[Actualizo este post para deixar referências a Charles Bonnet como engenheiro de minas, bem como ligar as notícias do Jornal do Algarve e da RTP sobre a nota da Almargem]
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NOTA DE IMPRENSA
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Destruído jardim de Charles Bonnet em Loulé
Aquilo que já se anunciava há muitos anos, acabou por concretizar-se. O popularmente chamado Jardim do Boné, situado na zona baixa da cidade de Loulé, foi arrasado para vir a dar lugar a um parque de estacionamento e mais uns quantos lotes de apartamentos. A obra resulta de um protocolo entre a Câmara Municipal de Loulé e os actuais proprietários do terreno. O Jardim do Boné ganhou esse nome devido a ter sido local de residência de Charles Bonnet, responsável pelos primeiros trabalhos consistentes de investigação sobre a geologia, a geografia e a história natural do Algarve. Os estudos deste engenheiro francês foram condensados no livro "Memórias sobre o Reino do Algarve", publicado em 1850 pela Academia Real das Ciências de Lisboa e que mereceu uma reedição em 1990 por parte da Delegação Regional da Secretaria de Estado da Cultura. Charles Bonnet viveu durante cerca de uma década em Loulé e aqui acabaria por falecer em 1867. A sua modesta casa da antiga Rua Nova de Quarteira estava rodeada de uma ampla quinta com cerca de 1,5 hectares, onde plantou espécies da flora algarvia e muitas outras espécies agrícolas e ornamentais. Apesar da degradação a que o local havia sido votado nos últimos anos, ele constituía efectivamente um dos poucos espaços verdes da cidade. Dezenas de árvores e outras espécies arbustivas foram já arrancadas nos últimos dias, pondo em risco o desejo de muitos louletanos que era ver este local transformado num verdadeiro Jardim Público. Em 1986, durante o 4º Congresso do Algarve, o Prof. Vilhena Mesquita propôs mesmo que no Jardim do Boné fosse implantado um laboratório de investigação botânica, capaz de atrair e motivar a juventude para o estudo da flora algarvia. Numa cidade, como tantas outras, sem vontade ou capacidade de investirem novos jardins e zonas verdes, é de lamentar que um projecto como este se venha a perder, tanto mais que, em Loulé, este era efectivamente o único espaço do interior da malha urbana da cidade onde ainda se poderia compensar de forma significativa o continuado avanço do betão e do asfalto. Desconhecem-se, neste momento, os contornos exactos do projecto de urbanização em marcha. Mas não serão certamente alguns canteiros plantados de mélias e palmeiras e rodeados de apartamentos de arquitectura duvidosa, que constituirão um bom contributo para a urgente criação de espaços verdes na cidade e, muito menos, uma forma digna de homenagear a memória de Charles Bonnet. Por estas razões, a Associação Almargem exige que, no mínimo, seja preservada a casa de Charles Bonnet, se proceda à sua recuperação e transformação em espaço público dedicado à divulgação da obra deste insigne investigador a quem o Algarve muito deve. E também que uma parte do terreno agora devassado seja reservado para instalar um pequeno Jardim Botânico com espécies da flora algarvia.
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Loulé, 12 de Julho de 2005
Contacto: João Santos (289412959)
Almargem
Nota pessoal: ainda ontem, conversava com um amigo sobre a destruição deste jardim e falávamos da possibilidade de, urgentemente, escrever sobre o tema, já que parece que a actual Câmara adora derrubar património vegetal. Hoje, ao abrir a caixa de correio deparo com este lamento da Associação Almargem que aqui edito como forma de solidariedade e de protesto.
7 comentários:
Lamento, caro Helder, mas neste caso a incúria já tem barbas...
O estado em que se encotrava este "património vegetal" do passado era deprimente... Do património vegetal restava mato emaranhado, abrigo de ratos, cobras e lixos vários.
Talvez tenha sido tardio o alerta de almargem, espero falar com o João Santos sobre o assunto. De realce, o facto de ter sido aprovado um projecto imobiliário no terreno e daí o ambíguo protoloco com a autarquia que ando a tentarc conhecer. Espero que compreendas, estou mais preocupado com este último problema que com a Morto Jardim, apesar do respeito que todos devemos ter por Charles Bonnet.
Desenvolvi uma resposta no sebastiao.
Se possuires documentação sobre a obra do Bonnet que possas disponibilizar, avisa.
Almeida: pela incúria responderão todos os executivos camarários que governaram o município até agora, incluindo o PS, que na anterior reunião votou a proposta de fazer do jardim um parque de estacionamento. Talvez por isso os teus argumentos sobre a valia das espécies lá existentes sejam iguais aos do actual presidente. O que nos interessa é a preservação da memória cultural e isso não se compadece com meia dúzia de oliveira e um busto...entendes?
Entendo sim, e quanto a preservação da memória... compreendo e tudo estou disposto a fazer!
E quanto à incúria, também acho que deve ser repartidas por todos os que têm gerido a autarquia. Não deixando de existir um lamento quanto à oportunidade de alguns protestos.
Acho que as pessoas falam do derrube das árvores, quaisquer que elas sejam, como de uma fatalidade. E o que sabe o presidente da Câmara do valor das espécies em jogo como refere, cheio de sapiência, na entrevista à RTP? E depois, vem dizer que é só repor umas oliveiras. Que falta de dignidade. E o PS revela a mesma falta de inteligência: é sempre melhor um parque de estacionamento do que um velho jardim, mesmo que em mato. Com governantes destes vamos longe...
Eu penso que o busílis da questão, não está em saber se Charles Bonnet, ilustre engenheiro françês, quis fazer ou fez um jardim na sua propriedade ou ainda se a casa onde morou (em ruinas)tem valor arquitetónico ou outro, a polémica centra-se , a meu ver, na opção estratégica, do ponto de vista urbano, dado áquele espaço.Isto é, se naquele lugar se deveria autorizar um empreedimento urbanístico ( edíficios, praça pública, estacionamentos em cave e jardim) ou pura e simplesmente a Câmara deveria comprar o terreno para fazer ali um jardim.Não devemos nunca esquecer que se trata de um terreno privado onde o PDM permite construção.A História aqui é apenas subsidiária sem grande relevância para a discussão.
Digo isto porque conheço bem a obra e vida de Charles Bonnet, que nem sempre tem sido descrita com o rigor e a verdade que merecia.O facto da SEC ter reeditado a sua principal obra sobre o Algarve foi do meu ponto de vista uma decisão acertada e digna de louvor.
Pois é Luis, é justamente esse o búsilis. O pensamento da cidade e a sua compaginação com interesses privados e ainda, no final, a forma como todos vivemos na cidade.
As possibilidades de expansão desta freguesia são limitadas e para zonas cada vez mais remotos escasseando localizações para os equipamentos sociais mecessários.
Planear é preciso e ter coragem de decidir ainda mais preciso é!
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