cerebral de cada treinador permitirá conhecer as suas visões mais eróticas sobre o jogo. E que dizer da capacidade democrática do futsal? Bem, reparem que nada há de maior igualdade e cidadania. No terreno de jogo (melhor, no salão) os praticantes são quase sempre mais do que os espectadores, e isso é uma lição da democracia desportiva. Coisa de que o futebol não se pode orgulhar, mais elitista do que os sacrossantos golfe e ténis, pois é nele que a diferença entre praticantes e público é maior.

E não pensem que o futsal é a ovelha ranhosa da futebolada. Estratégia, técnica e táctica são conceitos tu cá tu lá nos jogos de futsal. Num dos últimos jogos do Louletano, a certa altura os espectadores debruçaram-se ostensivamente sobre a equipa adversária que, à volta do seu treinador, ouviam atentamente as indicações no pequeno quadro magnético. Do outro lado, a equipa do Louletano ouvia classicamente a sinfonia de palavras do seu treinador, argumentando com inflexões de voz, dicção elaborada, voz tonitruante. Na verdade, ele não precisava daquela modernidade, naquele momento. O quadro estava lá e seria usado quando necessário. E o que os espectadores locais queriam não era a absorção do conhecimento de um instrumento moderno e desconhecido, mas simplesmente conhecer as indicações de jogo do adversário, para o perceberem melhor. Que lição de aprendizagem desportiva, hem?

(A Voz de Loulé, 15 Março 08)

Agora que leio o jornal em papel, posso ler nas curtas do António Montes que o treinador de futsal do Louletano, que é referido nesta crónica (Rui Morais), foi substituído pelo seu adjunto (Paulo Cavaco) e antigo jogador. Não sei se por isso, se por aquilo que digo, o que é certo é que o Louletano ganhou, na penúltima jornada, aos Torpedos por grossos 5-1.

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