domingo, março 05, 2006

Micro-textos


Micro-textos publicados na Voz de Loulé de 1 de Março
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O Millieu. Há uns dois anos, talvez, um amigo que queria editar um livro de poesia sobre a "sua" guerra em África, dizia-me que o millieu estaria dominado pelos Mexias, Lombas, Coutinhos, etc. Na altura não percebi, dado que estava assoberbado de trabalho com a coordenação da Comissão de Comemorações do Centenário de José Vieira (Alte) e não tinha muito tempo para ler jornais. Mais tarde percebi, pois fui encontrando os cronistas referidos, primeiro na blogosfera, depois nas crónicas de jornais portugueses e brasileiros. Devo aqui explicar que, independentemente dos seus pontos de vista, leio-os com prazer e refiro-os regularmente. Mas vem esta prosa a propósito de ter ouvido o comentário - ainda há pouco na SicNotícias - de Pedro Lomba sobre a imprensa do dia. E ter verificado que, tal como aconteceu com Pedro Mexia no "Eixo do Mal" do mesmo canal, quase sempre um bom cronista é um mau comentador. E que o facto de escreverem - e bem - em vários jornais (Lomba, por agora, deixou a crónica do Independente na última semana e mantém-se ainda no DN) não é seguro de uma concomitante dinâmica comunicacional. E com essa presença recorrente e supletiva quem perde são os leitores/ouvintes. Aqui anda o célebre amiguismo, um círculo fatídico da comunicação.

Multiculturalismo. Ontem, de manhã, fui com a família ver um jogo de basquetebol entre iniciados. Dum lado os "Tubarões" de Quarteira, do outro o Sporting Clube Farense. A claque do SCF era maioritária e sentava-se na área de ataque do adversário. Sentamo-nos no lado dos Tubarões a apoiar a equipa do concelho em que vivemos. Com o apoio da claque que veio do futebol (ora desaparecido nos pergaminhos do clube) a equipa do Farense, melhor vestida e cheia de salamaleques esteve sempre, desde o início do jogo, à frente do marcador. Quase no fim do jogo, os Tubarões (cheia de miúdos dos bairros sociais de Quarteira, retintos de negros) pegaram na bola e deram um banho aos farenses: 73-69. A mim parece-me que foi por terem visto, na bancada, as jovens branquelas farenses a gritarem e imitarem como macacas, quando eles pegavam na bola para encestar três pontos. Ora toma, aqui, o multiculturalismo!

Decamegalomania. O jornal Público traz, hoje, uma reportagem sobre os estádios do Euro 2004 [pp. 34-35]. O estádio do Algarve é um dos “elefantes brancos” do texto de Manuel Mendes: 320.000 € de receita anual contra 3.200.000 € de despesas anuais com encargos financeiros e de manutenção. Fazendo as contas, 10 vezes mais despesas do que receitas. Tudo a cargo da Associação de Municípios de Faro/Loulé. Explicando, tudo a cargo das Câmaras de Faro e de Loulé e portanto, do erário dos munícipes. Mas para o actual presidente da AMLF e recém eleito presidente da CMFaro nada disso é problema, porque a sua visão estratégica vai para além do estádio e suporta um projecto inexistente chamado Parque das Cidades. Entretanto, no estádio joga o Louletano da II Divisão B, de 15 em 15 dias e os fantasmas do Farense, nos outros dois domingos do mês. Quando este projecto foi acusado de megalómano foi o que se viu. Agora, só se pode acusá-lo de decamegalómano.

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